Impasse sobre ypê provoca incerteza e muda mercado
A diretoria colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) retirou da ...
A diretoria colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) retirou da pauta de ontem da autarquia a avaliação do recurso apresentado pela Ypê contra a decisão da agência que suspendeu a fabricação, comercialização e distribuição de parte dos itens da empresa. A análise ficou para amanhã. O impasse afeta não só a reputação da empresa líder do setor e a confiança dos consumidores nos sistemas de controle sanitário no país, mas também o comércio e o concorrido mercado de produtos de limpeza.
A Ypê teve lotes de 25 itens das linhas de detergentes, sabão em pó e desinfetantes suspensos pela Anvisa e pela Vigilância Sanitária de São Paulo desde a última quinta-feira. A empresa entrou com recurso contra a medida e apresentou 239 ações corretivas, o que suspendeu os efeitos da decisão até avaliação do colegiado, que acabou adiada para esta sexta-feira. Ontem, porém, a Anvisa informou que identificou a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em mais de 100 lotes de produtos da marca na fábrica de Amparo (SP), todos com a numeração terminada em 1. O total de unidades contaminadas não foi informado.
RETIRADA DE PRODUTOS
O GLOBO percorreu seis supermercados em São Paulo e notou a ausência praticamente total de produtos da Ypê em diferentes categorias. Mesmo itens que não estão relacionados aos lotes suspensos sumiram das prateleiras. O GLOBO visitou unidades das redes Dia, Carrefour, Pão de Açúcar, Mambo, Sacolão Perdizes e Zaffari em diferentes bairros da cidade. Apenas em uma delas, da rede Dia, havia itens da marca. No Rio, os supermercados começaram a realizar as trocas dos produtos da Ypê já na última quinta-feira.
A Associação de Supermercados do Estado do Rio (Asserj) diz que o recurso apresentado pela fabricante suspendeu temporariamente as restrições impostas pela Anvisa, mas manteve a recomendação de cautela sobre os produtos. No Supermercado Mundial, no Bairro de Fátima, a gerente Emilene Von Held, relata muitos pedidos de troca.
" Procuramos pelo valor da compra na nota. Quando as pessoas não têm a notinha, nós tentamos buscar no sistema pelo CPF, porque fica registrado. A gente tenta ajudar o consumidor no que for possível " diz Emilene, acrescentando que os produtos Ypê foram substituídos nas prateleiras por outras marcas.
AA Ypê é líder do segmento, mas seu desgaste reputacional deve aumentar a participação de marcas de detergentes como Limpol e Minuano; multinacionais como Unilever, Procter & Gamble e Reckitt também tendem a ganhar mercado. Com a redução da oferta, marcas concorrentes já ocupam maior espaço nas gôndolas dos supermercados. Produtos da linha Limpol, da Bombril, por exemplo, ganharam visibilidade e ampliaram a presença nas prateleiras.
Segundo o último anuário da Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes (Abipla), o segmento movimentou US$ 7,17 bilhões em 2024. Apenas a categoria de detergentes para louças respondeu por R$ 133,3 milhões em vendas, com consumo aproximado de 1,97 milhão de litros.
A CEO da AGR Consultores, Ana Paula Tozzi, diz que a marca tem uma relevância enorme dentro da categoria de limpeza no Brasil, especialmente em detergentes para louças. No anuário da associação que representa o setor, a Ypê dizia estar em 95% dos lares brasileiros no ano de 2024.
" É uma história de confiança construída ao longo de décadas. Os números são grandes o suficiente para entender o gigante impacto dessa crise " diz a executiva.
Segundo ela, quando uma marca líder em categorias ligadas à higiene e limpeza enfrenta questionamentos sanitários, o dano reputacional tende a ser grande, porque afeta diretamente a percepção de segurança e confiança do consumidor.
Ana Paula ressalta que o fato de um episódio semelhante já ter ocorrido em 2025 pode reforçar a sensação de recorrência e agravar o problema:
" Se essa crise será duradoura ou não depende muito mais da velocidade e da reação do consumidor e do que é problema técnico em si. Marcas líderes conseguem sobreviver a crises relevantes quando atuam rápido, assumem protagonismo na comunicação.
Do ponto de vista competitivo, ela avalia que abre-se espaço para concorrentes:
" Quando uma líder com quase 40% de share sofre interrupção operacional ou desgaste reputacional, o varejo rapidamente começa a distribuir espaço de gôndola e o consumidor testa alternativas. (*Estagiária sob supervisão de Pedro Carvalho e **estagiária sob supervisão de Danielle Nogueira)