Domingo, 05 de Abril de 2020

Sem verdades inconvenientes

BrasilO Globo, Brasil 4 de abril de 2020

Cora Rónai

Cora Rónai
Bill Gates é uma das pessoas mais conhecidas do mundo " e uma das mais controversas também. Ao longo das últimas décadas, enquanto a sociedade da informação em que vivemos crescia, a sua imagem pública passou por diferentes fases. Foi o menino prodígio, o milionário mais jovem do planeta, o nerd do mal, o magnata arrogante para quem não havia limites, e que deu um inesquecível show de arrogância quando foi chamado para depor no Congresso americano, como se as instituições do seu país fossem indignas da sua atenção.
Ao contrário de Steve Jobs, que tinha um senso de marketing infalível, e que conseguiu se projetar como a personificação do gênio descolado, Gates nunca despertou admiração incondicional. Quem acompanhava a sua trajetória à frente da Microsoft não tinha como deixar de constatar o seu sucesso, mas não podia ignorar as práticas questionáveis da empresa, que cresceu deixando um rastro de destruição no nascente ecossistema da tecnologia.
Bill Gates representava, no final do século XX, o que os robber barons representavam cem anos antes: empreendedores com um talento extraordinário para ganhar dinheiro, sempre um passo adiante da lei que ainda não tinha sido feita para regular os monopólios que construíam.
Apesar da ferocidade dos seus negócios, homens como Andrew Carnegie, Cornelius Vanderbilt ou John D. Rockefeller transformaram a economia do seu tempo e deixaram grandes legados culturais. Bill Gates pretende ir pelo mesmo caminho, mas em vez de financiar museus e teatros tenta salvar o mundo.
É um esforço meritório, que vem mudando a sua imagem desde que, em 2008, deixou a direção da Microsoft para se dedicar em tempo integral à filantropia. A série "O código Bill Gates", da Netflix, é uma ode à versão revista e atualizada do homem mais rico do mundo, agora uma espécie de supercidadão global preocupado com o meio ambiente e as multidões necessitadas.
Dirigidos por Davis Guggenheim, que ganhou um Oscar em 2007 por "Uma verdade inconveniente", os três episódios da série falam quase superficialmente da Microsoft, e tocam o mínimo possível em... bom, verdades inconvenientes. Em foco, a Fundação Bill e Melinda Gates e os seus principais desafios, como a erradicação da polio, um sistema eficaz de saneamento e usinas nucleares eficientes e seguras. Há longas conversas com Bill Gates, é claro, e com Melinda. E mais família e amigos e cientistas diversos que atestam, todos, a genialidade do protagonista " cuja excelente forma física, aliás, também é exibida, em longas caminhadas, partidas de tênis e uma bela cena final de canoagem ao entardecer.
O contraditório passou longe da série, que funciona como uma peça de propaganda para a fundação e para o casal que a criou. Em nenhum momento se questiona o seu poder, e o fato de apenas duas pessoas terem acesso a tantos recursos. Apesar disso, "O código Bill Gates" tem aspectos positivos como documentário " é bem filmado, aborda problemas sérios de forma compreensível e interessante, e nos oferece uma visão rara e íntima de um dos homens que, para o bem e para o mal, arquitetou o nosso tempo.