Sem leilão de bateria, brasil vai ter apagão
Entrevista
Entrevista
O primeiro leilão de baterias de armazenamento do Brasil, previsto para o segundo trimestre, deixou de ser algo opcional para se tornar a única alternativa a um apagão, argumenta o empreendedor austríaco. Fundador da firma de engenharia NewCharge em Florianópolis, especializada em projetos de baterias, ele é presidente da ABSAE (Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia). A entidade já reúne quase 70 empresas, da Moura à Tesla, passando por Petrobras e Axia (ex-Eletrobras). Conhecida como Bess (sigla em inglês para sistemas de armazenamento de energia em baterias), a tecnologia deve movimentar mais de R$ 80 bilhões em investimentos até 2034. Só o leilão, estima Vlasits, deve destravar R$ 10 bilhões em projetos.
Qual papel o Brasil desempenha nesse mercado em nível global?
O Brasil é emergente. No mundo, há 250GWh instalados de capacidade, sendo que China e EUA são os principais. No Brasil, estamos na faixa de apenas 1GWh. Metade está em microssistemas na Amazônia para eletrificação rural. Mas em nove, dez anos, esse mercado deve chegar a 70GWh, com R$ 80 bilhões em investimento até 2034.
Esses recursos vão ser investidos como?
As principais aplicações do Bess são três. Um terço dos investimentos deve ser direcionado a projetos de grande porte, inclusive os esperados com o leilão de reserva de capacidade. Isso porque é a única tecnologia que resolve o problema do curtailment (corte temporário da geração de grandes usinas solares e eólicas por execsso de oferta) e a falta de energia no horário de pico. Outro terço será destinado a sistemas de armazenamento por consumidores. Clientes comerciais e industriais de média tensão, como shoppings e faculdades, já começam a usar Bess para reduzir o consumo no pico.
O consumidor doméstico também?
Hoje não faz muito sentido, porque a tarifação horária não foi implementada.
E qual seria o terceiro uso?
O chamado off-grid. Estamos falando de fazendas no Nordeste e Centro-Oeste que não são bem atendidas, por exemplo, e cidades na Amazônia que não são conectadas e têm hoje como única fonte usinas térmicas a diesel, a geração mais cara e poluente. Elas representam menos de 1% da carga, mas respondem por 10% das emissões do sistema elétrico. A solução é ter usinas solares com um sistema Bess ao lado.
Qual papel o chamado leilão de baterias terá nesse ecossistema?
A partir de 2027, a gente corre o risco de ter apagão no horário de pico. Não adianta ter superávit de geração eólica ou solar se, na hora crítica, faltar energia. Isso é resultado do crescimento econômico, mas também do avanço da microgeração. Faz-se a gestão por meio das hidrelétricas, mas a capacidade de aumento de vazão das turbinas é finita. Hoje, elas seguram a barra, mas os números mostram que, já em 2027, algo mais será necessário. Daí a necessidade desse leilão de reserva de capacidade. Ele foi concebido para as 120 horas mais críticas do ano, mas acabou virando algo ainda mais essencial. O sistema elétrico precisa desse leilão. Sem ele, vai ter apagão.
O senhor citou a energia renovável. Qual papel a geração nos telhados ocupa?
O Brasil tem três usinas de Itaipu em geração distribuída. Esses geradores têm o direito de injetar seu excedente na rede, e o sistema tem que dar um jeito de consumir. Hoje, a geração distribuída usa o sistema elétrico como bateria virtual sem pagar por isso. Já tivemos episódios em que o excedente quase derrubou toda a rede. O Dia dos Pais do ano passado foi emblemático, com o Operador Nacional do Sistema (ONS) tendo que desligar hidrelétricas para dar conta do excesso de oferta. O ONS consegue também fazer o curtailment, mas não consegue fazer isso com quem gera energia no próprio telhado. A geração distribuída cresceu tanto que hoje já representa um desafio sistêmico.
Qual é sua expectativa para o leilão?
Vamos ter uma grande oferta de projetos. O governo diz que serão contratados 2GW, e nós esperamos que sejam oferecidos mais de 20GW em projetos. Ou seja, dez vezes mais. O leilão deve atrair, em uma conta simplista, algo como R$ 10 bilhões em investimentos.
Markus Vlasits , presidente da ABSAE