A incrível história do homem que fugiu dentro da mala preta
Na noite de Natal, Carlos Ghosn foi ao escritório de seus advogados em Tóquio para falar com sua ...
Na noite de Natal, Carlos Ghosn foi ao escritório de seus advogados em Tóquio para falar com sua mulher, Carole, pela segunda vez desde abril passado. Ao longo de sua odisseia pelo sistema judicial japonês " com várias prisões, cem dias na solitária, interrogatórios sem fim e, depois de sua saída sob fiança, vigilância 24 horas por dia " Ghosn passara por muitas humilhações.
Mas a pior era ter de pedir permissão ao tribunal até para falar com a mulher, que os promotores viam como cúmplice nos crimes financeiros de que o ex-presidente da Nissan-Renault era acusado.
Só era permitido ao casal falar por uma hora. Quando o tempo acabava, Ghosn se despedia com um "eu te amo, habibi",termo afetivo árabe.
No dia seguinte, Ghosn soube que um de seus julgamentos poderia só sair em 2021, aumentando a perspectiva de mais um ano de isolamento.
O executivo, porém, tinha uma jogada desesperada, que foi planejada durante meses, e restauraria sua liberdade se tudo desse certo. No Oriente Médio, um Boina Verde do exército americano, Michael Taylor, e um veterano libanês da invasão do Iraque em 2003, George-Antoine Zayek " os dois agora trabalhando em segurança privada para altos executivos " prepararam um plano ousado para tirar Ghosn de Tóquio, bem debaixo dos narizes da polícia. O objetivo era levá-lo até Beirute, cidade onde passou sua infância e capital de um país onde Ghosn sempre foi considerado quase um herói nacional.
A princípio, a ideia pode ter parecido ridícula. Mesmo sem tornozeleira eletrônica, os movimentos de Ghosn eram monitorados de perto por câmeras como a instalada na porta de sua casa alugada, no movimentado bairro de Ropongi, e quando ele saía era vigiado por equipes de agentes à paisana. Além disso, com orelhas de abano, sobrancelhas espessas e costeletas, Ghosn seria facilmente reconhecível na rua mesmo se fosse um desconhecido. Mas no Japão ele é um dos estrangeiros mais famosos. Assim, as chances de escapar sem ser detectado eram muito poucas.
Mas havia uma oportunidade. No Japão, o Ano Novo é o feriado mais longo do ano, e as repartições públicas fecham por mais de uma semana. Promotores e policiais tiram folga para ficar com as famílias. E a defesa de Ghosn registrou queixa contra a empresa de segurança privada contratada pela Nissan para seguir Ghosn, alegando que ela estava violando seus direitos. Com isso, segundo fontes, os seguranças privados recuaram, pelo menos temporariamente.
Na manhã do domingo, 29 de dezembro, Taylor e Zayek chegaram, a bordo de um jato Bombardier Global Express a um terminal privado no aeroporto internacional de Kansai, numa ilha artificial perto de Osaka. Havia duas grandes malas pretas a bordo, segundo fontes a par do voo.
trem-bala até osaka
Mais tarde, no mesmo dia, de acordo com câmeras de vigilância japonesas, Ghosn saiu de casa usando um chapéu e uma máscara cirúrgica (comum para proteção contra germes no país). Ele pegou um trem-bala da estação de Shinagawa até Osaka às 16h30 e, chegando lá, tomou um táxi até um hotel perto do aeroporto, segundo a rede NTV.
Naquela noite, o mesmo jato Bombardier decolou do aeroporto de Kansai para Istambul, na Turquia. A equipe de segurança achou que voar direto para Beirute, que recebe pouquíssimos voos de Osaka, levantaria suspeitas.
Passageiros para o exterior no terminal privado passam por controle de passaportes, e havia oficiais de alfândega e imigração presentes no local. Mas, aparentemente, Ghosn viajou como carga, escondido dentro de uma enorme mala preta que seria grande demais para passar pelo raios X. Às 23h10, o avião estava no ar.
Levaria 12 horas até Istambul. A aeronave voou evitando o território sul-coreano (país que tem acordo de extradição com o Japão), e cruzou o espaço aéreo da Rússia, onde ficou por quase toda a viagem. Não era a rota mais direta, mas manteve Ghosn sobre um país onde ele tinha boas conexões após unir a montadora russa AvtoVAZ à aliança Nissan-Renault.
Se o Japão quisesse forçar a aterrissagem do avião, Ghosn poderia esperar simpatia dos russos, ou, pelo menos, que eles demorassem a atender as autoridades japonesas.
Mas o governo japonês parecia não saber que Ghosn fugira. E o Bombardier pousou às 5h30 do dia 30 de dezembro em Istambul. Como mudar de aeronave poderia chamar a atenção, Ghosn foi transferido, segundo um funcionário turco, dentro de uma caixa para um avião Bombardier menor, que decolou para Beirute.
Chegando em segurança ao Líbano, Ghosn não precisou esconder mais sua identidade. Ele conseguira ficar com um de seus passaportes franceses, guardado num cofre cuja senha só os advogados sabiam. Mas, de acordo com uma pessoa a par do assunto, o cofre foi fácil de arrombar com um pouco de óleo e uma furadeira. Assim, o passaporte foi usado para entrar no Líbano.
A mulher de Ghosn, Carole, que contava os dias para rever o marido, estava com a família em Beirute quando ele chegou. Ela correu para recebê-lo, e o casal só se reuniu com amigos para um jantar de Ano Novo no dia seguinte. Uma foto os mostra à mesa, bebendo vinho e champanhe.
Os advogados japoneses disseram que nada sabiam da fuga. O escritório de advocacia Paul Weiss, dos EUA, também foi surpreendido. Em 2 de janeiro, Ghosn afirmou em nota que planejara a fuga sozinho, sem qualquer ajuda da família.
O Japão ainda pode pressionar o Líbano a extraditar Carlos Ghosn. A ministra da Justiça do Japão, Masako Mori, observou que o governo japonês poderia solicitar extradição de um país com o qual não possui acordo formal, garantindo "a reciprocidade e a lei nacional do país parceiro".