‘Estamos vencendo na frente de busca na era da ia’
Entrevista
Entrevista
Uma das mais promissoras startups da nova geração de inteligência artificial (IA) do Vale do Silício, nos EUA, está de olho no Brasil. Fundada em 2022 por ex-pesquisadores de Google, Meta e OpenAI, a Perplexity propôs um novo formato de buscas na internet: em vez de oferecer uma lista de sites a partir de palavras-chave, dá respostas que resumem informações de várias fontes. A solução acendeu a luz amarela do Google, que reformulou sua ferramenta de buscas, e colocou a Perplexity em rota de expansão global.
Agora, a startup busca clientes no Brasil. Quer abrir um escritório no país para se aproximar de empresas interessadas em seus algoritmos e agentes de IA, diz Dmitry Shevelenko, diretor de Negócios da Perplexity, em entrevista ao GLOBO por telefone. A oportunidade é clara: entre 2024 e 2025, o número de usuários corporativos da Perplexity no Brasil cresceu 842%, ainda que muito longe da base do Google.
A empresa virou alvo de processos por violação de direitos autorais por veículos de mídia e big techs como a Amazon no treinamento de seus sistemas de IA. "Não estamos fazendo nada que o Google não tenha feito por décadas", esquiva-se o executivo, que não lamenta a oferta fracassada de US$ 34 bilhões pelo navegador Chrome, do Google, em agosto do ano passado: "Não dependíamos da aquisição".
A Perplexity planeja abrir escritório no Brasil. Qual é o status desse projeto?
A razão pela qual estamos abrindo um escritório no Brasil é expandir nosso produto corporativo para empresas brasileiras. No estágio atual do processo, estou dedicando uma porcentagem nada trivial do meu tempo procurando o líder certo para conduzir esse esforço. Assim que encontrarmos essa pessoa, o escritório se estruturará naturalmente. O foco real é o talento, e isso definirá o cenário a partir daí.
Há data para isso acontecer?
Será quando encontrarmos o líder certo. Na era da IA, a influência que um único líder possui é tão amplificada que encontrar a pessoa certa é crucial. Não quero definir um prazo artificial, mas faremos o mais rápido possível. Vemos muita tração no Brasil e queremos investir nisso. Com certeza será em 2026.
Qual é o investimento que planejam no Brasil?
Eu não pensaria nisso do ponto de vista financeiro. Trata-se de responder às necessidades do mercado e atender às demandas das empresas brasileiras. O crescimento é limitado pela contratação do talento certo e pela expansão dessa equipe. O Brasil é uma oportunidade ilimitada para nós, impulsionada pelo ritmo de adoção empresarial.
Como as empresas brasileiras estão usando a Perplexity?
Elas aproveitam o acesso aos melhores modelos. Hoje, 43% das empresas brasileiras que já utilizam o Enterprise Pro usam múltiplos modelos de IA todos os dias. Possuem três ou mais funções de negócios dentro da empresa. Não construímos a Perplexity para todos. É um produto para pessoas inteligentes que tomam grandes decisões. É aí que o foco na precisão e na agregação dos melhores modelos faz a diferença. Na precisão, temos vantagem real porque construímos nosso próprio índice de buscas. Ele não é suscetível a manipulações de SEO. É por isso que vemos essa adoção por consumidores e empresas de alto nível: são as pessoas que mais valorizam a precisão.
A Perplexity surgiu como uma ameaça ao Google, forçado a mudar como funciona a busca. Quando o Google faz um movimento desses, o senhor considera que isso vira uma ameaça à própria Perplexity?
As pessoas preveem a morte da Perplexity desde o nosso primeiro dia. Muitas empresas grandes se inspiram naquilo em que fomos pioneiros em inovar. No entanto, aumentamos todos os dias o número de usuários e a receita. Nosso diferencial é o foco em um índice de busca da web construído para a era da IA. O índice do Google foi construído para um mundo onde você insere palavras-chave e recebe dez links azuis. Nosso índice é otimizado para uma maneira completamente diferente de interagir com LLMs (modelos de linguagem de grande escala), IA e agentes. É por isso que vemos muita adoção não apenas do nosso produto, mas também da nossa API de busca. Estamos vencendo na frente de busca na era da IA. A Perplexity não tenta ser um produto de massa. O objetivo agora não é correr contra o Google para atingir bilhões de usuários. Queremos focar em usuários empresariais e consumidores de alto nível que valorizam a melhor informação e as respostas mais precisas.
Quão difícil tem sido operar no mesmo espaço que essas grandes potências de IA?
