Uma despedida aquém do legado
Fernando Kallás
Fernando Kallás
Cristiano Ronaldo passou mais de duas décadas sendo o centro das atenções com a camisa de Portugal, o que torna um pouco triste a forma como ele escolheu fazer sua despedida da seleção: pelas redes sociais e não sob os aplausos de um estádio lotado, deixando que a polêmica com Jorge Jesus ofuscasse uma trajetória extraordinária que deveria ser irretocável.
Sua carreira ajudou a transformar Portugal em uma potência do futebol mundial. Os últimos capítulos dessa história, porém, desviaram a atenção do seu legado para sua insistência em reivindicar seu lugar na equipe quando todo mundo, menos ele, via que o trem já tinha deixado a estação. Precisou Jorge Jesus chegar com sua conhecida personalidade forte para mostrar que a ambição persistente de Cristiano confrontava as verdadeiras necessidades da seleção na realidade atual.
Mas mesmo o desfecho desconfortável não pode eclipsar conquistas que são inquestionáveis. Com Cristiano, Portugal conquistou seu primeiro grande título, a Eurocopa de 2016, e venceu a Liga das Nações em 2019 e 2025. Ele se despede com esses três troféus e os recordes individuais que tornaram a identidade futebolística de seu país inseparável da sua pessoa.
Uma trajetória que começou em 2003, aos 18 anos. No ano seguinte, ele conheceu o lado amargo ao perder em casa a final da Eurocopa para a Grécia. Ele teve que esperar 12 anos pela redenção, que veio com uma ironia cruel: na maior conquista de Portugal, precisou acompanhar boa parte da final fora das quatro linhas ao se lesionar no início da decisão contra a França, em 2016 e deixar o campo chorando. Para alguém acostumado a decidir partidas com a naturalidade de quem respira, sua maior conquista coletiva na seleção talvez tenha sido também a mais dolorosa.
Mas dentro dessa história de recordes e sucesso, há um porém: a Copa do Mundo, que acabou fora de alcance. Cristiano se tornou o primeiro jogador a fazer gols em seis Copas, mas as marcas individuais nunca renderam o troféu mais desejado. Sua última tentativa terminou diante da campeã Espanha nas oitavas de final deste ano. Seus gols em Mundiais também revelam um desequilíbrio: dez dos 11 vieram na fase de grupos. O único no mata-mata foi de pênalti contra a Croácia, na fase de 32, em 2026.
Sua última Eurocopa, em 2024, já havia acirrado o debate sobre seu lugar na seleção. Cristiano passou em branco e Portugal caiu nas quartas. As críticas reacenderam uma pergunta que surgira na Copa de 2022: Portugal realmente precisava de Cristiano ou era um Cristiano decadente, jogando na Arábia Saudita, quem precisava de Portugal para não desaparecer da vitrine da elite internacional? A disputa com Jorge Jesus expôs um confronto incômodo e, talvez, desnecessário. Não contra defensores, mas contra a certeza cada vez menor de jogar. E o anúncio da aposentadoria pelo Instagram encerrou essa disputa muito, mas muito longe do campo.
Comparados por quase duas décadas, Cristiano e Messi tiveram, até aqui, despedidas contrastantes. O argentino foi celebrado pela torcida argentina no mês passado em Buenos Aires, após ajudar o país a chegar à segunda final consecutiva de Copa. Quanta diferença.
A Federação Portuguesa disse ontem que "recusa-se" a deixar que o adeus de Cristiano "se faça sem o devido tributo", deixando aberta a possibilidade de uma despedida em campo, ainda incerta. Se terminar longe do calor dos aplausos e da torcida em estádio, seria melancólico, para não dizer lamentável. Mas também será uma escolha dele.
O debate sobre quando Cristiano deveria ter parado continuará. Os recordes e troféus também permanecerão " lembranças de que, muito antes de Portugal imaginar a vida sem ele, Ronaldo ajudou a mudar o que o país acreditava ser capaz de conquistar.