‘A china amorteceu o impacto da guerra no preço do petróleo’
Entrevista
Entrevista
Em seis meses de guerra no Irã, as cotações do petróleo dispararam, o setor foi lançado na incerteza, mas a economia global não afundou. Em boa parte, por causa da China, diz Michal Meidan, chefe de pesquisa sobre o país asiático no Instituto de Estudos em Energia de Oxford, no Reino Unido. A resiliência da China passa por planejamento, diversificação de fontes e fornecedores e pela transição energética, estratégias que devem se espalhar no mundo. Neste cenário, o Brasil pode sair ganhando, avalia a especialista, que estará no Rio amanhã, para uma palestra na ROG.e, maior evento da indústria petrolífera do país.
Como analisa os efeitos da guerra no Irã sobre o setor de energia seis meses depois?
Tem sido surpreendente o impacto da crise em vários níveis. Quando a guerra começou, muitas pessoas no setor de energia disseram: "Isso é um problema realmente grande, não é? Não é apenas petróleo e gás. São derivados, matérias-primas petroquímicas, insumos para fertilizantes". Era um problema enorme e, ainda assim, a economia global parece estar bem. As expectativas inflacionárias subiram no médio prazo, mas não muito no longo prazo. Parte disso, acredito, deve-se ao fato de que os mecanismos de amortecimento funcionaram: uso de reservas, estoques de derivados, fornecedores e combustíveis alternativos.
Qual o papel da China nisso?
A China teve um papel importante, pelo menos para amortecer o impacto nos preços, pois conseguiu reduzir suas importações. Se a China estivesse comprando normalmente, os preços estariam muito mais altos.
A China estava preparada?
Tenho a impressão de que todos ficaram surpresos com o quão bem os chineses administraram a crise até agora. Mas não deveríamos nos surpreender, porque há 30 anos eles vêm acumulando reservas estratégicas. Eles vêm diversificando fontes de importação. E têm um programa agressivo de veículos elétricos e eletrificação do transporte.
Qual o papel da eletrificação nessa preparação?
A eletrificação tem sido parte da solução. O carvão é a outra parte. No setor químico, a conversão de carvão em produtos químicos tem sido realmente muito significativa na substituição do petróleo. Mas a demanda por diesel e gasolina caiu de forma acentuada. No caso da gasolina, parte disso é comportamental. Donos de veículos com motor a combustão não estão dirigindo porque está muito caro. E, nas grandes cidades da China, você não precisa dirigir. Há redes de metrô, transporte por aplicativo, como Uber e DiDi. Não é tudo transição energética.
Brasil e a América do Sul têm se destacado na produção de petróleo. São alternativas importantes para a China?
A oferta brasileira aumentou muito durante a crise. Mas o Brasil não pode substituir os 4 milhões de barris por dia de produção perdida do Oriente Médio. Embora haja crescimento no Brasil e haja apetite por mais importações do Brasil, não há substituto para o Oriente Médio. E, novamente, a China está relativamente bem posicionada. Se você olhar para o Japão, mais de 90% do petróleo do país vêm do Oriente Médio. N a China, são 50%.
Faz sentido o Brasil investir na ampliação da produção?
Com certeza, mas esses são debates nacionais mais amplos sobre qual deveria ser a prioridade. Há muitos países onde não é possível substituir a infraestrutura existente rapidamente e, portanto, o petróleo e o gás continuam fazendo parte da matriz energética.
A disputa geopolítica entre chineses e americanos pode espirrar no Brasil e na América do Sul?
Com certeza. Será difícil para os EUA colocarem muita pressão sobre o governo brasileiro e dizerem: "não aceitem nenhum investimento chinês". Mas, em uma série de países, é exatamente com isso que os chineses estão preocupados. A Venezuela foi simbolicamente significativa, mas os chineses praticamente não operam na Venezuela há muito tempo. No entanto, na América Latina, há uma presença maciça no Chile, na Argentina, no Brasil, na Colômbia e no Equador. E, se o governo dos EUA agora pressionarem governos a limitarem investimentos chineses ou vendas para a China, isso é um problema. É difícil escolher um lado.
Michal Meidan / pesquisadora do Instituto
de Estudos em Energia de Oxford