Miércoles, 21 de Abril de 2021

Estado islâmico se alia a grupos locais na áfrica

BrasilO Globo, Brasil 8 de abril de 2021

O autodeclarado califado do Estado Islâmico (EI) caiu, seus combatentes se dispersaram, e seu ...

O autodeclarado califado do Estado Islâmico (EI) caiu, seus combatentes se dispersaram, e seu líder, Abu Bakr al-Baghdadi, foi morto. Mas, dois anos depois de sofrer duras derrotas na Síria e no Iraque, o grupo terrorista encontrou uma nova tábua de salvação na África, onde formou alianças com grupos militantes locais que aumentaram sua capilaridade, arrecadação de fundos e recrutamento.
Muitos desses grupos locais estão só vagamente conectados ao EI. Ainda assim, no ano passado, quando a violência de extremistas islâmicos no continente africano atingiu um recorde, o EI alardeava essas vitórias no campo de batalha para projetar uma imagem de força e inspirar seus apoiadores em todo o mundo.
Na semana passada, o grupo reivindicou a autoria de uma série de ataques no Norte de Moçambique, onde militantes com laços distantes com a organização terrorista emboscaram uma importante cidade portuária. O ataque deixou dezenas de mortos e suscitou conversas nos fóruns online do EI sobre o estabelecimento de um novo califado ali, afirmam pesquisadores.
" Como uma organização mais ampla, o EI está sofrendo " disse Colin Clarke, analista de contraterrorismo do Grupo Soufan, uma empresa de consultoria de segurança de Nova York. " Para melhorar o moral entre seus apoiadores, a liderança do grupo está buscando promover as filiais regionais, mostrando ataques mais promissores e mantendo um ritmo operacional robusto.
enfraquecido, mas coeso
O cerco a Palma, a cidade de Moçambique, foi o ataque mais agudo dos rebeldes locais e é parte de um aumento alarmante de confrontos brutais envolvendo militantes extremistas islâmicos em todo o continente. A violência associada a esses grupos aumentou 43% em 2020 em comparação com 2019, de acordo com o Centro de Estudos Estratégicos da África, uma instituição de pesquisa do Departamento de Defesa dos EUA.
Por mais de uma década, militares dos EUA e oficiais de contraterrorismo alertaram que a África estava preparada para se tornar a próxima fronteira para organizações terroristas internacionais como a al-Qaeda e, mais recentemente, o EI. Ambas as organizações formaram alianças com grupos jihadistas locais nos últimos anos e estabeleceram novas fortalezas no Oeste, Norte e Centro da África, de onde podem realizar ataques em grande escala, de acordo com especialistas e autoridades nos EUA e na Europa.
Mais recentemente, autoridades americanas alertaram que, mesmo em sua condição enfraquecida, o EI permanece uma organização coesa em seus antigos redutos no Iraque e na Síria, com talvez 10 mil combatentes que passaram à clandestinidade. Além disso, o EI possui um fundo de guerra de US$ 100 milhões e uma rede global de células fora do Oriente Médio, das Filipinas ao Afeganistão, de acordo com oficiais de contraterrorismo dos EUA e da ONU.
E enquanto tenta se recuperar no Oriente Médio, o Estado Islâmico investe em novos pontos de apoio na África, onde a raiva contra governos corruptos e forças de segurança locais mal equipadas deu origem a grupos armados, afirmam analistas.
O EI estabeleceu laços com muitos desses grupos locais, no que analistas descreveram como casamento de conveniência: para os militantes, a marca do EI traz a legitimidade e o reconhecimento que os movimentos guerrilheiros locais há muito desejam. O EI, por sua vez, conseguiu projetar os ataques dos militantes locais como prova de que sua jihad global está viva e bem.
Em alguns lugares como o Nordeste da Nigéria, o EI exerce influência sobre seu afiliado local, o Estado Islâmico na África Ocidental, e fornece treinadores, conhecimento e financiamento, segundo pesquisa do International Crisis Group. Mas os pesquisadores dizem que o EI mantém laços muito mais frouxos com outros grupos, como o de Moçambique, que continua sendo um movimento nacional, nascido de queixas locais.
Por décadas, moçambicanos pobres assistiram às elites da capital saquearem a região rica em recursos de Cabo Delgado. Em 2009, um dos maiores depósitos de rubi do mundo foi descoberto na província e, dois anos depois, as empresas de petróleo encontraram um depósito de gás natural no valor de dezenas de bilhões de dólares. De forma súbita, e muitas vezes violenta, especuladores migraram para a área, moradores foram forçados a deixar suas terras, e alguns mineiros de pequena escala foram espancados e mortos.
apoio popular
No momento em que os rebeldes lançaram os primeiros ataques em 2017, visando delegacias de polícia e líderes do governo local, eles tinham apelo generalizado entre os pequenos comerciantes nos portos e jovens desencantados, dizem pesquisadores.
Mas, no ano passado, a natureza da guerra mudou. O grupo jihadista destruiu cidades, deslocando 670 mil pessoas, matando pelo menos 2 mil civis e sequestrando dezenas de outros, segundo organizações de direitos humanos e o Departamento de Estado dos EUA.