Porchat, a suruba e o humor na política
Invertendo os versos de "Canto chorado", de Billy Blanco, pode-se dizer, neste caso, que ...
Invertendo os versos de "Canto chorado", de Billy Blanco, pode-se dizer, neste caso, que "o que dá pra chorar, dá pra rir". Nesta semana em que o Supremo Tribunal Federal (STF) se sujou um pouco mais, um vídeo do grande humorista Fábio Porchat, carioca, 43 anos, fez o Brasil rir e chegou, veja só, até a ser lembrado pelo ministro Flávio Dino na tal desaforada sessão do STF de terça-feira. Até a manhã de ontem, o esquete do artista do Porta dos Fundos, de nome "Eu preciso dormir", já somava 6,9 milhões de visualizações " quase cem Maracanãs lotados. Nele, Porchat brinca com a rotina exaustiva dos jornalistas que cobrem os rolos do caso Master: "O STF quer vazar conversa com o Daniel Vorcaro. Vaza quarta à tarde, depois do almoço, que aí a gente consegue pelo menos buscar um filho na escola".
Em muitos desses esquetes, Fábio usa o personagem Mauro Cezar, um gestor de crise que "ajuda" a resolver polêmicas de celebridades e figuras públicas, como artistas, jogadores de futebol e também políticos. Mas a polarização política, a partir de 2018, terminou levando o humorista a abordar cada vez mais esse universo. "Só que", diz ele, "tá duro competir com a realidade, porque, a cada dia, é uma suruba nova organizada por esses políticos. Surubas com astronautas suíças". No caso, ele se refere às orgias promovidas pelo ex-dono do Master, com autoridades e prostitutas (não necessariamente nessa ordem).
Filho de político " seu pai, Fábio Ferrari Porchat de Assis, foi deputado estadual de São Paulo na década de 1970 ", o artista, que também está no ar com a oitava temporada do programa "Que história é essa, Porchat?", no GNT e na Globo, acha que 2026 deve ser um ano especial para a comédia brasileira na política. "Olhando para o que os políticos estão nos dando, tem muita coisa engraçada", diz.
Exemplos não faltam
Na verdade, como lembra a historiadora Isabel Lustosa, a política republicana brasileira convive desde o seu começo com o humor. Ela cita, por exemplo, Hermes da Fonseca, que ficou conhecido popularmente como o presidente "urucubaca" " sinônimo de azar e má sorte " devido a crises políticas.
Só que, ao longo da História, os políticos frequentemente reagem ao bom humor com... mau humor. Em 1934, o jornalista e humorista Apparício Torelly (1895-1971), o Barão de Itararé, foi sequestrado e espancado por oficiais da Marinha por causa dos artigos satíricos publicados no Jornal do Povo.
Há ainda o caso notório envolvendo a cúpula do Pasquim, semanário de humor em oposição à ditadura, que foi presa em fins de 1970.
O próprio Porchat " que sofreu ameaças por publicar um vídeo sobre policiais corruptos em 2014 " foi alvo, em maio deste ano, de uma iniciativa da Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa do Rio para declarar o humorista "persona non grata no estado", por causa dos vídeos sobre Bolsonaro.
A decisão parece piada. E é.