Cães da raça border collie são o novo funcionário do campo
Pecuaristas brasileiros têm empregado cada vez mais uma "classe de trabalhadores" ...
Pecuaristas brasileiros têm empregado cada vez mais uma "classe de trabalhadores" extremamente eficientes e que tem ajudado a reduzir custos e aumentado o bem-estar de rebanhos. Eles são os cães de pastoreio, especialmente da raça Border Collie, que teve crescimento acelerado nos últimos anos em propriedades de criação de bovinos e ovinos.
De acordo com Heder Mello, presidente da Associação Brasil Border Collie (ABBC), entidade que faz o registro dos cães usados para trabalho com rebanhos, o avanço da raça é notável ao longo dos anos.
" Em 2016, registramos só 400 cães. Em 2026, devemos alcançar 10 mil animais de trabalho registrados " afirma.
Economia de tempo
No entanto, somando os cachorros que ainda não estão registrados, Mello estima que existam cerca de 40 mil animais atuando em propriedades brasileiras.
Apesar do número elevado, a quantidade ainda é pequena para um país que tem mais de 5 milhões de fazenda de criação de gado bovino, avalia o dirigente.
Na prática do dia a dia, a capacidade de trabalho da raça impressiona. Dependendo do treinamento e da estrutura da fazenda, um único Border Collie treinado consegue conduzir e manejar com facilidade lotes de 200 a 300 cabeças de gado bovino por vez em campo aberto, cobrindo áreas extensas que exigiriam vários peões a cavalo.
A presença do cão facilita a rotina e a gestão financeira das propriedades pois otimiza a mão de obra. Segundo Mello, um único funcionário acompanhado por cães treinados consegue realizar tarefas de recolhimento de gado que antes exigiam até três pessoas.
" Aquele trabalho que antes levava das 7h30 até às 17h, pode ser encerrado na hora do almoço " diz Mello.
Além da economia de tempo no campo, o animal garante agilidade nos manejos de curral durante vacinações ou protocolos de inseminação. Essa atuação reduz o estresse do rebanho, diminuindo acidentes e lesões.
" O Border Collie não é uma ferramenta de trabalho, é uma tecnologia que está no corpo de um cachorro " defende o presidente da ABBC.
O custo para integrar os caninos à propriedade varia conforme a maturidade e o nível de adestramento do animal. A aquisição de um filhote proveniente de linhagem de trabalho exige um investimento inicial entre R$ 3 mil e R$ 6 mil, valor que no patamar mais alto costuma incluir a capacitação para o adestramento. Já a compra de um cão adulto treinado, com idade entre 2,5 e 4 anos, parte de R$ 15 mil.
Menos estressados
Em Ibirubá (RS), o produtor Rodrigo Belebon, investe desde 2010 na criação de ovinos. Atualmente, tem um rebanho de 50 matrizes, para criação de cordeiros e produção de animais para outras propriedades. Em 2019, começou a usar o cão Border Collie para o manejo das ovelhas. O objetivo da adoção do cão de pastoreio era realizar um manejo do rebanho com bem-estar animal.
" Os ovinos se estressam menos com os cães do que com humanos, e assim também perdem menos peso. Além disso, na nossa região há uma falta de mão de obra capacitada para esse trabalho, que o cachorro consegue suprir em parte " comenta Belebon, que hoje tem três cães da raça para ajudar nos trabalhos: Maragato, Maragata e Bugra.
Os resultados agradaram tanto que Belebon se tornou um "embaixador" da raça. Após uma capacitação, passou a ser treinador de cães de pastoreio e ministra oficinas do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) sobre o uso do Border Collie, a fim de incentivar a criação do animal por pecuaristas.
Um dos criadores de gado bovino que passou a adotar o Border Collie no manejo dos animais após realizar um curso do Senar é Lenon Roberto Kuchak Goi, de Ijuí (RS) que tem propriedade focada em recria das raças bovinas Angus e Brangus. Há cerca de um ano, ele introduziu um "novo funcionário" para fazer o manejo de animais: o cão "Beam", que tem cerca de dois anos.
Embora Beam tenha chegado à propriedade com noções básicas de pastoreio em ovinos, o período de adaptação com os bovinos foi rápido. Segundo Lenon, a presença do cão transformou a lida diária:
" Não me vejo mais criando gado sem o cachorro.
Para o criador, as vantagens do Border Collie vão desde a otimização de custos até a melhoria no bem-estar animal. Por trabalhar de forma técnica e sem agressividade, o cão reduz drasticamente o estresse do rebanho, o que previne perdas de peso causadas pelo nervosismo do gado.
Além da tranquilidade, Lenon destaca a autonomia que ganhou no trabalho.
" Temos sempre umas 60 cabeças na propriedade. E consigo fazer o manejo apenas com o cachorro, não há necessidade de outras pessoas para ajudar " diz.
Segundo Lenon, a economia com mão de obra e o baixo custo de manutenção do animal compensam o investimento. Entusiasmado, Lenon já está adquirindo um novo filhote para garantir a continuidade da parceria no campo.