Conjuntura e digitalização deixam setor para trás na bolsa
As dificuldades do comércio no atual cenário econômico do país têm se refletido na ...
As dificuldades do comércio no atual cenário econômico do país têm se refletido na desvalorização das ações de grandes varejistas na Bolsa de São Paulo, a B3, nos últimos tempos, mas esse efeito se tornou ainda mais agudo no tombo do mercado após a definição da eleição presidencial. Os papéis dessas empresas têm sido os mais penalizados.
A percepção do mercado é que um ajuste nas contas públicas capaz de permitir a redução mais acelerada da taxa básica de juros (Selic) ficou ainda mais difícil de se realizar com a reeleição do presidente Lula após uma campanha cheia de promessas que ampliam despesas do governo. Sem perspectiva de crédito mais barato " para capital de giro e financiamento do consumo ", empresas voltadas ao mercado interno perdem o interesse dos investidores. Levantamento da consultoria Elos Ayta mostra recuo expressivo no valor de mercado de grandes varejistas como Casas Bahia (80%), Grupo Pão de Açúcar (39%) e Magalu (36%).
Mais que os juros
Além da Selic alta " e a subida da curva de juros futuros após a eleição não dá sinal de queda ", analistas veem um fator estrutural por trás dos índices.
" Muitas dessas empresas que cresceram abrindo lojas com margens de lucro apertadas ficaram vulneráveis e têm nível de endividamento elevado. O mercado deixou de premiar o crescimento pelo crescimento e passou a exigir rentabilidade e geração consistente de caixa " explica Ronaldo Guimarães, sócio de Wealth Management e membro do conselho da KAT Investimentos/Safra Invest.
Fragilidades financeiras e estruturais dessas empresas, agravadas pela prolongada conjuntura de juros altos (a Selic está em dois dígitos desde o início de 2022), resultaram numa onda de reestruturações e recuperações judiciais no setor, como a recente das Casas Bahia.
Para Rodrigo Simões, economista da Faculdade do Comércio, a eleição foi só o estopim. Ele observa que quem vende bens duráveis como eletrodomésticos depende de crédito, e, com juros nas alturas e 82% das famílias endividadas, o consumidor está com o orçamento no limite, diz:
" Na segunda-feira pós-eleição, o Ibovespa caiu quase 14% porque o mercado passou a embutir juro alto por mais tempo. E com o avanço das tecnologias, o consumidor agora compara preços instantaneamente (na internet), o que ajuda a manter margens de lucro comprimidas.
Especialistas lembram ainda que as varejistas tradicionais precisam financiar duas estruturas complexas simultâneas: lojas físicas com alto custo fixo e operações digitais que só dão lucro com escala. O uso de inteligência artificial ajuda a otimizar estoques e previsões de venda, mas nem todas conseguem converter inovação tecnológica em caixa.
Esse desafio também se apresenta para as pequenas e médias empresas do comércio, que têm acesso ainda mais restrito a um crédito caro, limitações de capital para investir em digitalização e menor poder de barganha junto aos fornecedores para disputar o mesmo consumidor endividado. Nesse ambiente, a gestão de caixa é ainda mais decisiva. Com o avanço do e-commerce, muitas dessas pequenas varejistas também têm feito parcerias com grandes marketplaces para ampliar seu alcance, além de atuar em nichos.
" As pequenas e médias têm como vantagem, em relação a grandes varejistas, maior flexibilidade operacional, proximidade com o cliente e agilidade para atuar em mercados regionais " diz Guimarães.
Ricardo Pastore, coordenador do Laboratório de Varejo da ESPM, avalia que a crise do varejo não é pontual, mas ligada ao impacto da tecnologia e à mudança de comportamento do consumidor com a eliminação de barreiras físicas, burocráticas e temporais pela digitalização do comércio:
" O modelo tradicional focado puramente na venda de produtos "commoditizados" enfrenta desgaste. A saída estratégica é estender a cadeia de relacionamento para a oferta de serviços, transformando o varejo em um hub ou plataforma de relacionamento capaz de reter o cliente.