Camada intermediária da ia vira novo centro de disputa de gigantes
Desde o surgimento do ChatGPT, boa parte da atenção de pessoas e empresas ficou ...
Desde o surgimento do ChatGPT, boa parte da atenção de pessoas e empresas ficou concentrada nos grandes modelos de inteligência artificial (IA), os chamados LLMs. Mas, com o avanço da tecnologia no mundo corporativo, há mais coisas entre programadores e LLMs do que supõe nossa vã filosofia. É justamente nas camadas intermediárias do ecossistema de IA que ocorre uma disputa feroz pelo controle dos caminhos pelos quais os LLMs chegam a desenvolvedores, empresas e usuários. Três negócios bilionários indicam que esses territórios se tornaram alguns dos ativos mais valiosos do mundo tecnológico.
A primeira aquisição ocorreu ainda em "águas rasas" do oceano da IA, quando a SpaceXAI, de Elon Musk, comprou a Cursor por US$ 60 bilhões. Essa é uma ferramenta de geração de código, usada diretamente por programadores. Em alguns casos, como o da OpenAI, que tem o Codex, e o da Anthropic, que tem o Claude Code, a ferramenta de código já vem acoplada aos modelos dessas empresas. Já a Cursor não tem IAs próprias: ela se conecta a diferentes serviços de LLMs.
Um pouco mais abaixo nesse oceano está a OpenRouter, que funciona como uma "Netflix de modelos". Com uma assinatura do serviço, tem-se à disposição mais de 400 IAs de 80 empresas diferentes. Ou seja, o programador pode conectar o Cursor ao OpenRouter para trabalhar com a IA mais adequada. No mês passado, a empresa de pagamentos Stripe comprou por US$ 7,5 bilhões a startup, que conta com 10 milhões de usuários no mundo.
Um dos locais que hospedam algumas das IAs acessadas pela OpenRouter é o Hugging Face, o maior repositório de modelos abertos do mundo. É nessa camada mais profunda do ecossistema que aconteceu o negócio de maior impacto do ano: a compra de US$ 12,9 bilhões pela gigante dos chips Nvidia. Os números ajudam a explicar: são 18 milhões de desenvolvedores, 3 milhões de modelos, 500 milhões de pacotes de dados e 200 mil empresas.
Ainda que cada uma dessas negociações tenha características próprias, elas sinalizam algumas das principais tendências do mundo atual da IA. Com grandes modelos transformando-se em commodities e comprimindo as margens, controlar outros aspectos do ecossistema tornou-se fundamental.
" Nesse cenário, parte do poder econômico pode migrar para quem controla capacidade computacional, distribuição, roteamento, pagamentos, ambientes de desenvolvimento, dados de utilização e, principalmente, a relação com o usuário " explica Cezar Taurion, diretor de estratégia de IA da consultoria theGarage IA.
Integração
Em muitos casos, as empresas se organizam de maneira vertical, tentando controlar desde as camadas mais profundas do ecossistema até a superfície.
Já a Stripe tenta consolidar todo o braço de transações do universo da IA. A companhia já processa a maioria dos pagamentos captados por plataformas do tipo, mas agora tenta dominar também a principal unidade de transações do momento, os tokens " os pedacinhos de palavras processadas pelas IAs. Em maio deste ano, todas as IAs hospedadas na plataforma processaram 25 trilhões de tokens, cinco vezes mais do que no fim de 2025.
" Controlando tanto o meio de pagamento quanto a distribuição pela OpenRouter, a Stripe pode vender a ideia de maior otimização possível de inteligência por token. Eles vão ganhar a porcentagem no pagamento das assinaturas e a margem em cima do token vendido " explica Fabrício Carraro, program manager da escola de tecnologia Alura.
Fim da neutralidade
Uma característica comum a todas essas camadas é que eram "neutras". Ou seja, não favoreciam nenhum tipo de modelo. É algo que começa a mudar a partir de agora.
" O risco surge quando poucas organizações passam a controlar várias camadas críticas e podem influenciar quais modelos são distribuídos, recomendados e favorecidos economicamente " alerta Taurion.
Um exemplo do que vem por aí é a reação da OpenAI à compra da Cursor. A empresa de Sam Altman encerrou o suporte direto de seus modelos dentro da ferramenta.
Mais do que excluir adversários, quem busca consolidação compra também inteligência de mercado, descobrindo usos e antecipando tendências, incluindo quais arquiteturas estão em crescimento, quais modelos têm desempenho eficiente e quais provedores estão conquistando os usuários.
No caso da Nvidia, que vê gigantes tentando construir os próprios chips, é importante mapear até quais componentes de hardware estão se comportando melhor com as IAs. Parece que não há nada entre o usuário e os LLMs, mas esse é o atual Estreito de Ormuz do mundo digital.