‘O equilíbrio depende do uso adequado dos recursos’
Entrevista
Entrevista
Mesmo com 23 aquisições concluídas na última década, o grupo de medicina diagnóstica Fleury " dono de marcas como Labs a+, Felippe Mattoso e Hermes Pardini " ainda vê espaço para crescer, dada a pulverização do setor, que soma mais de 25 mil laboratórios no país. Em entrevista ao GLOBO, a cardiologista Jeane Tsutsui, que desde 2021 lidera como executiva a modernização e a expansão da companhia centenária, diz que o objetivo agora é ir além dos exames, responsáveis por 91% das receitas do grupo, e ampliar sua presença em outras etapas da jornada de cuidado dos pacientes. A estratégia inclui investimentos em prevenção, longevidade e genômica.
O Grupo Fleury se destaca pelo apetite nas aquisições. Quais são os critérios para decidir se um ativo vale a pena?
A maior parte do nosso crescimento é orgânico. No terceiro trimestre, crescemos 13,3%, dos quais 9,9 pontos percentuais vieram do orgânico. A última aquisição foi a da Unilab, que atua em Atibaia (SP) e outras nove cidades da região. Sempre avaliamos três pilares. O primeiro é o estratégico: buscamos regiões com alto desenvolvimento socioeconômico, elevada cobertura de saúde suplementar e possibilidade de integração. O segundo é se a marca é reconhecida por clientes, médicos e comunidades. E o terceiro é a disciplina econômico-financeira. Avaliamos parâmetros e sinergias que podemos capturar. É preciso pagar o preço correto, especialmente num momento de custo de capital elevado. Continuamos avaliando aquisições, mas há um tamanho mínimo que torna a operação viável. Não faz sentido comprar ativos muito pequenos.
Ainda há espaço para grandes aquisições no setor?
Sim, o setor é bastante pulverizado. Estimamos até 25 mil laboratórios no Brasil, e muitos são pequenos. Além das nossas unidades de atendimento, temos uma operação importante de apoio a laboratórios, o Lab-to-Lab. Apoiamos 9,3 mil laboratórios e passamos diariamente por 2,2 mil municípios, que concentram cerca de 80% da população do país, para recolher amostras, processar exames e devolver resultados. Portanto, não é necessário comprar um laboratório para ampliar nossa presença. Podemos ser parceiros desses negócios locais. Essa operação corresponde a 22% da nossa receita, que ficou em R$ 2,69 bilhões no terceiro trimestre. Esse serviço tem potencial de crescimento e permite fortalecer laboratórios locais.
Além do diagnóstico, em quais áreas o Fleury quer crescer?
Chegamos aos 100 anos com a ambição de nos fortalecermos como um dos grandes grupos de saúde do Brasil, integrando cada vez mais a jornada de cuidado do paciente, com foco em prevenção, promoção da saúde e gestão de doenças crônicas. A medicina diagnóstica continua o nosso core, mas, desde 2021, avançamos também em especialidades relacionadas à longevidade. No ano do centenário, lançamos a unidade Marco 100, um centro de longevidade saudável que tem medicina diagnóstica e cuidados relacionados a sono, exercício e alimentação. Também oferecemos telemedicina em todo o Brasil. Em algumas especialidades, como ortopedia, integramos consulta, diagnóstico e fisioterapia.
O Fleury chegou a avaliar uma sociedade com a Porto para investir na Oncoclínicas (que entrou em recuperação judicial após perdas relacionadas ao Banco Master), mas o negócio não avançou. Por quê?
A oncologia é importante para o Fleury. Já oferecemos um portfólio amplo de diagnósticos: análises clínicas, exames de imagem, anatomia patológica e genômica. Atendemos pacientes em diferentes etapas, da prevenção e do diagnóstico precoce ao acompanhamento de quem já teve diagnóstico de câncer. Estamos sempre avaliando ativos. No caso da Oncoclínicas, tivemos apenas três semanas para a diligência, por isso não evoluiu.
O envelhecimento da população aumenta a demanda por serviços de saúde, mas também pressiona os custos. Como equilibrar esses fatores?
Com o envelhecimento, cresce o número de pessoas com doenças crônicas. Por isso, insistimos na importância da prevenção, da promoção da saúde e do acompanhamento ambulatorial: essas medidas podem evitar complicações e eventos de alto custo. O diagnóstico precoce e o acompanhamento costumam custar menos que tratar uma complicação que exija cirurgia ou outro procedimento de alta complexidade. O equilíbrio depende do uso adequado dos recursos. Isso exigirá maior conscientização de todos os envolvidos: sistema de saúde, pagadores, prestadores e sociedade.
As negociações com os planos de saúde estão mais difíceis?
Sempre tivemos uma relação próxima com as fontes pagadoras. Depois da pandemia, houve aumento da sinistralidade (o uso do plano) porque as pessoas voltaram a procurar serviços de saúde, mas os dados mais recentes mostram que estamos entrando num momento de maior equilíbrio. Esse cenário traz a responsabilidade de pensar em soluções para o futuro, já que a população envelhece e pode precisar de mais cuidados. Nossa estratégia está alinhada à busca por melhor utilização dos recursos e soluções que ajudem as operadoras a atender.
Quando exames sofisticados, como os de genômica e o Galleri (que detecta sinais associados a tumores), serão acessíveis?
Ainda não é possível dizer. O teste Galleri, desenvolvido pela Grail, é oferecido no Brasil pelo Fleury e pelo (Hospital Albert) Einstein, por meio da joint venture Gênesis, e tem preço particular (R$ 6,9 mil). Em um exame de sangue, detecta sinais que podem indicar a presença de tumores. É comum que um teste seja oferecido inicialmente de forma particular e, com o tempo, passe a ser coberto pelos planos. Os custos de tecnologias genômicas vêm caindo.
A senhora tem uma trajetória diferente de muitos executivos, já que é médica e pesquisadora de formação. Como foi a transição para o cargo de CEO?
A vantagem de ser médica é trazer uma visão técnica do sistema de saúde, mas isso precisa ser complementado. Eu fiz uma formação em gestão e finanças. Como líderes, precisamos estar muito abertos ao aprendizado. O mundo está mudando rapidamente. As transformações tecnológicas e de perspectiva macroeconômica exigem uma liderança disposta não apenas a aprender, mas também a ouvir. E médico aprende isso cedo: ouvir o paciente, entender o que está acontecendo, interpretar os cenários e tomar decisões.
Jeane Tsutsui / CEO do Grupo Fleury