‘Não há como o governo gastar desse jeito. é matemática, não é opinião’
Entrevista
Entrevista
Para o ex-diretor do Banco Central (BC) e sócio da Panamby Capital, Reinaldo Le Grazie, a reação dos mercados ontem reflete um ajuste após as eleições. Ele avalia que a sociedade vai cobrar uma política fiscal crível no quarto mandato de Lula. Ele pondera que não há outro caminho, é preciso cortar gastos. Ele ressalta que, enquanto não há planos na mesa, uma das formas de apaziguar os ânimos é apresentar os nomes que vão compor a equipe. Se o governo demorar a fazer isso, o risco é ter mais pressão no dólar.
Como o senhor avalia a reação do mercado financeiro ontem?
Foi um ajuste para a repetição do governo atual mais todos os gastos anunciados durante o período eleitoral. E o movimento é surpreendente, refletindo o discurso e as ações do governo nessas três semanas. Os juros, com todas essas medidas, precisam ir para outro patamar. Como houve frustração do previsto, o mercado zera as posições. Um exemplo são as small caps (empresas de menor capitalização, que surfam em cenários de juros menores), que só hoje chegaram a cair 28%.
Mas 2023 foi um ano em que a Bolsa subiu 22%. Por que no primeiro ano do novo governo seria diferente?
Em 2023, a estratégia fiscal foi muito ruim. No arcabouço fiscal, desde o primeiro dia, ninguém acreditou, mas deram o benefício da dúvida. Foi um "me engana que eu gosto". Mas terminou desse jeito, com a atual trajetória da dívida em 83% do PIB. E o governo se recusa a acreditar nisso, o que é um descompasso. A vaca está indo para o brejo. Agora, o governo passa a ter o benefício da dúvida. Apesar de um novo governo que tende a ser o mesmo, o discurso do Lula ontem foi de mudança. Ficou claro que é necessária uma estratégia fiscal crível, e isso a sociedade vai cobrar, porque não há como o governo gastar desse jeito. É matemática, não opinião.
Na sua avaliação, quais medidas o governo deveria anunciar?
O governo precisa fazer um discurso de serenidade, com seriedade e apaziguar a política, tanto para a sociedade quanto para o Congresso. E as medidas precisam ser críveis. Se falar que vai fazer e ficar só no discurso, o mercado não se ajusta. E, com o câmbio nesse nível a cada dia que passa, pior para todo mundo. Agora, é preciso dizer qual é o projeto, e o resto se ajeita. Como vai demorar algumas semanas para apresentar planos, é importante ir mostrando os nomes. O (Geraldo) Alckmin, por exemplo, é considerado um conservador, não é ideológico, com capacidade de negociação, num governo que terá que conciliar com o Congresso. Um perfil assim é preciso, porque é necessário credibilidade para se fazer agora.
E se o governo atrasar?
O mercado vai cobrar, assim como está cobrando hoje (ontem) um pedaço. O câmbio está R$ 5,40, mas pode ir a R$ 6. Se não tiver nada, pode piorar? Pode. Hoje foi forte, mas as medidas que aconteceram nas últimas semanas também foram fortes.
E qual o tamanho dos ajustes necessários, na sua avaliação?
Ninguém vai fazer um corte de 2,5% do PIB para gerar um superávit. O (Michel) Temer, por exemplo, fez déficit, mas cortou gastos. E o mercado adorou, o país voltou a crescer e cresceu durante muito tempo com inflação baixa. Se cortar gastos, mesmo que o superávit não seja expressivo, o mercado já aprova. Agora, fazer superávit com mais arrecadação não é bom. É preciso ser mais eficiente no gasto.
O fato de o candidato derrotado ter questionado o resultado eleitoral dá margem a alguma crise institucional, como vimos em 2023?
Acredito que estamos longe de qualquer coisa parecida. É preciso seguir a institucionalização.
E como o Brasil se comporta frente ao cenário global? Pode haver alívio na pressão por ajustes?
Nós estamos num cenário de juro para cima e inflação para cima em todo o mundo. Diferentemente de cinco anos atrás, quando havia muito capital disponível, e agora não tem. O capital está mais caro para o mundo inteiro. Há mais procura por capital do que oferta, e as taxas estão subindo, inclusive nos EUA e na Europa. As empresas de inteligência artificial estão emitindo fortunas, captando dinheiro, ajudando a tomar esse capital mais escasso e pagando um juro mais alto. Isso encarece para todos. O investidor procura uma relação de risco-retorno melhor e, para o Brasil, fica ainda mais caro. Por isso é preciso se posicionar frente a esse cenário e fazer uma gestão fiscal mais eficiente.
REINALDO LE GRAZIE/ EX-DIRETOR DO BC E SÓCIO DA PANAMBY CAPITAL