Domingo, 11 de Octubre de 2026

Empresas fazem pente-fino para evitar conexões com crime

BrasilO Globo, Brasil 11 de octubre de 2026

Ao menos cem empresas brasileiras, incluindo grandes companhias com ações em Bolsa, já ...

Ao menos cem empresas brasileiras, incluindo grandes companhias com ações em Bolsa, já contrataram consultorias para fazer uma devassa no histórico de toda a rede de clientes, fornecedores e sócios. O objetivo é evitar qualquer risco de conexão com o crime organizado. O movimento é uma reação à decisão do governo Donald Trump, que entrou em vigor em junho, de classificar as facções PCC e CV como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês) e como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs, em inglês). No mês passado, a Casa Branca voltou a afirmar que o Brasil falha no combate a essas organizações.
O temor do impacto de uma sanção sobre os negócios fomentou um novo mercado. As consultorias afirmam que os serviços variam de R$ 20 mil " valor cobrado por uma apuração rigorosa do histórico de um único possível sócio em redes sociais, processos e notícias veiculadas na imprensa ", até dezenas de milhões de reais por um exame completo da cadeia de fornecedores para uma grande empresa de capital aberto. Há ainda a hipótese de monitoramento constante, como oferece a PwC, por meio de um serviço de assinatura.
Esse movimento, que em alguns casos pode ganhar ares de caça às bruxas, não é à toa. Eventuais sanções dos americanos a empresas que supostamente têm conexões com o crime poderiam interromper completamente os serviços e contaminar parceiros comerciais e pessoas associadas. Entre as restrições de ordem prática que a companhia pode enfrentar estão a vedação do acesso a sistemas de computador e a impossibilidade de se conectar ao sistema financeiro. Na prática, as restrições acabam por impedir a venda de produtos e serviços.
Tarefa complexa
Nas palavras de um executivo da consultoria EY, que pediu para não ser identificado, "sancionar é um aviso, um sinal de que o país fará algo". Um exemplo recente do impacto das sanções ocorreu no México, onde seis cartéis (denominação usada para grupos do narcotráfico em diversos países da América Latina) foram incluídos na lista em fevereiro do ano passado. Apenas três meses depois, duas operadoras de combustíveis foram sancionadas e, posteriormente, três instituições financeiras.
Com as novas determinações, os americanos concentram a atenção no caminho do dinheiro para as facções.
Identificar por meio de varreduras possíveis conexões com estruturas e financiamento do crime organizado é tarefa mais complexa do que possa parecer à primeira vista. No Brasil, 41% da população brasileira (cerca de 68,7 milhões de pessoas) afirma notar a presença do crime organizado no bairro onde vivem, segundo uma pesquisa do Datafolha em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. E, na verificação feita pelas empresas para avaliar riscos de sanções, a localização das unidades é um fator de atenção. O território não é critério determinante para classificar risco de sanção, mas é um dos fatores levados em conta pelas consultorias nessa avaliação. Trata-se de um mapeamento de riscos, que pondera vários indicadores.
Outro sinal de alerta é a proximidade com a fronteira e com portos. Mas na mira das consultorias também estão aspectos como uso intensivo de dinheiro em espécie, sócios sem experiência no setor, cadeia longa de subcontratações, empresas muito novas ou com estrutura societária complexa, além de inconsistências entre receita e capital social da empresa.
Fernanda Barroso, diretora regional para Latam da Kroll, uma das empresas que prestam esse serviço, explica que antes da sanção americana a checagem era tarefa mais simples. Ao realizar algum negócio, bastava apurar a lista de pessoas e organizações com restrições pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac, em inglês), para verificar se havia algum bloqueio.
" Na lista do Ofac, se uma empresa transaciona com quem está bloqueado, seja para cometer ilícito ou não, se tinha ou não conhecimento, você é imputado ao fazer a transação. Mas FTO é outra designação. Não existe uma lista clara, com nomes. Agora, é preciso fazer uma análise mais profunda para saber qual contraparte gera risco " disse ela.
Natura e Eneva, duas companhias listadas na Bolsa, adotaram iniciativas para fazer uma análise minuciosa de contratos e conexões. A empresa de cosméticos disse ter tomado a decisão devido à evolução e à crescente sofisticação das estruturas utilizadas por organizações criminosas para ocultar vínculos societários e beneficiários finais, enquanto a companhia de gás afirma que a medida ajuda a mitigar riscos em operações e relacionamentos.
Impacto no dia a dia
Especialistas ponderam que o combate efetivo ao crime organizado é necessário, mas que o risco dessa devassa é penalizar parte da população. Fabio Muller, diretor executivo do Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável (Cieds), afirma que eventuais rompimentos de grandes marcas com fornecedores em áreas de atuação dessas facções podem intensificar problemas sociais, pois esses locais já são vulneráveis há décadas:
" Podemos ter uma evasão dos investimentos nesses territórios. Isso impacta diretamente essas economias, as pessoas que estão naquelas comunidades, que querem ver o território crescer. Se as empresas saem do território, se reduzem os investimentos aos pequenos fornecedores ou se deixam de contratá-los, de algum modo elas contribuem para afetar um território que já é marcado por uma grande vulnerabilidade.
Muller afirma que essa decisão pode ampliar problemas de socialização, de qualificação do mercado de trabalho e de renda dessas comunidades, onde já falta a presença do Estado e de outras organizações da sociedade civil.
Paula Leite, diretora de Inteligência e Investigações da Control Risks no Brasil, afirma que a tentativa das empresas de se blindarem de conexões com o mercado ilícito pode significar custos maiores dos produtos e serviços:
" A penetração do crime organizado no geral vai implicar aumento de custo maior das empresas com investigações, investimentos nas áreas de compliance e muitos processos relacionados.
Viés ideológico
Para Cristina Pinotti, economista da Pinotti & Schwartsman Associados, a definição do governo americano das facções brasileiras como organizações terroristas tem viés ideológico. Para ela, com a decisão de Trump, cria-se a impressão de que o Brasil pode tornar-se um pária. A economista observa ainda que o desenvolvimento tecnológico a partir da pandemia deu impulso a uma estrutura já existente no mercado ilícito.
Ainda que seja difícil mapear o impacto econômico que as medidas de revisão de fornecedores possam ter, Cristina diz que o custo social existente é "oculto, mas muito grande":
" Pense nas pequenas e médias empresas que estão na mão do crime organizado e que não têm o que fazer, tendo de pagar taxas só para existir. Elas são pressionadas e sem saída, porque ou você entra na regra ou está morto, não há negociação. E é possível que haja apagão em algum canto " explicou ela, sobre a possibilidade de desertos de fornecimento e subcontratações por empresas maiores.
La Nación Argentina O Globo Brasil El Mercurio Chile
El Tiempo Colombia La Nación Costa Rica La Prensa Gráfica El Salvador
El Universal México El Comercio Perú El Nuevo Dia Puerto Rico
Listin Diario República
Dominicana
El País Uruguay El Nacional Venezuela