Miércoles, 21 de Abril de 2021

A lei da pureza alemã

BrasilO Globo, Brasil 8 de abril de 2021

Cora Rónai

Cora Rónai
Uma noite dessas eu estava com a televisão ligada enquanto arrumava algumas coisas de casa, quando ouvi uma publicidade exaltando a "Lei da Pureza Alemã". Não sei vocês, mas eu acho bem bizarro ouvir essas três palavras juntas, e fiquei com uma sensação ruim. Terminei de arrumar as coisas, servi o jantar dos gatos e não pensei mais no assunto.
Uma ou duas noites depois, televisão ligada novamente, novamente ouvi a propaganda enaltecendo a "Lei da Pureza Alemã". Dessa vez a sensação ruim foi pior, porque eu já havia ouvido antes.
Aos 13 anos, a minha Mãe foi proibida de ir à escola por causa de leis de pureza alemãs importadas pela Itália. Para os fascistas, a presença de crianças judias nas salas de aula poderia corromper a mente limpa das crianças puras.
Meu Pai era mais velho do que ela quando essas leis entraram em vigor e já tinha terminado a escola. Mas não pôde ir para a universidade em Budapeste, porque, lá também, a ideia de judeus impuros entre os húngaros puríssimos era repulsiva. Mais tarde ele viria a ser preso e por pouco não teve o destino de tantos milhões de outras pessoas de pureza contestada pela Alemanha.
A história da minha família foi alterada de forma muito radical por leis de pureza alemãs para que eu consiga ouvir a expressão "Lei de Pureza Alemã" num comercial de televisão e achar normal.
De modo que fui para o computador e escrevi na minha rede social:
"Tem uma cerveja chamada Império que faz propaganda falando em ‘lei da pureza alemã’. E cada vez que eu vejo essa propaganda fico me perguntando como pode um desconhecimento tão abissal de História ir ao ar toda noite."
Teria ficado por isso, apenas um desabafo em rede social, se, meia hora depois, o post não estivesse zunindo com enxames de cervejeiros indignados, me explicando que propagandas de cerveja costumam se referir a cervejas (oh!) e ordenando que eu me recolhesse à minha insignificância cultural e etílica (ah!).
Como pode alguém ignorar a Reinheitsgebot, a Lei da Pureza da Cerveja, promulgada pelo duque Guilherme IV da Baviera, em 23 de abril de 1516?!
Estou bem acostumada com clientes insatisfeitos, mas fiquei espantada com o nível de agressividade dos comentários. Abri uma Coca-Cola (só de birra) e fui espiar as páginas dos mais ferozes: majoritariamente homens, jovens, religiosos, bolsonaristas. E uma quantidade incomum de monarquistas, o que talvez se explique pelo fato de a cerveja se chamar Império e ser fabricada em Petrópolis.
O meu post havia ido parar num grupo de cervejeiros.
Até à 0h02 da segunda-feira, dia 5 de abril, eu não tinha conhecido ninguém da categoria, nem tinha qualquer opinião formada sobre o meio. Agora tenho. Ignorance, como dizem, is bliss: a ignorância é uma bênção.
Claro que, depois de mais de mil comentários exaltados e repletos de imperativos, acabei também mudando de opinião em relação à propaganda. Antes, eu achava que o foco na "Lei da Pureza Alemã" era só uma infelicidade sem más intenções.
Mas devo estar viajando no lúpulo.
Vai ver, é só mais uma marca ajeitando a lapela.