A ginástica de seguir em frente
Marcelo Barreto
Marcelo Barreto
Nunca vi rastro de cobra, nem couro de lobisomem. Mas tive o privilégio de ver " algumas vezes de perto " a ginástica artística brasileira chegar à elite mundial. Não foi um processo curto e nem simples. Uma das primeiras reportagens que fiz sobre a modalidade, ainda chamada de ginástica olímpica, como repórter deste O GLOBO, falava sobre um equipamento completo que deveria ser instalado no ginásio do Flamengo e ficou preso na alfândega, até apodrecer, por questões burocráticas. Estávamos na época de Luisa Parente, uma desbravadora cuja maior conquista era representar o país nos grandes eventos internacionais.
De lá para cá, o salto foi grande " e, como tudo na ginástica artística, não se deu só com graça e talento, mas também com treino, dedicação e tombos pelo caminho. Daniele Hypólito e Daiane dos Santos desbravaram os pódios nos Mundiais, mas as medalhas olímpicas chegaram primeiro no masculino. Depois do ouro de Arthur Zanetti em Londres 2012, Diego Hypólito e Arthur Nory conquistaram prata e bronze no Rio (na mesma prova, o que até então só tinha acontecido com uma modalidade brasileira, o vôlei de praia). Diego foi homem com H para continuar tentando depois de perder duas vezes como favorito, e ainda cunhou uma frase lapidar sobre sua trajetória nos Jogos: "Na primeira vez caí de bunda, na segunda caí de cara, mas na terceira caí de pé."
Depois de tudo isso, veio o fenômeno Rebeca Andrade. Claro que se trata de um talento extraordinário, mas não é um daqueles raios que caem num único lugar. Rebeca cresceu fã de Daiane, foi companheira de Dani e celebrou o bronze por equipes em Paris-2024 ao lado de Jade Barbosa, uma veterana que já tinha até parado de competir, mas voltou para resgatar a glória que faltou à sua geração. Ou seja, ela é parte de um processo " do qual se tornou o ponto mais alto, como a maior medalhista de todos os esportes olímpicos brasileiros, entre mulheres e homens.
O Mundial, que começou ontem em Roterdã, vai indicar os próximos passos da ginástica brasileira. Rebeca não disputa mais a prova de solo, que cobra um preço físico muito alto a quem já teve de enfrentar duas grandes cirurgias nos joelhos. Agora é Flávia Saraiva que leva a arte brasileira ao tablado, com uma trilha sonora que mistura Ney Matogrosso e Luiz Gonzaga " uma homenagem ao pai, que nasceu em Exu como o Rei do Baião. O corpo pequeno favorece as acrobacias; o sorriso, inversamente proporcional em tamanho, é uma arma para conquistar os corações de juízes e torcedores. Flavinha também não surgiu agora, nem por acaso. É fruto do mesmo trabalho continuado que botou o Brasil no mapa.
Como o judô mostrou recentemente, terminando um Mundial sem medalhas, não é fácil se manter no topo. O taekwondo fez melhor, com dois ouros conquistados por atletas jovens que vêm dominando suas categorias neste ciclo olímpico. O equilíbrio entre manutenção e renovação é delicadíssimo. Rebeca, que continua favoritíssima no salto, e Flávia, que também é forte na trave, terão de servir de inspiração para uma nova geração.
E dá para confiar que conseguirão. Porque mesmo nos momentos mais difíceis, elas estavam lá para dizer: eu te asseguro, não chores não, viu, que eu voltarei, viu, meu coração.