Domingo, 11 de Octubre de 2026

Combustível sustentável na aviação tem 11 projetos que somam r$ 53 bi

BrasilO Globo, Brasil 11 de octubre de 2026

O Brasil tem hoje pelo menos 11 projetos de usinas de SAF, o combustível sustentável de ...

O Brasil tem hoje pelo menos 11 projetos de usinas de SAF, o combustível sustentável de aviação, principal via do setor aéreo para mitigar sua contribuição para a poluição causadora das mudanças climáticas. A maioria ainda está no papel, mas os valores envolvidos em parte deles somam US$ 10,6 bilhões (R$ 53 bilhões, com o câmbio a R$ 5) em investimentos nos próximos anos.
Os primeiros passos começaram a ser dados. As obras da biorrefinaria da Acelen Renováveis, na Bahia, estão em fase de terraplanagem. E a Petrobras já produz os primeiros volumes, coprocessados com o tradicional querosene (QAV) à base de petróleo " o que deverá dar conta da primeira fase de exigência de mistura, que começa em janeiro, conforme a Lei do Combustível do Futuro, segundo Lucas Boacnin, gerente de Desenvolvimento de Negócios da consultoria especializada em commodities Argus.
Os projetos em desenvolvimento usam matérias-primas tão diversas quanto as 11 rotas tecnológicas para produzir o SAF já homologadas pela ASTM, entidade global da padronização industrial. Incluem óleos " de soja e milho até o de macaúba, palmeira nativa do país, passando por óleos de cozinha usados " e o tradicional etanol, de cana ou milho. Um projeto, no Porto do Açu, no norte do Rio, planeja usar hidrogênio verde, na rota do e-SAF, feito a partir da eletricidade (leia mais sobre rotas tecnológicas no info ao lado).
Dez dos projetos estão no mapeamento da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês), entidade global das empresas aéreas. Metade é da Petrobras, incluindo adaptações em refinarias. O 11º foi anunciado em junho pela americana JetBio. Os valores de investimento referem-se a cinco novas usinas, uma da Petrobras. Se todos os projetos saírem do papel, o parque de refino de SAF no país teria capacidade de 2,5 milhões de toneladas por ano, acima da produção mundial atual, de 2,4 milhões de toneladas.
Maior do mundo
A usina da JetBio, por exemplo, será a maior do mundo na rota tecnológica etanol-para-o-jato (EtJ, em inglês), mobilizando US$ 2 bilhões (R$ 10 bilhões). O terreno para a unidade, em Paulínia (SP), está "assegurado", a tecnologia, da americana Honeywell Technologies, "está licenciada", mas "a decisão final de investimento está prevista para o primeiro trimestre de 2027", informa a empresa, controlada pelo Summit Agricultural Group, principal acionista da FS, uma das gigantes do etanol de milho no Brasil " que não será sócia da usina brasileira, mas fornecerá o etanol.
Mais adiantada, a Acelen Renováveis, controlada pelo Mubadala, o fundo soberano de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, começou a construção da biorrefinaria, em São Francisco do Conde (BA), após aprovar uma primeira fase do investimento, de US$ 1,5 bilhão (R$ 7,5 bilhões), apoiado por um empréstimo sindicalizado com 12 bancos e instituições de fomento e por "contratos estratégicos negociados" para a venda de 90% da produção futura, projetada para começar em 2029. O investimento total no empreendimento é de US$ 3 bilhões, para produzir tanto SAF quanto diesel renovável (HVO). O projeto inclui a produção integrada de óleo de macaúba " uma palmeira nativa, que se espalha de norte a sul do país, cujas amêndoas são conhecidas como coco-baboso ou coco-de-espinho. O óleo de macaúba, ao lado do óleo de cozinha reciclado e do óleo de soja, será transformado em SAF pela rota Hefa (Ésteres e Ácidos Graxos Hidrotratados, em inglês), a mais usada no mundo até agora.
Foi a tecnologia escolhida pela Petrobras para estrear na produção de SAF. A petroleira iniciou o coprocessamento de óleos vegetais com QAV na Reduc, em Duque de Caxias (RJ), no fim de 2025 " o combustível que sai de lá é "o primeiro SAF produzido na América Latina a obter a certificação internacional", diz a Petrobras. A estatal começou a produção coprocessada na Revap, em São José dos Campos (SP). Ainda este ano, fará o mesmo na Regap, em Betim (MG), e na Replan, em Paulínia (SP). E a Petrobras confirmou o investimento de US$ 1,2 bilhão (R$ 6 bilhões) numa usina do zero, na rota Hefa, na Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão (SP).
