Lunes, 28 de Septiembre de 2026

Em meio à disputa entre eua e china, índia aposta na estratégia de ‘diplomacia mineral’

BrasilO Globo, Brasil 28 de septiembre de 2026

busca por espaço

busca por espaço
Em um dos habituais congestionamentos na hora do rush em Nova Délhi, onde carros de luxo disputam espaço com tuk-tuks e motos, uma mudança começa a ser sentida, ou melhor, ouvida. De janeiro até julho, 1,18 milhão de veículos elétricos, bem menos barulhentos e poluentes do que os movidos a gasolina ou diesel, foram registrados na Índia, e as previsões futuras são ousadas. Ao mesmo tempo em que o país celebra os números, a expansão do setor ressalta um desafio econômico e político, o acesso a minerais críticos " usados à exaustão pela indústria automobilística em sua versão elétrica e escassos internamente " em um mercado global já pressionado pelos Estados Unidos e pela China.
"A Índia estabeleceu metas ambiciosas: instalar 500 gigawatts de capacidade de geração de eletricidade a partir de fontes não fósseis e suprir 50% de sua capacidade energética com fontes renováveis até 2030", apontou estudo de abril do Instituto de Economia Energética e Análise Financeira. "Alcançar esses objetivos exigirá uma expansão em larga escala da energia solar e eólica, bem como de baterias e veículos elétricos, tecnologias que dependem de minerais críticos, tornando essencial garantir um suprimento seguro."
forte dependência
Um relatório publicado em 2023 pelo Ministério das Minas elaborou uma lista de 30 minerais considerados críticos para o país, destacando que a Índia depende, em diferentes graus, da importação de 15 deles. Em certos casos, como do lítio, usado em baterias, do nióbio, em semicondutores, e do germânio, em células solares, todos os insumos vêm do exterior.
" A Índia ainda apresenta forte dependência externa em minerais como lítio, níquel e cobalto e, sobretudo, em etapas mais sofisticadas da cadeia, como processamento e refino " explicou ao GLOBO Isabel Veloso, professora da FGV Direito Rio. " O país vem tratando minerais críticos como questão de segurança econômica, investindo em exploração, reciclagem, processamento doméstico e diversificação de fornecedores. Seu grande ativo é a escala, um mercado enorme, uma indústria em expansão e capacidade de usar essa demanda como instrumento de negociação.
Como destacou ao GLOBO Keshav Chandra, secretário do Ministério de Minas, a ofensiva indiana ocorre em diferentes etapas técnicas, econômicas e políticas, pautada por acordos bilaterais e pela diversificação dos parceiros. Hoje, há acertos ou negociações em curso com cerca de 20 países, cada qual com sua peculiaridade. Uma estratégia apelidada por analistas e integrantes do governo de "diplomacia mineral".
" Embora alguns minerais sejam encontrados em certas regiões, nenhum país do mundo possui todos eles; no entanto, toda a cadeia de valor continua operando, com veículos elétricos nas estradas e turbinas instaladas em locais remotos " explica Chandra. " Isso só foi possível graças à colaboração, à parceria, à amizade e à transferência de tecnologia; a combinação de todos esses fatores é o que viabiliza esse cenário.
Em fevereiro, foi firmado um acordo com o Brasil sobre investimentos na exploração e no desenvolvimento de minerais críticos e terras raras. No mês seguinte, o premier canadense, Mark Carney, anunciou um plano para fornecer urânio às centrais nucleares indianas, similar ao recentemente celebrado com a Austrália. Em maio, um memorando com os EUA enfatizou a proteção às cadeias de suprimentos de "práticas coercitivas de mercado".
" A Índia tem problemas similares aos nossos, no sentido de que tem uma boa reserva de, por exemplo, terras-raras, a terceira maior do mundo. Mas essa reserva não apresenta alguns dos elementos mais importantes, como os mais pesados, usados em usinas " explicou ao GLOBO Julio Nery, diretor de Assuntos Minerários do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).
Há duas semanas, a declaração final da cúpula do Brics, organizada pela Índia, reconheceu "o papel fundamental dos minerais críticos", apontando para a necessidade de cadeias de suprimentos "confiáveis, responsáveis, diversificadas, resilientes, equitativas, sustentáveis e justas, a fim de garantir a repartição de benefícios".
"Reconhecemos o papel fundamental dos minerais críticos para o desenvolvimento de tecnologias energéticas de emissão zero e de baixa emissão, para a segurança energética e para a resiliência das cadeias de suprimento de energia", diz o comunicado.
mercado chinês
Apesar de seu tamanho e seu poderio econômico, a Índia integra um mercado competitivo e agressivo pelo acesso aos insumos necessários à sua indústria, e que tem na China " cujo líder, Xi Jinping, estava na cúpula em Nova Délhi " o grande protagonista global.
Segundo relatório do Ministério de Recursos Minerais da China, publicado na semana passada, o país tem as maiores reservas mundiais de 14 minerais cruciais para a nova economia, incluindo as terras-raras, com restrições à exportação que enfureceram o governo do presidente dos EUA, Donald Trump. Além deles, as reservas chinesas de insumos como lítio, fósforo e grafite estão entre as quatro maiores do mundo, permitindo atender a, ao menos, parte da demanda interna, e dando a Pequim um enorme poder de barganha. Como ficou evidente em Nova Délhi, um cenário que não agrada ao premier indiano, Narendra Modi.
" A instrumentalização da tecnologia e dos minerais críticos pode prejudicar o nosso progresso compartilhado " declarou Modi. " Por isso, temos enfatizado a inclusividade na adoção de tecnologia. Pandemias, desastres climáticos e interrupções nas cadeias de suprimentos demonstraram que, no mundo interconectado de hoje, nenhuma crise permanece restrita a uma única região.
Os chineses, como esperado, não responderam. Em seu discurso, Xi não tocou no tema dos minerais, mas defendeu "uma cooperação mais profunda nas cadeias industriais e de suprimentos", aproveitando para criticar políticas protecionistas: "a abordagem de ‘quintal pequeno e cercas altas’" apenas levará ao isolamento e à divisão do mundo", agregou.
" Hoje, os Estados Unidos estão trabalhando para recuperar o tempo perdido, diante do cenário de dominação da China no setor de minerais críticos e estratégicos. Então a Índia terá que enfrentar a China e outros países que estão avançando neste campo, incluindo os próprios Estados Unidos " disse Nery, apontando para a necessidade de ampliar a oferta energética e diversificar a matriz indiana, hoje dependente de combustíveis fósseis, como o carvão (59%) e petróleo (28%).
parceria com o Brasil
A corrida das grandes economias traz a perspectiva de ganhos para países com grandes reservas, como o Brasil. No nosso caso, o grande desafio será evitar um modelo exploratório que reproduza, como cita Veloso, "a velha lógica extrativa, ou seja, países produtores exportam matéria-prima e os maiores ganhos econômicos ficam onde ocorrem o processamento, a tecnologia e a fabricação".
" O país se beneficiará pouco se essa corrida resultar apenas no aumento das exportações de minério. A oportunidade está no que acontece entre a mina e o produto final: processamento, refino, produção de materiais avançados, reciclagem, pesquisa e desenvolvimento " destaca a professora da FGV. " A parceria com a Índia é interessante porque há complementaridade. O Brasil possui recursos minerais relevantes, matriz elétrica relativamente limpa e capacidade científica; a Índia tem um mercado gigantesco, base industrial e forte interesse em diversificar fornecedores e reduzir dependências externas.
*O jornalista viajou a convite do Ministério das Relações Externas da Índia
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