Aluguel de ações tem salto de 60% em 2025. ganhos valem a pena?
É cada dia maior o número de investidores que aprenderam que podem ganhar com ativos, além ...
É cada dia maior o número de investidores que aprenderam que podem ganhar com ativos, além do próprio investimento em si e dos proventos pagos. Prova disso é que o volume de negociações com empréstimo de ativos saltou 60% no ano passado, segundo dados da B3. O modelo é uma das formas de o investidor brasileiro turbinar a rentabilidade da carteira. Mas quando vale a pena? E há riscos para quem empresta?
De acordo com a B3, nesse período cresceu 62% o volume de negociações com os "ativos doadores" e 38% no volume de negociações com os "tomadores".
O doador é quem empresta e ganha uma renda extra com isso, a chamada taxa de aluguel. Já o tomador fica com os papéis por um determinado período, mediante contrato mediado pela Bolsa. Vale lembrar que quem aluga a ação continua a embolsar a valorização do papel e os dividendos pagos naquele período. Ou seja, se os papéis se valorizarem, o investidor ganha duplamente: com a alta das ações e com a taxa de aluguel. Se eles caírem, o aluguel reduz a perda.
Embora o empréstimo de ações seja o carro-chefe, o investidor também pode alugar units (ativos compostos por mais de um tipo ou classe de valores mobiliários); cotas de Fundos de Índices (ETFs); cotas de Fundos de Investimento em Cadeias Agroindustriais (Fiagros), Imobiliários (FIIs) e em Participações (FIPs); ações de empresas estrangeiras negociadas no Brasil (BDRs); e fundos de índices internacionais (BDRs de ETFs).
Olho na tributação
Vale ressaltar que, para poder alugar o seu ativo, ele não pode estar comprometido em outras operações. Se o papel estiver garantindo uma venda a descoberto ou vinculado a uma estratégia de opções, por exemplo, ele não pode ser ofertado para aluguel simultaneamente.
" Ainda existe o medo de perda, com a percepção de complexidade e o desconhecimento de que é possível conseguir uma renda passiva sem vender o papel. É uma ferramenta madura, segura e capaz de gerar bons ganhos adicionais. O desafio é romper mitos e mostrar ao investidor que ele pode fazer mais com a carteira que já tem " diz Gabriel Sombra, operador da mesa de aluguéis da Daycoval Corretora.
O aluguel recebido pelo doador é uma remuneração calculada com base na taxa anualizada proporcional ao tempo de aluguel. Essa taxa flutua conforme a lei da oferta e demanda, escassez do papel e volatilidade.
O valor pago por ativo varia diariamente e, segundo a B3, existe a taxa de referência D-1 (dia útil anterior), divulgada no site da própria Bolsa para que as corretoras usem como base. Durante o pregão, porém, ela pode variar.
Além disso, para oferecer suas ações para aluguel, é preciso pagar uma taxa de corretagem, que varia conforme a corretora.
Por exemplo, um investidor que alugasse durante 30 dias mil ações do Banco do Brasil, considerando o preço por papel de R$ 25,94 e taxa de aluguel de 1% (considerado um bom percentual para papéis com alta demanda), receberia no fim do período R$ 259,40 de "lucro" dessa operação.
Sobre esse valor, ainda há o desconto da corretagem, que costuma ser de 25% sobre o ganho (nesse caso, R$ 64,85), e o Imposto de Renda, que segue a tabela regressiva, indo de 22,5% até 180 dias a 15% acima de 720 dias.
O aluguel é muito comum, por exemplo, em momentos do mercado conhecidos como short squeeze. Quando os investidores que estão "vendidos", ou seja, vendem ações sem tê-las (a chamada venda a descoberto), já que apostam na baixa delas, precisam recomprá-las no mercado para desmontar a operação: eles fazem a compra e devolvem os papéis para o "doador".
Vantagens e riscos
Para o investidor pessoa física, o aluguel funciona como um "dividendo extra". Já para investidores institucionais, como fundos de pensão, pode elevar o retorno ao cotista.
" Ao alugarem ações que não estão sendo ativamente negociadas, esses fundos conseguem gerar receita extra que pode ser reinvestida em novas oportunidades. O aluguel também ajuda na gestão de liquidez, permitindo que o fundo mantenha sua estratégia de investimento sem precisar se desfazer de ativos " diz Pedro Zangrandi, superintendente de Produtos da B3.
Entre as vantagens, Sombra observa que o aluguel pode complementar o rendimento da carteira e se tornar fonte recorrente de remuneração:
" A renda mensal varia conforme condições de mercado, mas tende a se estabilizar em portfólios maiores " afirma. " Não é renda garantida, mas pode representar um ganho adicional consistente quando o investidor adota disciplina e reinveste o retorno.
O principal risco para quem empresta, diz Sombra, é não poder vender o papel enquanto ele estiver alugado. Mas a B3 mantém todos os direitos do doador durante o período de empréstimo: ele continua a receber dividendos e juros sobre capital próprio (JCP).
Para o tomador, os riscos envolvem não encontrar papéis disponíveis ou sofrer impacto caso a taxa suba demais durante o contrato. Na avaliação de Sombra, uma boa gestão de prazos e o monitoramento da demanda reduzem bastante esses pontos de atenção.
Antes de alugar, é preciso observar a taxa cobrada, remuneração oferecida, prazo do contrato, demanda e regras do Banco de Títulos CBLC, da B3, que é o ambiente de registro para o empréstimo de ações. Este conecta quem tem papéis e quer alugá-los a quem deseja tomá-los.
Sombra recomenda começar com posições pequenas, priorizar empresas que manteria por anos e revisar mensalmente os contratos. E orienta ainda manter parte da carteira livre para ajustes e acompanhar eventos corporativos que possam alterar taxas e demanda.
Segundo o operador da Daycoval, entre os perfis de ativos com boa probabilidade de remuneração atraente este ano estão ações de menor porte (small caps), voláteis e com baixa liquidez; empresas "muito vendidas"; setores cíclicos em momentos de incerteza; e companhias com grandes eventos corporativos.
" O segredo é acompanhar sinais de demanda. O mercado determina o preço do aluguel, e isso muda rápido " diz Sombra.
Caso mude de opinião, o investidor pode solicitar a devolução dos ativos a qualquer momento durante o contrato.