Presença de mulheres avança no campo e na ciência no país
A presença de mulheres nas lavouras, laboratórios e outros ambientes centrais para o ...
A presença de mulheres nas lavouras, laboratórios e outros ambientes centrais para o desenvolvimento da produção agropecuária do país tem crescido e apoiado uma transformação nos sistemas produtivos e nas pesquisas. A constatação é de produtoras, gestoras e pesquisadoras da área, que se reuniram ontem no evento "O Agro é Delas", organizado pela Globo Rural, em São Paulo.
Silvia Massruhá, que preside a Embrapa desde 2023 e foi a primeira mulher a ocupar o cargo em mais de 50 anos de história da instituição, afirmou que a crescente participação feminina na empresa está contribuindo para transformar a ciência e a gestão na estatal. Segundo ela, habilidades de diálogo e comunicação favorecem a interação com diferentes públicos e fortalecem a pesquisa agropecuária.
Segundo Silvia, o corpo técnico da Embrapa é composto cada vez mais por mulheres, mas elas são minoria. Atualmente, 33% dos pesquisadores da estatal são mulheres. Para ela, alcançar um equilíbrio depende de transformação cultural de longo prazo. A executiva avalia que muitas mulheres enfrentam pressões ligadas à conciliação entre diferentes papéis sociais.
" Quando me candidatei ao meu primeiro cargo de gestão, concorri com quatro colegas homens, enquanto algumas mulheres nem se candidataram. Mas eu já pensava: eles podem ter propostas e visões diferentes, mas as minhas são igualmente válidas " relata.
Presidente executiva do Sistema OCB (Organização das Cooperativas do Brasil), Tania Zanella ressaltou que há um avanço da participação feminina nas cooperativas agrícolas. Hoje, as mulheres representam 38% dos cooperados.
Na comunidade quilombola Campina de Pedra, em Mato Grosso, a tradição é matrilinear.
" Não tenho referência de mulheres que não são lideranças porque viemos de gerações e gerações com mulheres na liderança " afirmou Fran Paula, engenheira agrônoma, pesquisadora em sistemas alimentares e assistente técnica de quilombolas.
Para a produtora Flavia Garcia Cid, a presença da mulher no campo impacta a forma de conduzir a produção:
" Temos um olhar mais voltado ao social e ao ambiental, e isso coopera muito para aplicar práticas sustentáveis.
A transformação no ecossistema do agronegócio é percebida pelo setor financeiro.
" As mulheres têm papel fundamental nas novas agendas do setor e nas tomadas de decisão " disse Fabiana Alves, CEO do Rabobank.
Para ela, é fundamental que as mulheres invistam em "capacitação e conhecimento sobre bancabilidade e medidas de sustentabilidade", principalmente num momento de crédito mais seletivo.
ESPAÇOS DE DECISÃO
Segundo Fabiana, o crédito para o agronegócio passou a exigir maior capacidade de gestão das propriedades:
" Os bancos buscam operações mais preparadas para enfrentar os desafios e a volatilidade do mercado.
O desafio, agora, é aumentar a presença das mulheres nos espaços de decisão, ressaltou Tania, da OCB:
" O importante não é apenas ampliar a participação feminina na base, mas garantir que mulheres estejam nos cargos de liderança, contribuindo para a tomada de decisões.
Levantamento da Rede Mulher Empreendedora com mais de 2,2 milhões de profissionais aponta que 80% delas relegam a administração financeira do negócio a homens. O dado foi apresentado pela fundadora da Rede, Ana Fontes, no evento:
" É uma coisa que não tem a ver com capacidade, todas nós somos extremamente capazes. Isso é uma construção social " disse.
A diretora de redação do Valor Econômico, Maria Fernanda Delmas, ressaltou, na abertura do evento, que 40% dos tomadores de decisão do agronegócio são mulheres, segundo dados da Associação Brasileira do Agronegócios (Abag).
" Essa reflexão é importante e joga luz sobre estudos sobre equidade de gênero, mercado de trabalho, oportunidades, e permite que promovamos debates profundos sobre o tema " afirmou.