Mais tênis, menos salto: consumo de moda se volta para o bem-estar
Na indústria de moda e nas lojas de roupas e calçados, conforto não é mais só uma resposta ...
Na indústria de moda e nas lojas de roupas e calçados, conforto não é mais só uma resposta aos hábitos impostos pelo isolamento da pandemia, entre 2020 e 2021. Contrariando previsões de que a retomada das atividades presenciais veriam uma explosão de cortes ousados e salto alto, o setor está mais voltado para modelos descontraídos e versáteis, com tecidos funcionais na pele e tênis nos pés. O bem-estar virou o motor das coleções para amplo consumo, associado à busca por uma moda menos punitiva com o corpo e mais alinhada à vida real, apontam executivos do setor.
A disseminação do trabalho remoto, com rotinas mais flexíveis, aprofunda a tendência de menos formalidade e roupas que transitam também pelos momentos de esporte e lazer. Peças antes "básicas" ganham destaque, assim como tecidos naturais e tecnológicos, modelagens mais soltas e calçados baixos, puxando investimentos em inovações.
Walter Rodrigues, coordenador do Núcleo de Design e Pesquisa da Associação Brasileira das Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), vê uma procura crescente por materiais leves, naturais e confortáveis, especialmente solados, palmilhas e laminados. Segundo ele, a tecnologia ajudou a indústria a ampliar propriedades como maciez, sustentabilidade e facilidade de manutenção com novos insumos.
" Usamos o exemplo da cadeira linda da sala na qual ninguém se sentava. Na pandemia, alguém estava em casa, sentou-se e viu que não era confortável. Houve uma troca de mentalidade " ele diz.
No iComm Group, que é dona dos portais de e-commerce Shop2gether e OQVestir, tênis respondem por 25% das vendas para mulheres. A fatia da categoria cresceu 60% em cinco anos, levando a empresa a aumentar o investimento em sapatos confortáveis em 2025.
" O tênis virou uma de nossas grandes apostas, apresentando crescimento mais acelerado que os saltos. Ampliamos o mix, oferecendo desde modelos clássicos até mais fashionistas e collabs " diz Vivian Wertheimer, executiva de marketing do Icomm Group.
Nas linhas autorais de roupas da empresa, houve ajustes para ampliar a oferta de fibras como algodão pima, cashmere e seda, além de tecidos duráveis e que não amassam. A Basiq, marca de básicos do OQVestir, teve alta de 263% nas vendas entre a coleção pré-pandemia e a mais recente. Categorias ligadas a conforto puxaram o resultado, como os tricôs, que cresceram 325%.
‘Athleisure’
Outra categoria impulsionada no pós-pandemia é a de athleisure, termo para peças que transitam entre academia, trabalho e outras atividades. Entre 2024 e 2025, as vendas da linha fitness da Privalia cresceram 8,3%. Ganham espaço peças menos compressivas e mais versáteis, favoráveis a quem tem a rotina cheia, afirma Mayra Palacios, diretora de Marketing da Privalia:
" A pandemia e o home office foram o ponto de partida, mas o que sustenta a tendência é a mudança do consumidor. Existe um foco maior em bem-estar e funcionalidade. O consumidor está menos disposto a abrir mão do conforto.
A C&A precisou fortalecer a rede de fornecedores para desenvolver tecidos inovadores, conta o diretor comercial da rede, João Souza, o athleisure exige materiais mais leves, que favoreçam a performance física dos usuários. Em lingerie, a busca é por peças que praticamente "desaparecem no corpo", com toque suave e que não marcam. Algodão de fibras mais longas, como o peruano, é outra aposta. No activewear da Riachuelo, há mais peças com cós anatômico, efeito dry (evaporação rápida), zero transparência e toque macio, diz a diretora criativa da varejista, Constanza Pedrassani.
Nesse ambiente, peças icônicas do passado estão voltado aos guarda-roupas com ajustes. Um exemplo é a calça de cintura baixa, que agora vem mais larga e com gancho maior, permitindo à mulher se movimentar melhor, explica Bárbara Barreira, líder de Estilo da Youcom, marca de moda casual do grupo Renner voltada ao público jovem.
" Nos últimos anos, ficou claro um movimento de silhuetas mais amplas, especialmente nas peças de baixo. Isso naturalmente traz mais conforto, mas reflete uma tendência estética e comportamental, não apenas uma necessidade funcional " diz a executiva.
‘Sem ansiedade’
Na indústria, o conforto também virou prioridade. A Malwee reforçou a busca por modelos mais atemporais e confeccionados com materiais que aumentem a durabilidade das peças, diz a CEO da companhia, Gabriella Rizzo:
" A demanda por conforto impulsionou uma aproximação ainda maior com fornecedores estratégicos. Foi necessário investir no desenvolvimento de novos materiais, aprimorar processos produtivos e redesenhar produtos existentes " ela conta. " O Brasil é um dos países mais ansiosos do mundo, e a moda reforça um comportamento de se sentir sempre inadequado. Quando decidimos oferecer coleções mais confortáveis, básicas e perenes, atendemos também um desejo por uma moda sem ansiedade.
A influenciadora Bia Abbate tem notado entre suas seguidoras maior interesse por peças menos provocantes. Ela nunca conseguiu definir seu estilo em três palavras (método popularizado por uma stylist americana), mas diz que "confortável" seria uma delas.
" Tenho buscado outras referências que mostram como essa ideia de valorização do corpo não é o mais necessária. É possível desenvolver mais confiança para usar uma roupa que não necessariamente vai te fazer se sentir mais magra, mas mais confortável " afirma. " Material é bem importante para mim. Para mim, não faz sentido comprar uma roupa que vai me fazer sentir calor. Tenho me importado cada vez mais com acabamentos.