Lunes, 02 de Febrero de 2026

Em vez de bloquear, ‘seguir o dinheiro’

BrasilO Globo, Brasil 1 de febrero de 2026

Entrevista

Entrevista
No primeiro ano de regulamentação das bets no Brasil, o CEO da BetMGM, Almir Ribeiro, avalia que foi possível começar a oferecer para o público brasileiro que gosta de entretenimento on-line um ambiente seguro e com regras. O principal desafio, diz, continua sendo o mercado ilegal, que representa 40% do setor, segundo estimativas.
Como o Brasil está entre os cinco maiores do mundo, com faturamento de R$ 32,2 bilhões e 27,5 milhões de jogadores em 2025, a fatia de 40% para o chamado "mercado cinza" é muito expressiva. Para Ribeiro, o Pix pode ser a chave para reduzir a ilegalidade das bets no Brasil.
" Em vez de bloquear sites, o regulador precisa "seguir o dinheiro" para chegar aos operadores financeiros ilegais. O Pix é totalmente rastreável e pode ajudar a construir um ambiente ainda mais seguro " disse, em entrevista ao GLOBO, o CEO da BetMGM, que é uma joint venture entre a MGM International e o Grupo Globo, como sócio minoritário.
Como avalia 2025, o primeiro ano de legalização das bets no Brasil?
O primeiro ano de regulamentação é de celebração. O Brasil vai encontrando seu lugar no mundo para oferecer ao público que gosta de entretenimento on-line algo crível, regulado, com regras, um ambiente mais seguro e responsável. E onde o Estado brasileiro se faz presente. Foi um ano de evolução para o regulador (a Secretaria de Prêmios e Apostas, SPA, vinculada ao Ministério da Fazenda) e os operadores. Mas ainda existem desafios.
Quais são eles?
O primeiro é o mercado ilegal, que ainda é muito significativo no Brasil (estima-se que as bets irregulares representam 40% do segmento). No Reino Unido, 93% do mercado é legal. Na Itália, 90%, e nas Filipinas, 86%. Temos uma regulamentação que foi feita olhando para o que existe de melhor no mundo. Mas ainda podemos evoluir.
Como coibir essa prática ilegal e melhorar a reputação das bets junto à opinião pública?
Existe muita confusão em relação ao que é o mercado ilegal e o legal. O ilegal é um ambiente onde não existe nenhum controle de limite de apostas ou se as pessoas vão realmente receber se ganharem. Não se sabe se estão jogando em um ambiente que é justo e seguro, se os jogos são testados. Para reduzir a ilegalidade, eu acredito que o governo brasileiro deveria fazer o que é feito desde sempre: seguir o dinheiro.
O que isso significa?
O Banco Central (BC) pode controlar os operadores financeiros desse mercado ilegal em vez de bloquear um site atrás do outro. Eles vão sempre criar subterfúgios para seguir no ar. Você vai ter milhares de operadores ilegais com URLs (endereço na internet) diferentes. Do outro lado, há dezenas de operadores financeiros. Então, acho que é muito mais fácil coibir o mercado ilegal através do controle financeiro. Foi o que aconteceu em outros países com desafios similares. No caso brasileiro, é ainda um pouco "mais fácil" porque temos o Pix, que é totalmente rastreável. O Pix deveria ser a salvaguarda para construirmos um ambiente muito mais seguro para o cliente brasileiro.
O Congresso aprovou o aumento da tributação sobre a receita bruta das empresas (chamada de GGR) de 12%, atualmente, para 15%, em 2028. Como avaliam esse aumento?
Não funciona aumentar muito o imposto sobre quem é legal. Isso tira competitividade e fomenta o mercado ilegal. É a experiência internacional. O aumento de arrecadação virá com a coibição do jogo ilegal. Aumentar a arrecadação de quem está cumprindo a lei é injusto neste momento, com uma regulamentação tão nova. As empresas se estabeleceram seguindo as regras estabelecidas pela lei. Estamos mudando a regra com cinco minutos de jogo. Não somos contra tributos, porque eles criam uma segurança legal para atrair investimentos para o país. Mas queremos um equilíbrio competitivo.
Também foi aprovada uma série de restrições à publicidade das bets. Como você avalia essa decisão?
Sabemos que a restrição à publicidade é necessária, por exemplo, para menores de idade. Mas se você faz isso de maneira desenfreada, de novo, está mandando o jogador que gostaria de fazer uma aposta numa bet regular, que paga imposto, que gera empregos, para o mercado ilegal. Na BetMGM, levamos o jogo responsável muito a sério, não só da boca para fora. Só operamos em mercados regulados, então podemos falar disso de maneira muito tranquila, porque o jogo responsável faz parte do DNA da empresa. Eu não tenho a ilusão de que o jogo ilegal vai acabar 100%. Mas conviver com percentual de 40% de ilegalidade é totalmente inaceitável. Não existe isso em nenhum lugar do mundo.
