Domingo, 05 de Abril de 2026

País tem dificuldade de ir além do curto prazo nas crises externas

BrasilO Globo, Brasil 5 de abril de 2026

Diante do impacto da alta internacional do petróleo " gerada pelos ataques de EUA e Israel ...

Diante do impacto da alta internacional do petróleo " gerada pelos ataques de EUA e Israel ao Irã " sobre os combustíveis no Brasil, o governo Lula recorre mais uma vez à desoneração de tributos e subsídios temporários para conter preços. No caso dos fertilizantes, prevalecem monitoramento de mercado e recomendações de cautela, soluções emergenciais que evidenciam a dificuldade do país de enfrentar vulnerabilidades de segmentos econômicos importantes a choques externos.
Esse padrão ocorre historicamente em outras frentes. Na política comercial, o governo alterna entre elevar tarifas de importação para proteger setores com baixa competitividade e zerar impostos para ampliar oferta e conter pressões de preços. Na energia e na agricultura, recorre a intervenções pontuais para amortecer choques internacionais, mas não a soluções estruturais que possam reduzir os riscos.
Apesar do discurso do governo em favor de políticas de autossuficiência em combustíveis e fertilizantes, por exemplo, a Petrobras não conseguiu executar um plano viável economicamente com esse objetivo nos últimos anos. Num país ainda muito dependente do transporte rodoviário, apesar da autossuficiência em petróleo a produção nacional de diesel é menor que a demanda. Hoje, 30% do consumo nacional é importado.
A questão da autossuficiência em diesel ganhou relevância com o aumento da instabilidade global, após a volta de Donald Trump ao poder.
Dinâmica antiga
Na semana passada, a presidente da estatal, Magda Chambriard, afirmou que a empresa está revisando seu plano de negócios e estuda a possibilidade de tornar o Brasil autossuficiente em diesel em cinco anos. Mas não é primeira vez que o governo e a estatal falam em aumentar a capacidade de refinarias.
A dinâmica não é recente. A dificuldade de enfrentar gargalos históricos " como a baixa produção doméstica de insumos agrícolas, fragilidades na segurança energética e a limitada inserção em cadeias estratégicas " atravessa governos. Na hora da crise, o país reage, mas raramente se antecipa, apontam especialistas.
Para o economista Alexandre Manoel, sócio da Global Intelligence and Analytics (GIA), embora ações de curto prazo possam ser justificáveis em momentos de choque, a recorrência indica vulnerabilidades persistentes que o país continua a não enfrentar estruturalmente. Ele alerta para o impacto fiscal dessas medidas emergenciais. Para conter a alta do diesel decorrente da disparada da cotação do petróleo, por exemplo, a conta do pacote de subvenção desenhado pelo governo já chega a R$ 20 bilhões. O governo ainda avalia subsidiar o gás de cozinha e o combustível de aviação, em medidas que devem ser oficializadas esta semana.
Para o economista, além do custo direto, há efeitos macroeconômicos relevantes. Subsídios podem aliviar preços no curto prazo, mas não resolvem as causas do problema e ainda elevam a percepção de risco fiscal, o que tende a pressionar os juros, encarecendo o crédito em toda a economia.
" A conta não desaparece, ela muda de lugar no tempo e reaparece na forma de juros mais altos " afirma.
Sandra Rios, diretora do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes), avalia que o problema está na forma recorrente como o país lida internamente com choques externos, apoiando-se em subsídios que não resolvem de fato os efeitos das crises e, em muitos casos, os prolongam. Ela cita como exemplo o programa Brasil Soberano, criado após as medidas comerciais dos EUA, que impuseram uma sobretaxa de até 50% sobre produtos brasileiros:
" Concedeu crédito subsidiado a setores que não necessitavam. Muitos acabaram redirecionando exportações para outros mercados, com crescimento das vendas externas, enquanto os que não conseguiram redirecionar não se beneficiaram, porque os financiamentos exigiam compromisso com manutenção de emprego, inviável nesse contexto.
Claudio Frischtak, ex-economista do Banco Mundial e líder da Inter.B Consultoria, vê na resposta do governo à atual crise a repetição de um padrão. Para ele, o uso recorrente de subsídios, desonerações e outras medidas emergenciais alivia o curto prazo, mas não resolve fragilidades estruturais.
" O país vem derrapando há anos, sem avançar para uma economia mais competitiva e dinâmica " afirma.
Governo vê avanços
O secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Guilherme Mello, diz que o governo tem adotado não apenas medidas emergenciais, mas também uma agenda estrutural para aumentar a resiliência da economia brasileira diante de choques externos. Segundo ele, a capacidade de o país atravessar crises recentes " como o tarifaço de Trump e a alta do petróleo em meio à guerra no Irã " está ligada a decisões acumuladas ao longo dos mandatos petistas.
No caso da atual crise energética, Mello afirma que o Brasil se beneficia de investimentos do passado no setor de petróleo, como o desenvolvimento do pré-sal, que transformou o país em exportador líquido da commodity e, portanto, também beneficiário da alta da cotação global. Segundo ele, isso reduz a vulnerabilidade externa e permite que o governo adote medidas para mitigar impactos internos:
" A alta do petróleo tem efeitos positivos sobre o PIB, a balança comercial e o câmbio, o que abre espaço para políticas de compensação.
Mello afirma que medidas de curto prazo, como subsídios para conter a alta do diesel, são necessárias em momentos de crise, mas frisa que elas não estão dissociadas de uma estratégia mais ampla:
" O que garante nossa resiliência hoje são essas políticas estruturais, que foram retomadas e fortalecidas.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) diz que o governo tem adotado políticas estruturais para fortalecer o parque industrial e reduzir vulnerabilidades externas, como a Nova Indústria Brasil. O programa reúne crédito e incentivos a produtividade, inovação e competitividade em cadeias produtivas e geração de empregos qualificados. A pasta argumenta que mudanças estruturais exigem tempo, mas destaca que o governo tem cumprido seu papel de dar respostas de curto prazo às crises, como medidas para conter a alta dos combustíveis.
La Nación Argentina O Globo Brasil El Mercurio Chile
El Tiempo Colombia La Nación Costa Rica La Prensa Gráfica El Salvador
El Universal México El Comercio Perú El Nuevo Dia Puerto Rico
Listin Diario República
Dominicana
El País Uruguay El Nacional Venezuela