Pessoas físicas impulsionam volume recorde de investimentos no exterior
Mesmo com dólar mais fraco e juros domésticos elevados " o que torna a renda fixa local um ...
Mesmo com dólar mais fraco e juros domésticos elevados " o que torna a renda fixa local um ímã de recursos " o investidor pessoa física no Brasil ajudou a impulsionar as remessas recordes para aquisição de ativos no exterior. Dados do Banco Central (BC) mostram que as aquisições de investimentos em carteira no exterior somaram US$ 58,8 bilhões em 2025, o maior volume anual da série histórica, indicando crescimento de 11% sobre 2024 e de 71% em relação a cinco anos antes.
Os números capturam os fluxos de todos os residentes no Brasil (pessoas físicas, fundos, bancos e empresas). Mas o quadro no varejo é acentuado. As principais plataformas de investimentos no exterior relatam crescimento acelerado de clientes e captação, mesmo num ano em que o dólar perdeu força frente ao real.
Já há o uso do Pix para remessas instantâneas e a automatização dos relatórios de Imposto de Renda, transformando o que era uma jornada burocrática em um processo de poucos cliques.
Caio Fasanella, da área de investimentos da Nomad, diz que estudos com dados de mercado (excluindo clientes da alta renda) estimam que cerca de 2% do patrimônio da pessoa física no Brasil está investido no exterior. E analistas e distribuidores do mercado convergem para a tese de que essa fatia deveria ser de pelo menos 15% a 20% do patrimônio, como proteção contra desvalorização do real e impactos do câmbio na inflação.
" A decisão de internacionalizar está cada vez menos ancorada em movimentos táticos de câmbio, e mais em lógica estrutural de alocação. O investidor passou a enxergar o portfólio global como ferramenta de diversificação perene " diz Rodolfo Buim, da XP.
JANELA DE OPORTUNIDADE
O enfraquecimento recente do dólar frente ao real está sendo lido como uma janela de oportunidade: as barreiras cambiais diminuíram, por isso o momento seria mais propício para montar posições em outros mercados.
O fluxo de envio de capital não apenas continuou em alta velocidade como, dependendo da plataforma, acelerou. Fasanella diz que os investidores perceberam a imprevisibilidade do câmbio no curto prazo, mas reconhecem que, em janelas de até dez anos, a tendência histórica de desvalorização do real fica mais clara.
Assim, a alocação dolarizada ou em outras moedas fortes vem ganhando força como estratégia de proteção patrimonial da mesma forma que a renda fixa se tornou, com os anos, o principal escudo dos brasileiros contra a inflação.
O amadurecimento do investidor se traduziu em números no mercado das plataformas globais. A Nomad registrou captação líquida recorde e dobrou seu crescimento em 2025, chegando a 3,8 milhões de clientes " alta de 90% sobre o ano anterior. O Inter cruzou a marca de 5,4 milhões de contas globais no fim de 2025, sendo 1 milhão de investidores com carteiras no exterior.
Nos meses de câmbio mais favorável para o brasileiro, o Inter registrou crescimento de quase 40% na abertura de novas contas internacionais. Segundo Felipe Marcilio, responsável por investimentos globais no banco, o dólar mais fraco também tem estimulado os aportes lá fora.
ARMADILHAS
Mas as armadilhas psicológicas do mercado de câmbio não passam completamente despercebidas. Fabio Macedo, diretor de operações da Webull, corretora americana com operação no Brasil, nota que quedas bruscas na cotação do dólar ainda geram hesitação.
" Vimos uma demanda maior quando o dólar passou dos R$ 6, no início de 2025. Agora que está perto dos níveis mais baixos nos últimos dois anos, percebemos um receio no investidor de comprar e a moeda cair ainda mais no curto prazo. A sensação de dor na perda parece falar mais alto em momentos como esse " diz.
Os dados do BC sustentam a percepção de Macedo. O volume de aquisições de ativos no exterior caiu 57% entre janeiro de 2025 e o mesmo mês deste ano. A queda pode ser explicada em parte pelo efeito câmbio, já que o dólar ficou 11% mais barato no período, mas também por conta da forte base de comparação: o mês de janeiro de 2025 registra o pico histórico de alocação externa, impulsionada pela disparada da moeda americana, a R$ 6, e pelas incertezas fiscais domésticas naquele período.
A composição do que o brasileiro compra no exterior mudou junto com as estratégias. Muitos investidores passaram a adotar o "câmbio médio", ou seja, aportes regulares para diluir o custo da moeda em vez de tentar acertar o momento exato da cotação mínima, como conta Marcilio.
Os fundos de investimento seguem sendo o instrumento mais usado, respondendo por 58% das aquisições em 2025, mas perderam participação em relação a 2020, quando chegaram a 77% do total. Mas, para o varejo, os ETFs (fundos de índice negociados em bolsa) ainda são a principal ponte para os mercados externos.
Metade dos ativos mais populares entre os investidores globais do Inter é de fundos de índice negociados em Bolsa.
PRATA E CRIPTOATIVOS
A Webull notou um incremento expressivo nas buscas por ETFs de ouro, acompanhando a alta do metal no mercado internacional. Algo similar aconteceu na Nomad.
" No nosso ranking dos ativos mais negociados na plataforma em 2025, apareceram alguns que eram menos comuns até então, como os ETFs de prata e criptomoedas. Então não vimos só a aceleração do envio de dinheiro para o exterior, mas a sofisticação, uma demanda por produtos além dos títulos do Tesouro americano ou por ETFs do S&P 500, que eram dominantes antes " diz Fasanella.
O cenário de sofisticação e diversificação encontrou na guerra entre os Estados Unidos e o Irã um novo vetor de incerteza, mas o ambiente de pró-investimento no exterior está cada vez mais popular e a tendência deve continuar.