Lunes, 30 de Marzo de 2026

Eua ampliam pressão sobre programa de médicos cubanos

BrasilO Globo, Brasil 30 de marzo de 2026

Antes mesmo das restrições ao petróleo e das ameaças sobre uma possível "tomada de poder ...

Antes mesmo das restrições ao petróleo e das ameaças sobre uma possível "tomada de poder amigável" de Cuba, o governo de Donald Trump já mirava um fluxo um pouco menos visível, mas vital para a economia do país caribenho, sob embargo econômico americano há décadas: seu programa de envio de médicos ao exterior. No ano passado, ao classificar as missões organizadas por Havana como "trabalho forçado" e sugerir que acordos firmados por outros países na área poderiam pesar nas relações com Washington, os EUA puseram um alvo no programa, buscando ampliar a pressão sobre o governo cubano. A estratégia de estrangulamento ganhou novo fôlego no contexto atual, com o agravamento da crise energética após a captura de Nicolás Maduro na Venezuela, levando países parceiros a reverem contratos.
críticas e elogios
As articulações já ocorriam desde fevereiro de 2025, pouco após a posse de Trump, quando o secretário de Estado, Marco Rubio (de origem cubana), anunciou a restrição de vistos a funcionários cubanos ligados às missões. A medida foi também estendida a autoridades estrangeiras e familiares envolvidos, sob a justificativa de que a exportação dos serviços de saúde serve apenas para "enriquecer o regime".
Desde então, países parceiros como Paraguai, Bahamas, Antígua e Barbuda, Honduras, Guatemala e Jamaica revisaram, encerraram ou reduziram seus acordos com Cuba, e outros, como a Guiana, passaram a contratar os profissionais de forma independente.
No mês passado, Philip J. Pierre, premier de Santa Lúcia, outra nação insular do Caribe, afirmou que Washington vinha pressionando seu governo para que deixasse de enviar médicos a Cuba para treinamento. Em comunicado, Washington negou ter tratado do tema com o país, embora tenha reiterado suas exigências para o "fim da exploração e do trabalho forçado" do programa.
O principal destino dos profissionais cubanos, porém, sempre foi a Venezuela, numa cooperação consolidada há mais de duas décadas. Segundo dados do Ministério da Saúde Pública de Cuba, em 2025 cerca de 24 mil profissionais de saúde atuavam no exterior, mais da metade na Venezuela. Porém, com a queda de Maduro e a subsequente ruptura do fluxo de petróleo " Caracas pagava a Havana pelos serviços dos médicos com o envio de dezenas de milhares de barris à ilha caribenha " o acordo foi desorganizado, com muitos relatos de profissionais cubanos deixando o país.
Cuba começou a enviar médicos ao exterior em 1960, após sua suspensão da Organização dos Estados Americanos (OEA) no contexto da Guerra Fria. A primeira missão foi composta por 56 médicos, enviados a uma recém-independente Argélia, país africano que ainda hoje mantém laços estreitos com Havana.
Estima-se que, em seis décadas de existência, o programa tenha enviado cerca de 600 mil médicos ao exterior, contemplando 160 países, incluindo o Brasil. O modelo consiste em acordos bilaterais nos quais os governos dos países parceiros pagam por serviços médicos a Havana, que, por sua vez, retém parte substancial dos valores antes de repassar salários e benefícios aos médicos voluntários.
Na prática, porém, o arranjo é amplamente criticado não apenas pelo governo americano, mas também por especialistas e organizações de direitos humanos, como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional, que apontam restrições à liberdade de expressão, vigilância e coerção.
" A Organização Internacional do Trabalho considera o não pagamento integral e direto dos salários aos trabalhadores como uma forma de exploração " explica ao GLOBO o historiador e presidente do Conselho para a Transição Democrática em Cuba, Manuel Cuesta Morúa. " Além disso, ao chegarem aos países para onde os médicos cubanos viajam, seus passaportes são confiscados pelos funcionários que os acompanham nessa missão. É uma espécie de escravidão moderna.
Segundo a pesquisadora cubana Marlene Azor, doutora em Ciências Sociais e Humanas pela Universidade Nacional Autônoma do México, além da retenção de parte dos salários " frequentemente estimada em mais da metade do valor pago pelos países contratantes " há regras rígidas que regulam o comportamento dos profissionais no exterior.
Relatores do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (OHCHR) expressaram, em 2019, preocupações sobre as condições relatadas no programa, que poderiam, de fato, configurar trabalho forçado. Ao mesmo tempo, a ONU reconhece o impacto positivo do programa na ampliação do acesso à saúde em países mais pobres e alertou, em 2025, que pressões externas, como as de Washington, para encerrá-lo podem afetar tanto esses serviços em nações dependentes quanto a economia cubana.
salários baixos em cuba
Estimativas independentes, entre elas as da Cuba Archive, organização de direitos humanos com sede em Miami, indicam que a exportação de serviços, sobretudo médicos " mas também de trabalhadores da construção civil, educadores e outros profissionais " rende ao governo cubano mais de US$ 4 bilhões (cerca de R$ 20 bilhões) por ano. Mas, mesmo com as receitas, os salários em Cuba seguem extremamente baixos, o que leva muitos profissionais a aceitarem as missões no exterior.
" Um médico especialista ganha cerca de US$ 16 (R$ 83) por mês em Cuba, o que não dá nem para comer. Chega ao hospital e não há medicamentos e insumos médicos " diz Azor. " Ou seja, trabalham em condições paupérrimas.
Segundo um relatório do observatório Cuba Siglo 21, fundado pelo ativista opositor Juan Antonio Blanco, a Gaesa (conglomerado empresarial controlado por militares cubanos) teria se apropriado de cerca de US$ 69,8 bilhões (R$ 365 bilhões) dos salários dos médicos enviados ao exterior entre 2008 e 2022, e investiu somente 1,61% (US$ 1,7 bilhão, ou R$ 8,9 bilhões) em Saúde Pública.
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