Único caminho
Outros dois projetos da Petrobras estão na fila, ainda sem confirmação: uma usina da rota Hefa no Complexo de Energias Boaventura, o novo nome do Comperj, em Itaboraí (RJ), e uma usina de EtJ na Replan.
O transporte aéreo responde por 2% das emissões globais de gases do efeito estufa (GEEs). Para reduzi-las, a Organização Internacional da Aviação Civil (Icao, em inglês) lançou em 2016 o Corsia (sigla em inglês para Esquema de Compensação e Redução de Carbono para a Aviação Internacional) e, em 2021, definiu a meta de zerar as emissões líquidas até 2050. A partir de janeiro de 2027, ações de descarbonização do Corsia passam a ser obrigatórias para as companhias aéreas.
Cerca de 60% da redução de emissões de GEEs pela aviação até 2050 virá do SAF, segundo o chefe global de ESG da fabricante de aviões Embraer, André Tachard, porque é inviável usar motores elétricos a bateria em aviões:
" A bateria é muito pesada, vai aí um desenvolvimento ao longo das próximas décadas. E a revolução, com tecnologias mais disruptivas, vai começar a ser incorporada em aeronaves de pequeno porte.
É o caso dos eVTOLs, os carros voadores em desenvolvimento pela Eve, subsidiária da Embraer, que deverão substituir os helicópteros nos deslocamentos aéreos nas cidades. O problema é que a maior parte da poluição causada pela aviação está nos voos longos, com grandes aviões. E, para eles, o SAF é uma alternativa "de curto prazo" porque não requer modificação das "grandes estruturas do mundo da aviação, seja nos aeroportos, seja nas aeronaves". Segundo o executivo, tanto a Embraer quanto as concorrentes Boeing e Airbus vêm realizando testes com SAF, e o uso de misturas até 50% com o QAV está homologado internacionalmente. Os testes para o uso de SAF puro seguem em curso.
Impacto do custo
Ainda assim, o problema é o custo. Produzir SAF é muito mais caro do que o QAV. E o combustível responde por cerca de 40% dos custos de operação de uma companhia aérea, conforme a Iata. Quanto maior a mistura de SAF, mais caro fica o insumo. Por isso, a pressa é baratear a produção de SAF.
" Todas as novas tecnologias têm custo maior do que os respectivos similares do mercado, mas, com escala e controle da cadeia de valor, começam a ter competitividade maior ao longo do ciclo " diz José Fernandes, presidente da Honeywell Technologies para a América Latina, empresa americana de soluções tecnológicas de refino e fornecedora de projetos da Petrobras, da JetBio e da Acelen. " Quando a gasolina começou a ser produzida, no começo do século XX, era muito cara.
A produção de SAF enfrenta gargalos de matéria-prima. Para dar conta da demanda para abastecer os aviões, será necessária grande quantidade de óleos vegetais e animais, fermentados de açúcares e amido, biomassas diversas e demais insumos.
" O gargalo para a produção de biocombustíveis é a matéria-prima, porque temos vários países diferentes, com várias regras diferentes. Na Europa, não se pode produzir SAF usando óleo de soja, por exemplo " diz Boacnin.
É na quantidade de matérias-primas que o Brasil poderá se destacar. Relatório de junho da Iata sustenta que o país pode ser uma potência do SAF. O Brasil já é o segundo maior produtor do mundo de etanol, mas a ordem de grandeza exigida pelo SAF é outra. A produção nacional de etanol está em torno de 32 milhões de toneladas ao ano, enquanto a demanda global de SAF poderá chegar a 500 milhões de toneladas por ano em 2050, nas contas da Iata. Mesmo assim, a Iata não vê a matéria-prima como gargalo. "Existem matérias-primas sustentáveis suficientes", diz nota enviada ao GLOBO. Mas, para transformar esse potencial em produção de SAF será preciso acelerar o desenvolvimento tecnológico, ampliar investimentos e implementar políticas públicas, e "os governos têm um papel fundamental".
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