Há vida brasileira em marte, ou quase
Uma estação de pesquisa usada por cientistas para simular possíveis futuras missões de ...
Uma estação de pesquisa usada por cientistas para simular possíveis futuras missões de astronautas a Marte é agora o lar da astrobióloga brasileira Rebeca Gonçalves, que está lá isolada com outros quatro profissionais. Ligada à Universidade de Wageningen (Holanda), ela estuda a possibilidade de plantar vegetais terrestres em outros planetas e faz parte da nova "tripulação" do projeto.
A Mars Desert Research Station (MDRS), instalação que há mais de 20 anos abriga pesquisas para ajudar em possíveis futuras missões marcianas, conta com equipes rotativas. Desde a semana passada e até o fim desta, Rebeca Gonçalves será a cientista-chefe da equipe "astronautas análogos".
A pesquisadora já publicou diversos estudos sobre agricultura interplanetária, mas desta vez, conta, é diferente.
" Aqui eu também sou parte do experimento, porque sou parte da tripulação. O experimento como um todo está calculando o gerenciamento do tempo da tripulação em todas as tarefas da base, incluindo as que eu faço na estufa " explica.
A ideia da MDRS é abrigar diferentes pesquisas voltadas para o estabelecimento de uma base habitada em Marte. A instalação é ligada à fundação Mars Society, por sua vez bancada por um clube de celebridades que inclui o bilionário Elon Musk e o ex-astronauta Buzz Aldrin, o segundo homem a pisar na Lua, em 20 de julho de 1969.
O projeto é independente da Nasa, mas já abrigou pesquisas da agência espacial dos EUA. Os monitoramentos da missão atual, que inclui os da brasileira, por exemplo, fazem parte de uma pesquisa comportamental da Nasa.
A astrobióloga vai fazer o que sempre fez como pesquisadora, mas desta vez dentro de um simulacro de colônia marciana. A paisagem local, o deserto do Domo de San Rafael, é um conjunto de morros de sedimento rico em óxidos de ferro, geologicamente similar à do planeta vermelho.
SENSAÇÃO DE ISOLAMENTO
Os profissionais conversam diariamente com o centro de controle da missão, mas em uma janela que se abre entre às 19h e às 21h. A brasileira concedeu entrevista por vídeo ao GLOBO durante um período de exceção, concedido pela comandante da missão, a espanhola Mariló Torres, logo no segundo dia de trabalhos.
Durante a maior parte da missão, a ideia é submeter os pesquisadores à sensação de isolamento, com o máximo de realismo possível.
" A gente está num deserto no meio do nada, e é muito, muito parecido com Marte. O centro de controle fica perto, mas a gente não os vê. Eles ficam atrás daquele morro ali " diz, apontando a câmera. " De lá, conversam com a gente, mas com um delay de cerca de 20 minutos.
Mariló Torres é uma "astronauta análoga" experiente. Além dela, Rebeca também é acompanhada por uma cientista indiana, um engenheiro americano e um jornalista canadense. Cada um toca seu projeto próprio dentro, mas precisa se reportar à comandante espanhola e ao centro de controle da missão.
Uma outra exceção no isolamento será aberta deppois de amanhã, quando a tripulação fará uma conversa ao vivo com interessados. O encontro simulará o delay real de comunicação, com o intervalo entre transmissão e recepção.
Rebeca vai realizar dois experimentos em sua temporada na MDRS. Em um deles vai testar o cultivo de brotos de rabanete dentro de uma estufa, usando terra que imita o solo marciano. A ideia é compará-lo com o plantio por sistema hidropônico, feito por circulação de água.
Seu outro experimento consiste em plantar, nessas mesmas condições, sementes de tomate que já viajaram ao espaço. Para isso, recebeu da Agência Espacial do Canadá dois pacotes que serão usados ali. A ideia é ver se os tomateiros brotam com saúde, mesmo após afetados pela falta de gravidade e pela radiação cósmica.
Todo o processo será documentado com dados comparativos, que depois serão analisados pela brasileira na Holanda, com seu colega Wieger Wamelink. A ideia de realizar a pesquisa numa base simulada é entender como esse tipo de atividade pode ser feito num lugar onde vários recursos são limitados, incluindo água, energia e tempo:
" A gente está imerso aqui, como se fosse mesmo uma tripulação que tem que cuidar de tudo na base, inclusive o sistema de aquecimento, as bombas de água e as roupas EVA que usamos para atividade externa.
Um dos experimentos que a cientista está conduzindo envolve sair da base para coletar amostras de solo do deserto usando traje simulado de astronauta, com circulação de oxigênio e outros dispositivos.
Alguns equipamentos no MDRS são simulações mais realistas que outras. Os módulos de pesquisa e habitação são parecidos com os dos filmes de ficção científica. Os túneis que interconectam essas estruturas, porém, são apenas tubos cobertos por lona branca.
Os túneis e módulos não são pressurizados, como teriam de ser em Marte, mas, a cada vez que os tripulantes deixam a base para atividade externa, são obrigados a esperar cinco minutos dentro de uma câmara de transição simulada.
Cinco projetos no mundo
O MDRS é dos poucos projetos de base análoga em Marte que existem hoje no mundo. Há dois na Polônia, um na Alemanha e até um mais modesto no Brasil, o Mars Habitat, no sertão potiguar.
" De todas as bases análogas do mundo, a MDRS é a mais fidedigna e moderna " conta Rebeca. " Por isso ela é agora a mais procurada pela Nasa, pela Agência Espacial Europeia (ESA) e por outros pesquisadores interessados em simular mais fielmente e profissionalmente os seus experimentos.
A perspectiva de uma viagem real a Marte ainda é distante, e por enquanto a Nasa não sabe dizer quando, e se, poderá ser realizada. Rebeca, porém, se diz entusiasmada em produzir parte da ciência que será, eventualmente, necessária para embasar tal missão. Mas na simulação, ela diz, não há muita oportunidade para deslumbramento, até porque as atividades consomem o dia todo.
" É divertido, mas ao mesmo tempo a gente tem que levar tudo muito a sério " conta a brasileira" Todo mundo trabalha bem concentrado durante o dia. Não é tipo estar em uma festa.