Brasileiro faz fila para ganhar r$ 630 por leitura de íris
Há mais de duas décadas no "corre" das ruas de São Paulo, o motoboy André Vale, de 48 ...
Há mais de duas décadas no "corre" das ruas de São Paulo, o motoboy André Vale, de 48 anos, precisou só de 15 minutos para garantir uma quantia de dinheiro que geralmente levaria um ou até dois dias de trabalho para receber. Morador da Brasilândia, na Zona Norte da capital, ele é um dos mais de 400 mil brasileiros que fizeram a "verificação de humanidade" pelos olhos (identificação da íris), um processo conduzido pela empresa Tools for Humanity (TfH) como parte do projeto chamado de World, que tenta criar uma identidade global.
Em troca, André recebeu 20 ativos digitais que, na cotação atual, valem cerca de R$ 260 e podem ser resgatados pelo celular. Ao longo de um ano, vão cair na carteira virtual dele mais 28 ativos (R$ 367).
" Fiquei um pouco preocupado. Não com questão de dados, porque hoje a gente já dá digital, dá foto do rosto em todo lugar… Meu medo era mais com a máquina mesmo, a gente não sabe o que é " diz o paulistano em referência ao Orb, pequena esfera de metal recheada de sensores que identificam os olhos dos "voluntários" e estão espalhadas por São Paulo. " Mas deu certo, foi rápido.
André ficou sabendo do projeto pelas redes sociais e pelo boca a boca de colegas. Ele desconfia se o objetivo da iniciativa é aquele que dizem (criar uma identidade global que irá diferenciar humanos de robô). Mas pensa que a tecnologia pode ser útil um dia e que a oportunidade de retorno financeiro "faz a gente correr atrás, não tem jeito".
A primeira parte da recompensa oferecida pelo projeto é paga 48 horas após a verificação pelos olhos. Depois, os usuários recebem 28 novos ativos digitais ao longo 12 meses (o que soma cerca de R$ 630, a depender da cotação do token WorldCoin).
‘jeitinho brasileiro’
Para participar do processo, os brasileiros baixam o aplicativo da World, cadastram o número de telefone no app e agendam horário em um dos pontos de verificação da empresa. Por enquanto, São Paulo é a única cidade brasileira a receber a iniciativa, em operação desde novembro. Desde então, os pontos de verificação passaram de dez para 50.
Em entrevista ao GLOBO, Rodrigo Tozzi, gerente de operações da Tools for Humanity no Brasil, diz que o objetivo é ir além da capital paulista e levar a World para "todas as cidades, em todos os cantos desse país". Mas há limitações, como garantir qualidade e controle. Ainda assim, afirma que a expansão vai ocorrer esse ano (leia a entrevista abaixo).
Ao todo, 10,5 milhões de pessoas fizeram verificação de humanidade a partir dos olhos em um dos Orbs da Tools for Humanity ao redor do mundo. Atualmente, o processo de verificação está ativo em 19 países, sendo 11 deles na América Latina, em localidades em Argentina, Chile, Colômbia e Costa Rica.
A empresa refuta a definição de que a verificação é uma "venda" dos olhos. De acordo com a World, o registro da íris é descartado após ser escaneado pelo Orb, que captura uma imagem em alta definição para depois convertê-la em algoritmos. A sequência numérica é a representação única daquela usuário, que detém o registro no celular.
Fragmentos das informações, porém, ficam nos servidores da World. O projeto utiliza um sistema conhecido como Computação Multipartidária Anonimizada (AMPC). Nesse método, os dados são divididos em fragmentos criptografados, que são armazenados em diferentes servidores de forma anonimizada e repartida, o que impediria que fossem reconstituídos.
Na União Europeia, o fato de o usuário não poder excluir esses fragmentos da base da World se tornou alvo de disputa do projeto com as autoridades de dados. No Brasil, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) investiga desde novembro se o protocolo está de acordo com a lei do país. Segundo Tozzi, todos os questionamentos feitos pela ANPD foram respondidos.
" O problema fundamental está na associação de uma compensação financeira com o consentimento para coleta de dados da íris " avalia Nathan Paschoalini, pesquisador da Data Privacy Brasil. " É uma empresa vindo coletar dados em países majoritariamente do Sul global. Isso aprofunda assimetrias de poder de informação.
O destino de fragmentos criptografados gerados a partir dos olhos, no entanto, parece distante de ser uma preocupação dos brasileiros que embarcam na iniciativa. Essa é o caso da passadeira de roupas Marilene Ferreira da Silva, de 54 anos, que soube da World a partir de uma vizinha.
" Não entendi o que eles estão fazendo, não " diz ela bem-humorada, depois de passar em um dos pontos da World em São Paulo para confirmar se os tokens já podiam ser resgatados e transformados em reais. " Não fiquei com medo também. Vamos ver agora o que vai acontecer.
O cabeleireiro Álvaro Gusmão, de 43 anos, que fez a verificação no mesmo ponto de Marilene, no Bom Retiro, conta que "procura não pensar" sobre problemas de conformidade da iniciativa com a proteção de dados. Para ele, o impulso que o projeto ganhou nas últimas semanas tem a ver com o "jeitinho" do brasileiro.
" O custo de vida subiu muito, e o real não é valorizado. Se o brasileiro acha oportunidade, ele vai lá, embarca " diz Gusmão, lembrando que as pessoas minimizam a entrega de dados já que "em todo o lugar" precisam deixar informações pessoais.
Fabro Steibel, diretor-executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio), lembra que a empresa lida com informação sensível, que é a íris humana, um dado pessoal e inalterável:
" O tratamento de dados feito hoje é extremamente simples. Ele vai pegar a sua íris e vai criptografar. Ele não vai nem associar o registro a uma identidade. O ponto é: como isso será utilizado no futuro?
Fábio Assolini, diretor da equipe de pesquisa e análise da Kaspersky, ressalta que a informação biométrica, como a coletada a partir da íris, é mais precisa e, por isso, se torna um método de autenticação mais confiável:
" A questão com o dado biométrico é que ele não pode ser mudado. Uma senha você consegue trocar, mas o seu dado biométrico não muda.