Com energia limpa, nordeste atrai data centers
Em um contexto de transição energética e economia digital, a matriz de energia ...
Em um contexto de transição energética e economia digital, a matriz de energia majoritariamente limpa do Brasil coloca o país, em especial o Nordeste, em vantagem competitiva na atração de investimentos em data centers. Para autoridades e representantes da indústria reunidos no evento "Nordeste como hub digital do futuro", realizado ontem em Fortaleza, o cenário favorece a construção de um polo de centros de dados na região para prestação de serviços não apenas em território brasileiro, mas também para a América Latina e o Sul Global.
O evento faz parte do projeto Transição Energética, promovido pelo GLOBO e pelo Valor Econômico.
O ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, que participou da primeira mesa do debate, "Energia limpa como base da infraestrutura digital", afirmou que o investidor procura energia, conectividade, segurança jurídica e tráfego internacional. E frisou que incentivos tributários também são essenciais para a atração de investimentos.
Ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou o Redata, programa que reduz impostos para empresas interessadas em instalar ou ampliar data centers no Brasil. Tributos cobrados na compra ou importação de equipamentos de tecnologia serão reduzidos a zero. O custo estimado para os cofres públicos é de R$ 7,5 bilhões em três anos.
A iniciativa prevê ainda que, em troca dos benefícios, as empresas terão de atender a condições, entre elas a de que a energia consumida pelos projetos venha de fontes renováveis ou de baixa emissão.
" Era uma barreira de entrada essa questão dos custos de importação de equipamentos. O que queremos é ampliar a indústria nacional com incentivos adicionais para que ela também possa melhorar e fazer suas inovações, para que possamos competir de igual para igual (com competidores internacionais) " afirmou Siqueira Filho.
cabos submarinos
Um dos símbolos da nova onda de investimentos no hub digital do Nordeste é o centro de dados da Omnia Data Centers, em Caucaia (CE), erguido para a chinesa ByteDance, dona do TikTok. Segundo Wellysson Costa, diretor institucional da Omnia no Ceará, que participou da segunda mesa do evento, a região tem um conjunto de fatores favoráveis para o desenvolvimento desses empreendimentos, incluindo disponibilidade energética e um ambiente de alinhamento entre o poder público, instituições de ensino e o setor privado.
Ele também destacou a conectividade proporcionada pela chegada dos cabos submarinos e o ambiente da Zona de Processamento de Exportação (ZPE), que concede incentivos fiscais e oferece infraestrutura.
Ao analisar o papel das fontes renováveis na atração de investimentos tecnológicos, Camylla Melo, especialista do núcleo de energia da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), que também participou do evento, apontou que a oferta de energia limpa é o fator central para viabilizar os novos empreendimentos no estado.
" O maior custo que temos hoje no data center é a energia. Então, incentivar que essa energia seja renovável vai no caminho da transição energética como um todo. O Ceará tem energia eólica, solar, abundante.
Para a especialista, a combinação entre a matriz limpa e a infraestrutura de telecomunicações cria as condições ideais para a região se destacar:
" A gente faz um casamento perfeito aqui quando a gente pensa em energia em abundância e conectividade.
Há o desafio, porém, de manter um fornecimento estável de energia para os data centers. O ministro explicou que, embora a prioridade seja a matriz energética renovável, o suprimento precisa ser integrado a fontes que não são intermitentes, como biomassa e hidrelétrica. Há ainda a previsão de uso de baterias para armazenar energia. O primeiro leilão de bateria está previsto para o fim deste ano:
" O governo está preocupado com a estabilidade energética do país. Por isso, teremos um leilão no fim do ano para baterias. Já existe tecnologia para isso.
Se a abundância energética e os incentivos do Redata equacionam o lado de oferta de eletricidade e o financeiro, a operação dos complexos de data centers esbarra no gargalo da formação profissional. Camylla, da Fiec, lembra que um centro de dados cria um grande número de empregos durante a fase de construção e instalação, mas a fase operacional exige contingente reduzido e de altíssima especialização:
" Há necessidade de uma mão de obra muito qualificada, muito especializada. Então, precisamos dar oportunidade aos profissionais para que tenhamos mão de obra firme aqui no Brasil, para que não precisemos importar profissionais.
Costa, da Omnia, reconhece o desafio de encontrar pessoas qualificadas:
" A disponibilidade de mão de obra hoje no Brasil é um problema, e claro que na região não seria diferente. Ainda assim a Omnia tem conseguido atingir resultados muito bons. Na primeira fase (da construção do data center em Caucaia), que é a fase civil, conseguimos contratar 72% da mão de obra local cearense, que foi uma surpresa inclusive para nós.
Segundo ele, a empresa tem investido na qualificação da mão de obra local por meio de parcerias:
" Começamos com as nossas turmas de qualificação em parceria com a Prefeitura de Caucaia e com o sistema S, sistema Senai. Nós já qualificamos mais de cem cidadãos da cidade de Caucaia. Estamos agora com mais 350 vagas em aberto nesse processo e queremos atingir mais de 1.500 pessoas qualificadas.
De acordo com o ministro Siqueira Filho, o Plano Nacional de Inclusão Digital inclui iniciativas de capacitação para a camada de menor renda da população. Em paralelo, há conversas com o Ministério da Educação e com as universidades, para que cursos profissionalizantes sejam oferecidos na área de data centers e tecnologia da informação.
O projeto Transição Energética é uma iniciativa do GLOBO e do Valor Econômico, com patrocínio da Vale.