Jueves, 05 de Marzo de 2026

Eua perdem espaço em educação inovação, energia e infraestrutura

BrasilO Globo, Brasil 2 de marzo de 2026

Hegemonia em xeque

Hegemonia em xeque
Em que pese seu gigantesco poderio militar, como o usado nos recentes ataques ao Irã (leia na página 24), os Estados Unidos estão perdendo espaço em aspectos que os referenciavam como a maior economia do planeta. Em artigo recente, o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, destacou evidências do retrocesso: no exame de avaliação de qualidade da educação, o Pisa, a nota americana em matemática caiu de 483 para 465 desde 2003, pior que a média da OCDE e 60 pontos abaixo da Coreia do Sul; o número de patentes da China ultrapassou o dos EUA em 2011 e em 2024 já era três vezes maior do que o americano; o investimento em pesquisa e desenvolvimento, que já foi 67% estatal, hoje é de 18%; além disso, a infraestrutura, em muitos estados, principalmente no Sul, é precária, segundo relatório da Consultoria Eurasia Group, divulgado no início do ano.
O retrocesso começou a se desenhar nas décadas de 1970 e 1980, com o aumento da desigualdade, o corte de impostos da população mais rica e o início da queda da produtividade, avalia Vale.
" Isso criou uma insatisfação crescente que levou à ascensão de Trump. O país vive um momento delicado. É forte, grande, influente, o maior PIB e não tem outro país comparável. Mas não é mais uma liderança inconteste em vários aspectos.
Geração menor de energia
Apesar de a maior parte do investimento em pesquisa e inovação vir do setor privado, Vale chama a atenção que a ciência de base é feita nas universidades, alvo de Trump:
" A China investe pesadamente em educação, formam mais engenheiros, é a capital de inovação do mundo.
Carlos Primo Braga, professor associado da Fundação Dom Cabral e ex-diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial, diz que é uma erosão relativa, o país se mantém como líder de inovação mundial, tem a estrutura militar mais poderosa do mundo, mas Trump, diz, está tomando uma série de decisões que estão "solapando os pilares da inovação", referindo-se aos ataques e cortes de verbas das universidades e instituições de pesquisa, diminuindo o investimento no setor.
" Vai afetar a médio prazo a capacidade de crescimento dos Estados Unidos em pesquisa e desenvolvimento. Em inovação, realmente, os EUA vêm perdendo posição, e só olhar o crescimento das publicações chinesas em jornais científicos, número de patentes. E os primeiros sinais de desaceleração na economia começam a ficar evidentes, com essa política equivocada de protecionismo.
O Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos cresceu 2,2% em 2025, desacelerando em relação à alta de 2,8% em 2024.
O embaixador Rubens Ricupero, ex-secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), não vê essa perda da hegemonia americana. Diz que os Estados Unidos se mantêm, desde 2000 pelo menos, na terceira posição no Índice Global de Inovação, no site da Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI):
" Constatei que, desde 2000 pelo menos, os países que se destacavam em inovação são sempre os mesmos: Suíça, Suécia, Estados Unidos e Cingapura.
O relatório da Eurasia diz que as tecnologias do Século XXI como veículos elétricos (VEs), drones, robôs, manufatura avançada, redes inteligentes, armazenamento de baterias e inteligência artificial (IA) compartilham uma base comum: pilha elétrica " que são baterias ", motores e computação embarcada.
"Domine a pilha e você poderá construir quase tudo o que a economia moderna exige. Ceda-a e você estará comprando o futuro de outra pessoa. A China a dominou. Os Estados Unidos estão cedendo-a", afirma o documento.
Eficiência em risco
A rede elétrica dos EUA está sobrecarregada, com uma demanda crescente pela expansão de data centers, diz a Eurasia. A geração de energia elétrica no país está por volta de 4 mil terawatts/hora desde 2000. A da China subiu de menos de 2 mil terawatts/hora para mais de 10 mil.
" Em energia, o recuo é dramático. A China vem investindo pesadamente naquelas áreas que Trump vem solapando, como energia solar e eólica, exatamente o oposto do que os Estados Unidos vêm fazendo neste momento " afirma Braga.
O professor da Fundação Dom Cabral diz que a China responde por 32% da energia gerada globalmente, mais que o dobro de toda a geração dos EUA. Além disso, tem vantagem na formação de pessoas nas áreas de ciências, tecnologia e engenharia, graduando quatro vezes mais que os EUA.
O aperto na imigração agrava o quadro americano, que deixa de atrair, como antes, os talentos do resto do mundo. A China não é atrativa para esses estudantes, mas afeta a formação nos EUA, afirma Braga:
" A diferença tecnológica está diminuindo muito rapidamente.
Outro complicador que tira competitividade da economia americana é a intervenção estatal que está se intensificando, alertam economistas. A decisão mais recente foi contra a startup de inteligência artificial Anthropic, que já firmou acordos para fornecer serviços ao Pentágono ao custo de US$ 200 milhões. Por divergência na utulização da tecnologia, Trump proibiu as agências federais de usar os serviços da startup. A medida veio depois de o governo ter convertido subsídios em uma participação acionária de 10% na Intel, tornando o Tesouro o maior acionista da empresa. Trump agora detém o poder de veto pessoal sobre a US Steel, e o Pentágono adquiriu 15% da MP Materials. Outro movimento foi em cima da Nvidia e da AMD, empresas que concordaram em pagar de 15% a 25% da receita de semicondutores da venda para China ao Tesouro.
"Em 2025, alertamos que o presidente Donald Trump amplificaria o capitalismo de compadrio na maior economia do mundo. O que emergiu foi a administração economicamente mais intervencionista desde o New Deal", destaca o relatório da Eurasia
"É um presidente que gosta disso, esse tipo de beija-mão, dessa relação incestuosa entre setor privado e setor público. Nesse contexto a competição fica mais frágil " afirma Vale.
Ricupero reconhece que as intervenções, "sem dúvida, são prejudiciais", mas faz ressalvas:
" Tenho, no entanto, a impressão de que são limitadas a alguns setores. Duvido que um presidente seja capaz de anular o dinamismo de uma economia aberta e pujante como a americana, que depende menos do Estado e dos governos do que a maioria das economias.
A política de Trump também tem enfraquecido o papel do dólar como reserva de valor. Na década de 1970, representava 70% da "poupança" da economia mundial. Atualmente, está abaixo de 60%, diz Braga. As reservas chinesas em dólar, por exemplo, caíram de US$ 1,5 trilhão dez anos atrás para US$ 650 bilhões, lembra Sérgio Vale.
Para Ricupero, "Trump representa a maior ameaça às instituições democráticas americanas, talvez desde a Guerra Civil", e as eleições legislativas de novembro "serão um grande teste ao autoritarismo" do presidente americano:
" A partir dessas eleições, o presidente terá provavelmente de enfrentar novo processo de impeachment iniciado pela Câmara. Passará a uma postura defensiva.
Para Ricupero, os EUA vivem uma fase "particularmente negativa da evolução histórica, em boa parte devido a Trump", mas os EUA já passaram por crises piores, como a Guerra do Vietnã, avalia.
32%
da geração de energia
elétrica vem da China que produz mais que o dobro da geração dos Estados Unidos
60%
das reservas dos países
estão em dólar. Na década de 1970, a moeda representava cerca de 70%
2,2%
foi o crescimento do PIB
dos Estados Unidos em 2025, abaixo dos 2,8% registrado no ano anterior
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