Limitar cartão pode ter impacto maior na alta renda
A ideia de restringir a emissão de cartões de crédito, levantada pelo presidente Luiz Inácio Lula ...
A ideia de restringir a emissão de cartões de crédito, levantada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista na quinta-feira, poderia ter mais impacto em pessoas de renda alta do que na população mais pobre. Interlocutores do setor financeiro apontam, com base em análises preliminares, que os casos em que a mesma pessoa tem vários cartões de crédito são bem mais frequentes no público com renda acima de dez salários mínimos.
Além disso, o ritmo de crescimento de emissões para rendas mais altas entre 2018 e 2026 foi mais acelerado do que o registrado na renda mais baixa, de até um salário mínimo, quase triplicando a média de cartões por pessoa no período.
Com juros que podem superar a marca de 400% ao ano no rotativo, os cartões de crédito estão na mira do governo, que tenta lidar com o alto endividamento de uma parcela das famílias brasileiras. A questão do volume de dívidas no Brasil também incomoda o próprio setor financeiro, que tem lidado com o aumento da inadimplência.
Dentro da estratégia de buscar conter essa fonte de dívidas caras, o governo e o setor privado discutem alternativas. Lula mencionou uma delas ontem, a de limitar o número de cartões por pessoa, mas já reformulou seu discurso diante da repercussão negativa e agora diz que somente vai proibir envio sem solicitação, limitando a oferta ostensiva de crédito.
Sem permissão
Um dia depois de declarar em entrevista ao Flow que estava discutindo com o Banco Central (BC) "proibir os bancos de dar mais de um cartão de crédito por pessoa", Lula voltou atrás e afirmou ontem nas redes sociais que cada cidadão "tem o direito de ter quantos cartão quiser".
"Ontem falei da preocupação com o cartão de crédito, pois os juros são indecentes. Hoje meus adversários acordam para defender os bilionários donos de operadoras desses cartões. Claro que sei da importância do crédito para a vida das famílias. Cada cidadão tem o direito de ter quantos cartões de crédito quiser. O que não aceito é que bancos enviem para a casa das pessoas sem que elas tenham solicitado. Vamos acabar com essa prática e com os juros abusivos no Brasil", postou Lula.
Para integrantes do Banco Central, há uma liberação predatória, com envio de cartões e limites pré-aprovados. Isso está na mira do regulador. Nas discussões, o governo também avalia aumentar exigências de capital para operações mais caras que elevam as dívidas, de forma a desestimular esse tipo de prática.
Para integrantes do governo e agentes do mercado, parte do problema começa a ser resolvido com o fim das bets, que estariam drenando recursos que antes eram usados para pagar dívidas de um lado e, ao mesmo tempo, estimulando o endividamento.
O novo Desenrola Brasil, no formato em que o governo compra blocos de dívida com desconto, também é visto de forma positiva nos bastidores do setor bancário.