Planalto teme pressão sobre inflação em ano eleitoral
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou ontem que o governo está monitorando os ...
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou ontem que o governo está monitorando os impactos econômicos da guerra no Oriente Médio, especialmente sobre o preço do petróleo. Segundo ele, a equipe econômica trabalha na elaboração de diferentes cenários para orientar decisões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A instabilidade tem preocupado o Planalto, que monitora a alta do barril e teme fortes subidas que pressionariam a inflação no Brasil em ano eleitoral.
De acordo com Haddad, a orientação do presidente Lula é que a equipe econômica trabalhe com análises de diferentes situações antes de adotar qualquer medida. O objetivo, afirmou o ministro, é analisar desde cenários de menor impacto até quadros mais graves:
" O preço do petróleo está oscilando dia a dia. Você não pode, com base nisso, já ir tomando decisões estruturais que vão comprometer. Nós não podemos correr o risco de tomar decisões açodadas. Temos que observar, verificar o andar das coisas, elaborar cenários, como nós fizemos no caso do tarifaço, o cenário A, o cenário B, o cenário C, desenhar o pior cenário também.
Haddad afirmou que a volatilidade recente na cotação internacional do petróleo mostra que o quadro internacional ainda está em formação. Para ele, tomar decisões com base em movimentos de curto prazo pode gerar riscos desnecessários para a economia.
Pressão sobre Petrobras
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou na última sexta-feira que a empresa vai evitar "repassar volatilidades para o mercado interno", mas há entre aliados do governo o receio de que, ante uma eventual subida consistente nos preços do petróleo, a estatal precise reajustar os preços, o que pressionaria a inflação no país.
Como O GLOBO noticiou, entidades do setor de combustíveis apontam que já há defasagem nos preços praticados pela Petrobras em relação ao mercado internacional, de 85% no diesel e de 49% na gasolina.
Perguntado se a forte alta no preço do petróleo pode prejudicar o início de um ciclo de cortes de juros pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) na reunião da próxima semana, Haddad comparou o momento atual a episódios recentes de tensão internacional que provocaram reações imediatas do mercado, mas acabaram revertidos. Segundo ele, a alta do petróleo pode ter efeitos indiretos sobre inflação e expectativas de mercado, mas a condução da política monetária é do BC.
" O Banco Central é autônomo, tanto do governo quanto do mercado. Ele vai avaliar os dados e decidir a dose adequada (de juros) " disse Haddad, que confirmou sua saída do Ministério da Fazenda na próxima semana.
Ontem, o Ministério de Minas e Energia (MME) afirmou que reforçou o monitoramento dos fluxos logísticos de petróleo, gás natural e combustíveis e a movimentação de preços no mercado global.
O objetivo é "identificar rapidamente eventuais riscos ao abastecimento e coordenar as medidas necessárias para preservar a segurança energética e a normalidade do fornecimento de combustíveis no país", disse o MME em nota.
Segundo o ministério, foram intensificadas conversas com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e com empresas que atuam na produção, importação e distribuição de combustíveis, para ajudar a mapear eventuais riscos e antecipar possíveis impactos sobre o abastecimento.
Para centralizar o acompanhamento, o governo criou uma estrutura interna dedicada ao tema, responsável por monitorar diariamente o mercado nacional e internacional de combustíveis. A iniciativa busca reunir informações de diferentes áreas e permitir uma reação mais rápida caso surjam sinais de pressão adicional sobre o abastecimento.
Pouca exposição direta
Na avaliação do Ministério de Minas e Energia, a exposição direta do Brasil ao conflito no Oriente Médio é reduzida. O país exporta petróleo bruto e, embora ainda dependa da importação de parte dos derivados consumidos internamente " especialmente diesel ", os países do Golfo Pérsico têm participação relativamente pequena nas compras brasileiras desses produtos.
Mesmo assim, a pasta avalia que o cenário internacional exige atenção e monitoramentos permanentes.