Seria desonesto dizer que tenho um trabalho fácil. Tenho um trabalho difícil e sou bem remunerado por isso, mas temos uma vantagem incrível: nossos usuários amam nosso produto. De tempos em tempos, ocorre uma mudança de paradigma na forma como as pessoas consomem informação. Estamos vivendo essa mudança, indo de links para respostas e, agora, de respostas para ações. Esses ciclos estão acelerando. Quando ocorre uma mudança de paradigma, ela acaba neutralizando muitas das vantagens de distribuição das grandes empresas. Embora seja difícil competir, é fácil se diferenciar. Crescemos nossa receita em 4,7 vezes no ano passado e nossos usuários ativos mensais em 3,7 vezes: 92% das empresas da Fortune 500 têm funcionários que usam a Perplexity. Quatro das sete maiores empresas de tecnologia do mundo são (nossos) clientes corporativos.
O que a Perplexity poderia ter feito com o Chrome se a aquisição tivesse ocorrido?
A primeira coisa que poderíamos ter feito com o Chrome que o Google não pode fazer é usar não apenas um LLM. Parte do que faz a Perplexity funcionar tão bem é que nós orquestramos: usamos um modelo para planejamento, outro para síntese e outro para raciocínio. Você pode construir uma IA muito mais poderosa porque os modelos se tornaram tanto "comoditizados" quanto especializados. Para diferentes subtarefas, é melhor usar modelos de provedores distintos. Essa capacidade de agregação pode levar a produtos mais poderosos. O Google, com o Chrome, precisa defender as joias da coroa do AdWords. Eles são capazes de fazer coisas que não são boas para os usuários para preservar o clique nos links patrocinados. É restrição enorme, e teríamos sido pioneiros em mais inovação nesse sentido. Temos muitas maneiras de vencer, não dependíamos da aquisição do Chrome.
Como a Perplexity trabalha com esses modelos?
Utilizamos modelos privados e fazemos o pós-treinamento deles. Também fazemos o ajuste fino e pós-treinamento de modelos de código aberto. Servimos nossos próprios modelos, mas não fazemos o treinamento de fundação. Pegamos pesos de código aberto " como o Llama, Qwen ou Kimi " e fazemos o pós-treinamento sobre eles. Toda a inovação no código aberto cria uma pressão constante nos preços que mantém os custos de inferência muito competitivos. Vemos nossa vantagem na busca, na orquestração e em saber qual modelo usar para cada tarefa. Não há planos para treinar nossos próprios modelos de fundação.
E trazer anúncios para a busca, como OpenAI fez com ChatGPT?
De forma alguma.
A Perplexity virou alvo de processos e críticas por supostas violações de direitos autorais no mundo. Como a companhia responde a isso?
Sempre que há uma nova tecnologia, ocorre uma reação legal inicial. Não estamos fazendo nada com o conteúdo na internet que o Google não tenha feito por décadas: nós o buscamos e o indexamos. A Perplexity foi pioneira na IA ao sempre atribuir a fonte da citação e incluir links visíveis para os sites, pois isso é melhor para a precisão e para a transparência. O que fazemos está alinhado com o que é bom para o futuro da internet e os usuários.
Como enxerga a internet e as buscas nos próximos dez anos?
A internet provou ser incrivelmente resiliente, é um sistema vivo e dinâmico. Estou confiante de que continuará prosperando. Haverá perseguições interessantes de "gato e rato" onde, se as pessoas tentarem criar muito conteúdo ruim usando IA para inundar a internet, você precisará de uma IA muito boa para detectar e ignorar isso. Esse sempre foi o desafio da busca. Para mim, a evolução mais ampla é que, para os sistemas de IA serem úteis, eles precisam ter o contexto certo e saber quais ferramentas usar. A internet sempre será a ferramenta mais importante para qualquer agente de IA. Em termos de fornecer contexto, você precisará de outras ferramentas para entender o que está no seu dispositivo pessoal ou é compartilhado em uma empresa. Mas, em termos de conhecimento do mundo em tempo real, a internet sempre será inigualável.
Qual é a sua maior preocupação em relação ao avanço da IA?
Não estou preocupado com a tecnologia. A tecnologia não tem um ponto de vista. As pessoas podem ser o problema. Precisamos focar a estratégia regulatória não para restringir a tecnologia, mas o que pessoas fazem com ela. As pessoas não devem violar a lei. Há um benefício incrível na produtividade, na economia de tempo e nos novos "superpoderes" que as pessoas ganham com sistemas de IA. Devemos investir nisso, mantendo a consciência de que uma única pessoa pode causar mais danos e, para isso, precisamos das estruturas legais adequadas.
Dmitry Shevelenko/ diretor de negócios da Perplexity