Clubes boicotam reunião do governo enquanto buscam alternativa às bets
nova aposta
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Sem os milhões das casas de apostas após a medida provisória assinada na última sexta-feira pelo governo federal que proibiu as bets no país, os clubes brasileiros procuram alternativas de patrocínio, mas ainda não têm uma resposta capaz de repor, de imediato, o dinheiro que pode deixar de entrar em seus caixas " os patrocínios das bets a 14 dos 20 clubes da Série A somaram mais de R$ 1 bilhão em 2025. Empresas de outros setores já sinalizaram interesse em ampliar ou retomar a presença no futebol, mas ainda não formalizaram propostas aos clubes. No momento, porém, a principal aposta da maioria dos dirigentes é política: pressionar o governo e contestar a medida. Essa estratégia motivou um boicote à reunião que havia sido marcada pelo governo em Brasília para discutir o "fortalecimento dos clubes e do futebol brasileiro" e que acabou cancelada à noite.
O Ministério do Esporte havia pedido à CBF que mediasse o convite a representantes dos clubes das Séries A, B, C e D e das federações estaduais. A entidade, porém, encontrou resistência. No fim da noite, o governo informou que a reunião seria remarcada e alegou a "proximidade da data inicialmente proposta e dos horários dos voos disponíveis para o deslocamento dos participantes, a fim de favorecer uma ampla participação no encontro".
Pouco antes, à tarde, em uma cerimônia de sanção de medidas voltadas ao futebol feminino, o presidente Lula voltou a rebater as críticas dos clubes em relação à MP, em uma declaração que expunha a distância do diálogo entre as duas partes.
" Esse negócio da gente ter acabado com as bets não traz nenhum prejuízo para o futebol. Os melhores momentos da história do futebol brasileiro não existiam bets. Os clubes que se virem.
Segundo apurou O GLOBO, a maioria dos clubes enxergou a convocação como uma iniciativa eleitoreira e avaliou que o governo deveria ter aberto o diálogo com o setor antes de editar a MP.
As federações do Rio de Janeiro e de São Paulo lideraram o boicote. O presidente da Ferj, Rubens Lopes, que acompanha a seleção brasileira na Austrália como chefe de delegação, defendeu que os clubes do estado não participem de qualquer diálogo com o governo no momento.
O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, e o presidente do Fluminense, Mattheus Montenegro, foram os primeiros a indicar que não participariam. A dupla acredita que a pauta do encontro seria direcionada a um socorro aos clubes via financiamento de dívidas no BNDES. Em podcast da FlaTV, Bap voltou a criticar a medida e mostrou preocupação com o prejuízo financeiro:
" O Flamengo faz tudo dentro da lei. O Flamengo não precisa de ajuda do governo para pagar suas dívidas. Nós pagamos as dívidas que tínhamos no passado. Banimento unilateral, da forma como foi, é difícil de entender, a uma semana de uma eleição. Isso causa uma apreensão nos contratos que assumimos para o futuro. Como vamos pagar o Paquetá em janeiro, por exemplo?
Já Botafogo e Vasco consideram que podem ser menos afetados pela perda de receitas no curto prazo por causa dos processos de recuperação judicial e da iminência das vendas das SAFs.
Em São Paulo, a federação paulista reuniu-se ontem com os clubes do estado, que fecharam posição de não comparecer ao encontro. O Palmeiras, de Leila Pereira, está alinhado ao Flamengo na crítica à forma como a medida foi anunciada. O argumento é que o governo teve quatro anos para discutir o tema, mas convocou os dirigentes na semana da eleição. O Corinthians, em situação financeira mais delicada, apesar de aderir ao boicote, sinaliza estar aberto a um plano de socorro, assim como o Santos. Já o Internacional, por meio do presidente Alessandro Barcellos, lidera a articulação em favor de medidas de auxílio.
Tentativa via STF
A reação ocorre enquanto o setor de apostas tenta barrar a MP na Justiça. Ontem, a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) pediram ao ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, que suspenda os efeitos da medida provisória. O Sindicato Nacional das Associações de Futebol Profissional (Sinafut), que representa os clubes e as federações, pediu ao ministro para ingressar no processo.
As entidades querem que as autorizações, os atos regulatórios e a lista de operadores aprovados pelo Ministério da Fazenda continuem valendo até que o Congresso conclua a análise da MP ou o Supremo julgue a questão. Na petição, sustentam que não houve fato novo que justificasse a urgência da medida e afirmam que temas como publicidade, jogos on-line e proteção de pessoas vulneráveis já haviam sido discutidos na tramitação da legislação. Também dizem que a Fazenda informou não ter identificado estudos ou pareceres específicos sobre os impactos de uma eventual proibição. A Advocacia-Geral da União pediu a Fux um prazo de pelo menos 72 horas para se manifestar antes de uma eventual decisão.