Sábado, 11 de Julio de 2020

‘Fui chamado de macaco na escola e nunca mais esqueci’

BrasilO Globo, Brasil 11 de julio de 2020

No domingo, na goleada sofrida pela Cabofriense para o Botafogo por 6 a 2, uma cena em especial ...

No domingo, na goleada sofrida pela Cabofriense para o Botafogo por 6 a 2, uma cena em especial chamou atenção, protagonizada pelo lateral-esquerdo Luan Santos, da equipe de Cabo Frio. Ele foi o único de seu time a se ajoelhar com os 11 titulares alvinegros no protesto antirracista em referência ao movimento "Black Lives Matter" (Vidas Negras Importam).
Ao GLOBO, o jovem jogador de 19 anos, que já sofreu racismo, explicou que o gesto não foi premeditado. Os seus companheiros de Cabofriense não sabiam do protesto, mas ele sentiu na hora a necessidade de se justar aos atletas do Botafogo " tudo aconteceu aos dois minutos do primeiro tempo. Os demais jogadores da equipe da Região dos Lagos permaneceram em pé.
" Essa luta não é só do Botafogo, é uma coisa que existe e afeta os negros de todos os lugares. É uma doença que deveria ser eliminada da nossa sociedade " destacou Luan Santos.
O preconceito sofrido na infância ficou marcado, e o levou a protestar contra o racismo na partida. Luan Santos pretende usar o futebol como uma plataforma para acessar outros jovens, e acredita que influenciou também os companheiros de Cabofriense.
" Fui chamado de macaco na escola e nunca mais esqueci. Acho que essa luta também é minha. O futebol tem muita influência no mundo todo. Um simples gesto que você faz dentro de campo pode chegar a muitas pessoas. Com certeza, no próximo jogo, mais jogadores vão protestar. Fico feliz por, de alguma forma, influenciar o meu time, e espero que isso chegue a mais pessoas "avisou.
O carioca Luan Santos iniciou a vida no futebol aos 14 anos, no Friburguense. Morando sozinho, ele logo precisou pausar o sonho para se sustentar. Durante um ano trabalhou como garçom, mas em 2018 conseguiu uma oportunidade no Audax, de Osasco. Na equipe paulista fez cinco jogos até chegar à Cabofriense, onde integrava o elenco sub-20 desde o ano passado.
O time teve nove contratos encerrados por causa da paralisação do Campeonato Estadual, o que deu a Luan sua segunda oportunidade como profissional na carreira. Ele já tem outro compromisso marcado pela Cabofriense, amanhã, contra o Bangu, às 15h15, no estádio de Moça Bonita, no encerramento da fase de grupos do Carioca.
" Eu acho que não era o momento para voltar a jogar futebol, com mais de 50 mil mortes no nosso país " acrescentou Luan Santos, em opinião contrária ao clube da Região dos Lagos, que foi favorável ao retorno do Estadual.