Gasto social aquece a economia
"Em um país marcado por elevada desigualdade de renda, a importância do Bolsa Família para ...
"Em um país marcado por elevada desigualdade de renda, a importância do Bolsa Família para reduzir a pobreza é evidente, mas existe outra dimensão, menos discutida: o gasto social também afeta o desempenho da economia.
Famílias de menor renda tendem a gastar uma parcela maior da renda que recebem. Quando recebem o benefício, esse dinheiro é usado em alimentos, medicamentos, roupas e serviços. Quem vende esses produtos recebe essa renda e também gasta parte dela. O gasto de uma família transforma-se em renda para outras pessoas. Esse processo aumenta a demanda por bens e serviços, estimulando sua produção, o nível de emprego e o nível da própria renda do país.
É esse mecanismo que está por trás do chamado ‘efeito multiplicador’. A pesquisa acadêmica tem encontrado evidências desse mecanismo, inclusive no Brasil. Em nossas estimativas, cada R$ 1 adicional em benefícios sociais está associado a uma elevação de aproximadamente R$ 2,15 no PIB ao longo de cerca de dois anos.
Esses resultados são importantes para o debate sobre as contas públicas. Isso não significa que o gasto social possa crescer indefinidamente ou que as restrições fiscais sejam irrelevantes. Significa que, quando é preciso ajustar, importa saber onde cortar, inclusive para avaliar a própria efetividade do ajuste.
Um corte no Bolsa Família reduz a despesa do governo, mas também a renda e o consumo das famílias beneficiadas. Isso tende a diminuir a atividade econômica e, com ela, a arrecadação tributária. O efeito final no saldo de receitas e despesas, portanto, não é necessariamente igual ao corte.
Também importa como a política social é financiada. Pesquisas mostram que financiar programas sociais com uma tributação maior sobre os mais ricos, como o 1% do topo, pode gerar efeitos mais favoráveis sobre a atividade econômica do que financiá-los com cortes em outras despesas públicas.
Em um cenário de restrição fiscal, o Bolsa Família não deveria ser um dos alvos prioritários do ajuste. Seus efeitos sobre a pobreza e a atividade econômica mostram que seu custo não pode ser avaliado apenas pelo valor do orçamento. Reduzir a desigualdade de renda é fundamental para promover justiça social e também pode contribuir para sustentar a atividade econômica e, com ela, a própria arrecadação tributária."
Marina Sanches é professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pesquisadora do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made) da USP