Brasil emplacou 100 mil carros elétricos em apenas três meses
Nos três primeiros meses de 2026, o Brasil emplacou 100 mil veículos eletrificados, ...
Nos três primeiros meses de 2026, o Brasil emplacou 100 mil veículos eletrificados, informou ontem a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). O número surpreendeu a entidade que representa as montadoras no país, já que, no mesmo período do ano passado, foram emplacados 54 mil eletrificados. O número considera vendas entre janeiro e 6 de abril.
" Cem mil emplacamentos de eletrificados é um número bastante surpreendente e temos de observar que eles se consolidam, mês após mês, como realidade no mercado brasileiro " disse Igor Calvet, presidente da Anfavea, lembrando que a média mensal dos emplacamentos de eletrificados vem mantendo ritmo de crescimento de 15% nos últimos meses.
A maioria dos eletrificados vem do exterior, mas a produção local aumentou um pouco. Segundo Calvet, 42% dos eletrificados emplacados no primeiro trimestre deste ano foram produzidos no Brasil, enquanto, nos três primeiros meses de 2025, a fatia foi de 23%. As importações de veículos da China cresceram 69% em um ano. A Argentina era o país que mais exportava veículos para o Brasil até o início do ano passado e perdeu esse posto para a China.
" Há oito meses consecutivos que os chineses são os maiores exportadores de veículos para o Brasil " disse Calvet, lembrando que "o interesse dos chineses se dá também em outros segmentos da economia e não há vedação para isso", mas defendendo a produção local. " Empresas chegando com carros elétricos estão testando o novo mercado e haverá uma acomodação natural. Mas defendemos que as empresas "enraizem" sua produção por aqui, o que será saudável para o mercado brasileiro.
Produção local
O presidente da Anfavea lembrou que a isenção de imposto de importação para kits CKD (completamente desmontados) e SKD (semidesmontados) de veículos eletrificados terminou em 31 de janeiro. O executivo não acredita que o governo retome esse benefício. O modelo de montagem com essas estruturas vem sendo usado pela chinesa BYD em sua unidade de Camaçari, na Bahia, onde a produção começou, em fase de testes, em meados do ano passado, com direito a uma cerimônia de inauguração em outubro.
Calvet voltou a afirmar que a Anfavea não faz distinção de origem do capital para investimento, "até porque grande parte das montadoras associadas têm capital estrangeiro" e refutou que haja "guerra da Anfavea contra os chineses", mas ressaltou que as políticas públicas de incentivo à produção local no Brasil levaram as montadoras instaladas há anos no país a investirem em fábricas com processos de pintura, soldagem, estamparia, usando fornecedores locais e fazendo pesquisa e desenvolvimento por aqui.
" Esse modelo que foi criado no Brasil emprega 1,3 milhão de pessoas " disse o presidente da Anfavea. " Foi a escolha de um modelo de produção que não pode ser mudado da noite para o dia. Não é um embate com China, mas, sim, uma discussão sobre qual modelo de produção queremos ter. Se é importar, parafusar os carros e vender ou ter um processo produtivo completo.
Anteontem, Antonio Filosa, presidente global da Stellantis, fabricante de marcas como Fiat, Peugeot, Citroën e Jeep, disse que o governo deveria criar um mecanismo de equalização de competividade da indústria automobilística nacional com as fabricantes chinesas que estão chegando ao Brasil. Para o executivo, assim como os Estados Unidos impuseram tarifa de 100% aos veículos chineses e a Europa estuda seguir caminho semelhante, seria preciso garantir a sustentabilidade do ecossistema de produção brasileiro.
Calvet disse que a Anfavea vem discutindo com o governo sobre isso e ressaltou que uma das principais agendas da entidade é a Reforma Tributária. A batalha da entidade é para que as etapas fabris sejam um critério para definir as alíquotas do futuro Imposto Seletivo. Apelidado de "imposto do pecado", o tributo pretende desestimular o consumo de produtos nocivos à saúde e ao meio ambiente e vai incidir sobre bens como cigarros, bebidas alcoólicas, bebidas açucaradas e combustíveis fósseis " veículos poluentes foram incluídos.
" Há imprevisibilidade e insegurança no setor sobre o assunto.O setor automotivo tem um grande porfólio de produtos e ainda não sabemos qual imposto incidirá sobre eles. O IPI verde é a base, e lá tem vários critérios de enquadramento diferentes por produto. Mas não temos informação e acesso sobre o texto que está sendo discutido " afirmou Calvet.
Melhor março desde 2013
Para além do desempenho dos carros eletrificados, março foi o melhor mês em emplacamentos desde 2013, segundo a Anfavea. Foram emplacadas 269,4 mil unidades frente a 185,2 mil em fevereiro, alta de 45%. Em relação a um ano antes, o crescimento foi de 37,5%. Entre janeiro e março, foram emplacadas 625,1 mil unidades frente a 551,8 mil no mesmo período do ano passado, alta de 13,3%.
Já a produção de veículos no Brasil atingiu 264,1 mil unidades no mês passado, melhor resultado mensal para o setor desde outubro de 2019, segundo a Anfavea. A quantidade representa uma alta de 27,6% em relação a fevereiro passado e um avanço de 35,6% frente a março de 2025. No primeiro trimestre de 2026, a fabricação nacional somou 634,7 mil autoveículos, crescimento de 6% sobre o mesmo período do ano passado.
" Março surpreendeu, mas o foco está em abril. Março foi diferente do que estávamos esperando, mas não dá ainda para dizer que é uma tendência para o restante do ano " afirmou Calvet, lembrando que, apesar do início de um ciclo de cortes, a Selic (taxa básica de juros, hoje em 14,75% ao ano) ainda está elevada, e encarece as parcelas das vendas a prazo, principal modalidade do comércio de veículos. Além disso, as oscilações das cotações do petróleo e do dólar, em meio à guerra no Oriente Médio, sinalizam cautela para o setor.