Renda fixa digital promete retorno maior, mas investidor precisa olhar além da taxa
O mercado de renda fixa digital cresce rapidamente no Brasil, puxado pelo avanço dos ...
O mercado de renda fixa digital cresce rapidamente no Brasil, puxado pelo avanço dos recebíveis tokenizados " modelo no qual empresas transformam valores a receber em ativos digitais para captar recursos. Mas muita calma nessa hora, investidor. Apesar da promessa de ampliar o acesso e oferecer retornos mais elevados, especialistas alertam que a facilidade de investir pode esconder riscos. Na prática, semelhantes, ou até maiores, aos do mercado tradicional.
A expansão recente ajuda a explicar o interesse. O volume de operações vem acelerando e pode chegar a R$ 7 bilhões em 2026, com crescimento anual estimado entre 40% e 50%, segundo o Relatório Renda Fixa Digital 2026, elaborado pela consultoria de inteligência financeira DeFin Global.
Só em 2025, mais de 80% das emissões " que ultrapassaram R$ 3 bilhões " se concentraram no segundo semestre, indicando que o mercado ganhou tração mais recentemente. Ao mesmo tempo, o valor médio das operações aumentou, passando de R$ 2,3 milhões para R$ 5,6 milhões, o que sinaliza uma evolução de ofertas menores e mais experimentais para estruturas mais robustas, também de acordo com o levantamento.
Na prática, a tokenização permite que empresas, principalmente de pequeno e médio porte, captem recursos diretamente com investidores, sem depender de bancos ou grandes estruturas do mercado de capitais. Do outro lado, o investidor encontra uma alternativa à renda fixa tradicional, com potencial de retorno maior.
" Existe um estigma de que tokenização é criptomoeda, e não é " explica Arthur Coelho, fundador da plataforma Tokeniza. " O token não é o ativo, é o instrumento. Nesse caso, são contratos inteligentes que estabelecem todos os detalhes de uma emissão.
Fabrício Tota, diretor de novos negócios do Mercado Bitcoin (MB), lembra que a missão do mercado de capitais é conectar quem precisa de dinheiro a quem quer investir:
" Existia uma lacuna de empresas médias que não eram bem atendidas, e a tokenização ajuda a preencher esse espaço.
Segundo ele, a tecnologia permite estruturar operações mais rápidas e baratas " em alguns casos, em menos de dois meses, contra até seis meses no modelo tradicional " reduzindo intermediários e aumentando o retorno potencial para o investidor.
Mas é justamente essa simplicidade na distribuição que acende o sinal de alerta.
" O problema é que o material de divulgação muitas vezes fica muito focado na rentabilidade. O investidor vê 20% ao ano e compra, achando que está protegido só porque tem um lastro por trás " afirma Alexandre Freitas, sócio e diretor-presidente da Oliveira Trust.
Segundo Coelho, a rentabilidade alta é possível porque a tokenização elimina intermediários:
" Já houve caso em que o emissor disse que podia pagar 4,5% ao mês, mas não aceitamos. Seria impossível convencer o mercado de que não era golpe.
Nem todo ‘lastro’ é igual
Na prática, esse "lastro" (ou seja, o ativo que dá suporte à operação, como um fluxo de pagamentos futuros) pode variar bastante em qualidade. E nem sempre há uma estrutura robusta por trás para garantir que aquele direito será efetivamente honrado.
Do ponto de vista jurídico, o desafio começa antes mesmo da análise de risco. Para Erik Oioli, sócio de Mercado de Capitais do VBSO Advogados, ainda há uma dificuldade básica de classificação desses ativos, o que pode confundir o investidor:
" Muitas ofertas usam termos conhecidos, como CRI ou CRA, mas na prática são estruturas diferentes. Isso dificulta a compreensão do que, de fato, está sendo comprado.
Segundo Oioli, a ausência de padronização e de enquadramento claro nas regras do mercado de capitais pode levar o investidor a assumir riscos sem perceber, especialmente em operações que não seguem o mesmo nível de exigência das tradicionais.
Isso porque, diferentemente de papéis mais conhecidos, como CRIs e CRAs (ligados aos setores imobiliário e do agronegócio), muitas operações tokenizadas envolvem ativos menos padronizados, como recebíveis de projetos específicos, precatórios ou até royalties artísticos.
" Quem está olhando se a garantia está correta? Se está formalizada? Quando o investidor compra direto numa plataforma, pode estar assumindo um risco muito alto sem perceber " diz Freitas.
A própria Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já reconhece essas limitações e discute mudanças no modelo. Hoje, a maior parte das ofertas ocorre dentro da chamada Resolução 88, que regula o crowdfunding (contratos de investimento e captação coletiva).
A regra impõe limites e proteções " como teto de captação de R$ 15 milhões por ano e investimento máximo de R$ 20 mil anuais para investidores não qualificados (com menos de R$ 1 milhão em aplicações) " e exige a divulgação de informações padronizadas sobre os riscos, além de um termo formal de ciência por quem investe.
Mas há uma restrição importante: não há um mercado secundário estruturado. Quem compra esses ativos pode ter dificuldade para vendê-los antes do vencimento.
Na prática, a negociação ocorre de forma limitada, em ambientes que funcionam mais como um "mural" de interesse entre compradores e vendedores, sem garantia de liquidez, o que pode levar a perdas ou descontos relevantes, segundo a DeFin.
Diante disso, a CVM colocou em consulta pública uma proposta de revisão da CVM 88, com o objetivo de ampliar os limites de captação para R$ 25 milhões/ano e adaptar o modelo ao crescimento das emissões, especialmente as tokenizadas. Em paralelo, na Agenda Regulatória 2026, a autarquia vai colocar em discussão o Projeto 135 Light " a revisão das resoluções 135 e 31 com foco em mercados menores e tokenização " a fim de dar mais liquidez e escala a essas operações.
E a proteção?
Outro ponto sensível é a estrutura de proteção. Em operações tradicionais, como CRIs e CRAs, há a figura do agente fiduciário, responsável por representar os investidores e fiscalizar o cumprimento das obrigações. Nas ofertas menores, como as tokenizadas, isso nem sempre está presente.
" Se der problema, quem vai cobrar? Quem representa os investidores? " questiona Freitas.
Enquanto isso, especialistas recomendam começar pelos ativos mais próximos do mercado tradicional " como CCBs (cédulas de crédito bancário) ou estruturas mais conhecidas " e só depois avançar para operações mais complexas.
E é essencial olhar além da rentabilidade prometida.
" Primeiro vem o lastro, depois a qualidade do crédito, as garantias, a estrutura da operação. A rentabilidade deveria ser a última coisa a ser analisada " diz Freitas.
Tota ressalta que é preciso entender o que tem dentro da operação. Segundo ele, "nem todo produto com garantia é seguro, e nem todo produto sem garantia é ruim".
" Token é o instrumento criado em uma nova tecnologia. O produto, o ativo, tem que ter qualidade, assim como no mercado tradicional " diz Daniel Coquieri, presidente da Liqi Digital Assets.
A tokenização não elimina os riscos, apenas muda a forma como eles aparecem. E, em um ambiente ainda em construção, entender o que está por trás de cada operação faz a diferença entre oportunidade e armadilha.