O governo diz que mais recursos arrecadados também vão ajudar no tratamento da ludopatia (mania patológica de jogar e apostar). O que acha disso?
Eu acredito que existe também uma falta de compreensão em relação ao problema da ludopatia. A ludopatia é um transtorno de compulsão. Então, precisa tratar a compulsão. Se você proibir o ludopata de jogar, e não cuidar da compulsão, ele vai mover a compulsão dele para outro lugar, para sexo, bebida ou compras. Sem tratar a compulsão, você não trata o mal.
Algumas pesquisas de bancos e redes de atacarejo mostraram canalização de recursos das pessoas para apostas...
É compulsão. Se isso não for tratado, a pessoa vai direcionar seus gastos para seja lá o que for. Existiu um ataque muito grande ao nosso segmento. Hoje, o cliente tem a opção de limitar o seu tempo de sessão, de limitar o valor da sua aposta, de quanto ele aceita perder. Ele pode até se autoexcluir da plataforma. Nós temos ferramentas tecnológicas que zelam por isso. Existe, sim, uma briga sobre o que esse brasileiro consome. E eu acredito na liberdade. Nós deveríamos sempre oferecer a opção saudável, legal, para que o cliente possa se entreter e se divertir.
Todos esses mecanismos que você citou existem na BetMGM?
Sim, desde que o projeto começou. Tem monitoramento em tempo real do comportamento do jogador. Eu sei exatamente o score relacionado a cada um dos jogadores que estão consumindo esse entretenimento na plataforma. O meu sistema diz se o score está saudável. Temos uma ferramenta avançada que usa inteligência artificial (IA) de prevenção e predição de risco. Conseguimos de maneira muito precisa, já nas primeiras atividades do usuário, ter uma ideia se ele está predisposto a demonstrar um comportamento não saudável. A gente não quer esse usuário na base. A gente quer que ele se trate. Ele pode estabelecer limites de perda por dia, e a plataforma para de funcionar quando ele atinge esse limite. A plataforma pode alertá-lo: "a gente está achando que você jogou bastante hoje." "Você não quer dar uma parada?" Temos essas intervenções, e todas são baseadas em dados, com treinamento feito com robôs.
Muita gente trata as apostas como investimento. Como a BetMGM lida com isso?
Deixamos isso claro em todas as nossas comunicações. "Isso aqui não é uma promessa financeira. Não é um investimento pra você. É entretenimento para você se divertir." Se um jogador fala com nosso suporte e diz "eu investi tanto e esperava ter um determinado ganho", a pessoa é avisada que aposta não é investimento, não tem promessa de ganho financeiro.
A BetMGM está lançando uma plataforma proprietária. O que é isso e quais vantagens ela traz?
No mercado brasileiro, temos 170 marcas e 80 empresas licenciadas, e muitas operam com provedores que nem estão no Brasil. É utilizada uma plataforma que é comum a diversos operadores. Com uma plataforma própria, ganhamos autonomia, flexibilidade e velocidade. Ou seja, podemos oferecer um produto mais alinhado às necessidades do público brasileiro. A inteligência de pesquisa da plataforma foi feita no Brasil, pesquisamos o jogador brasileiro, fizemos propostas de design. E ela foi implementada na estrutura global da MGM, que tem engenheiros brasileiros, americanos, europeus. Nós temos plataforma própria de cadastro, de cassino, de esportes. Eu posso adicionar funcionalidades sem depender de um terceiro. Se o público brasileiro gosta mais de futebol " e aqui o futebol é rei " , de um ângulo do jogo, diferente do público lá de fora, eu coloco rapidamente essas funcionalidades. Isso sem falar da governança, supervisão, eficiência operacional e investimento em tecnologia.
Como será o mercado brasileiro em cinco anos?
Ele tende a crescer de maneira significativa. Todas as pesquisas indicam isso, e a disputa será feroz. As empresas que conseguirem atender aos requisitos de confiabilidade, tecnologia, inovação, marca, vão se tornar as vencedoras desse mercado no médio prazo. A BetMGM tem décadas de tradição. É um grupo muito conhecido por conta dos seus cassinos e tem no seu DNA o componente de entretenimento desde sempre. Com uma equipe no Brasil 100% local, temos capacidade de construir algo que faça sentido para o público brasileiro. Eu acredito que 80% do mercado vai estar restrito a cinco ou seis marcas, no máximo. E as outras marcas vão lutar pelos 20% restantes no médio ou longo prazo. Existem requisitos de tecnologia e de capacidade de investimento que ao longo do tempo vão cobrar sua conta.
Almir Ribeiro/CEO da BetMGM
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