Na b3, empresas menores batem as grandes. é a hora delas?
O primeiro semestre deste ano não foi bom apenas para o principal indicador da B3, o ...
O primeiro semestre deste ano não foi bom apenas para o principal indicador da B3, o Ibovespa. Enquanto este já subiu 17,4% de janeiro até a última sexta-feira, o Índice Small Cap (negociado sob o código SMLL), que reúne empresas de menor valor de mercado, saltou 26,5% no mesmo período. De qualquer forma, segue 31% abaixo da sua máxima, de 3.225 pontos, alcançada em 21 de junho de 2021. Isso mostra que o SMLL continua aquém do seu potencial, em um cenário que pode começar a estimular investidores a tomarem mais riscos, ou seja, procurarem papéis menos líquidos.
Conforme o próximo ciclo de cortes na Selic, hoje em 15% ao ano, parece mais próximo, alguns gestores acreditam que é chegada a hora de aumentar posições nas empresas com menor valor de mercado " as small caps.
Sua vantagem é o tamanho menor. Esses papéis tomam impulso " ou caem " com mais facilidade. Já as gigantes dependem de um fluxo mais expressivo de capital entrando ou saindo delas para se moverem.
Considerando seu preço histórico, o SMLL está barato, sinal de que há uma correção a ser feita. O indicador preço sobre lucro (P/L) " que mede quanto o mercado está disposto a pagar por uma empresa, considerando projeções de lucro por ação " do índice girava em torno de 10 vezes em junho. Segundo a Genial Investimentos, esse número está cerca de 27% abaixo da média histórica, de 14 vezes, mesmo após a recente recuperação do mercado.
Werner Roger, sócio e diretor de investimentos da Trígono Capital, observa que, desde maio de 2008, o Brasil teve quatro ciclos de aperto monetário, seguidos por alívios na Selic. Nesse histórico, o SMLL subiu, em média, 11 pontos percentuais para cada um ponto percentual de recuo na taxa básica de juros, contra 6,5 pontos percentuais do Ibovespa.
" Mas, no último ciclo, com o mercado desconfiando da sustentabilidade da queda de juros, o movimento foi inverso. O Ibovespa subiu com impulso de investidores menores, mas o SMLL caiu, porque os gestores entenderam que a Selic ainda precisaria subir mais " diz Roger.
Agora, crescem as expectativas para a retomada dos cortes de juros nos Estados Unidos, com a pressão do presidente Donald Trump sobre o banco central americano. Por aqui, os sinais de que a inflação cede sob os juros altos parecem mais consistentes " e mais convincentes.
Fator psicológico
Para os investidores, esse retrato permite antecipar o cenário de início do próximo ciclo de alívio na Selic. Se os cortes virão em janeiro ou só no segundo trimestre de 2026, não importa: esse horizonte já vem sendo embutido nos preços dos ativos. Em especial, os mais sensíveis a ele, caso das small caps.
" Embora o investidor local normalmente precise de sinais mais claros sobre a política monetária para voltar à renda variável, estamos vendo o Ibovespa renovar a máxima mesmo com a taxa básica de juros no maior patamar em quase 20 anos. Essa desconexão faz com que o movimento no mercado deixe de ser racional. Assim, um mecanismo de apetite ao risco começa a ser forjado " explica João Piccioni, diretor executivo de investimentos da Empiricus Asset.
Para quem tem maior tolerância à volatilidade, o cenário é de oportunidades. Mas o quadro macroeconômico inspira cautela. A volatilidade, particularmente acentuada este ano pelas incertezas aqui e no exterior, sugere um retorno gradual às small caps, com foco no médio e longo prazos.
A rotação de capital internacional também tem dado fôlego para os ativos locais, o que acaba transbordando para as ações cíclicas domésticas e, em alguma medida, até para as small caps, segundo Piccioni.
Isso acontece não por uma preferência dos estrangeiros por empresas de baixa capitalização, mas por efeito cascata. A teoria de Piccioni é que essa dinâmica alimenta no mercado o receio de ficar fora de alguma tendência. Esse fator psicológico mobiliza os investidores.
Piccioni conta que alguns fundos da Empiricus estão mais concentrados hoje em small caps e empresas dependentes do ciclo econômico doméstico. A aposta da gestão numa valorização turbinada dessas companhias, com a retomada econômica, exige paciência do cotista, ele admite:
" Mas, se a tese se confirmar, a capacidade de o produto dar retornos que superem o Ibovespa é significativa.
Para aqueles que toleram a alta volatilidade das small caps e preferem fazer a própria seleção, a equipe de análises da casa sugere alocar nelas no máximo 10% da carteira. Deve-se levar em conta ainda que o baixo giro dessas empresas na Bolsa pode dificultar a venda dos papéis, quando necessário.
Olho nos resultados
Por outro lado, ações de empresas mais capitalizadas, por serem mais visadas, costumam ter preços mais próximos do que é considerado "justo" por analistas. Por isso, é mais raro encontrar distorções em papéis que compõem o Ibovespa do que no grupo das small caps.
É comum, portanto, que os fundos se diferenciem do resto do mercado com "achados" entre ações fora dos holofotes.
Paciência e capacidade de leitura do cenário econômico podem beneficiar quem quiser surfar a retomada das small caps. Apesar do otimismo, o gestor da Trígono chama atenção para a assimetria de riscos:
" Muita gente está comprando o que já subiu muito e vendendo o que caiu. Sendo que os fundamentos das empresas também importam.
Para Roger, os papéis de empresas menores dos setores de construção civil e varejo já embutem expectativas de um cenário muito benigno, que talvez não se confirme, especialmente se o custo do crédito continuar elevado.
Entre small caps, ações de setores de consumo, varejo, educação e construção costumam atrair mais investidores. Mas não são as que entram no portfólio gerido por Roger. Suas apostas são os setores fora do radar do grande mercado, como o de bens de capital, autopeças e etanol.
" Tupy, Mahle Metal Leve, São Martinho e Jalles Machado são empresas com resultados consistentes, mas ainda ignoradas pelos grandes fluxos " diz Roger. " O que vai chamar a atenção do mercado para as small caps são os resultados. Assim como o banco americano JPMorgan descobriu a Mahle Metal Leve pelo salto nos resultados e números descontados na Bolsa, outras casas estrangeiras podem mudar essa história. Conforme for, chamam a atenção de gestoras e plataformas de investimentos locais para o que ninguém estava vendo até então.
A tarefa da pessoa física, então, é ficar atenta à esses movimentos e pegar uma carona.