Martes, 19 de Mayo de 2026

Custo da lavoura sobe, preço dos grãos cai, e inadimplência dispara

BrasilO Globo, Brasil 18 de mayo de 2026

apesar de safra recorde

apesar de safra recorde
aperto no agro
Com a colheita praticamente concluída, a safra de soja do Brasil bateu novo recorde, ajudando o crescimento econômico do primeiro trimestre " o IBGE divulgará os dados do Produto Interno Bruto (PIB) daqui a duas semanas ", mas os produtores rurais estão cada vez mais apertados. E as perspectivas preocupam. A guerra no Oriente Médio elevou custos, enquanto o início do El Niño, o fenômeno climático causado pelo aquecimento das águas do Pacífico, espalha incerteza para a próxima safra.
As cotações da soja, que balizam a receita na hora de vender, estão em R$ 122,27, na média de maio, ante R$ 128,14 em igual mês de 2025, conforme indicador do Cepea, centro de pesquisas econômicas da Esalq, a escola agrícola da USP. Como os custos não param de subir, o que sobra para o produtor é pouco. O aperto já vinha do ano passado, mas piorou desde que EUA e Israel iniciaram os ataques ao Irã.
fertilizante mais caro
A disparada nas cotações do petróleo encareceu fertilizantes e óleo diesel e os custos financeiros deverão continuar elevados " com a inflação pressionada, o Banco Central (BC) já avisou que a queda da taxa básica será mais lenta. Assim como as famílias, os produtores estão endividados. Tudo isso achata ainda mais as margens de lucro.
Na safra de soja terminada agora, foram colhidas 180 milhões de toneladas, 5% acima da safra anterior, segundo a Conab, estatal do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). As exportações somaram 40,2 milhões de toneladas de janeiro a abril, maior quantidade já registrada no período, e a produção total de grãos também deverá ser recorde, com 358 milhões de toneladas " ainda falta a segunda safra de milho.
Mesmo assim, um estudo da Serasa Experian, que estimou as margens da produção de soja conforme o perfil dos produtores " os mais arriscados têm as menores margens ", mostra que os resultados da safra 2024/2025 já tinham ficado longe da bonança de 2021 e 2022. Em 2026, deverão piorar mais, nas projeções de Dyego Santos, gerente de soluções agro da Serasa Experian.
Erick Van den Broek, administrador da Fazenda Tropical, que ocupa 1,5 mil hectares em Montividiu (GO), sentiu isso ao término da safra de soja deste ano, apesar da boa produtividade, ligeiramente abaixo do ano passado.
" Os preços (da soja vendida) estão abaixo dos do ano passado. E os custos foram acima. Piorou a margem " resume o produtor, que ainda espera queda de 30% a 40% na segunda safra de milho, porque choveu pouco em abril em Goiás.
Para enfrentar os problemas, a Fazenda Tropical aposta em insumos biológicos, na diversificação da produção e na governança. Segundo Broek, metade da adubação de suas lavouras já é feita com fertilizantes orgânicos, produzidos na propriedade, e a criação de 8 mil cabeças de gado ajuda os resultados finais, já que a rentabilidade da pecuária está mais vantajosa atualmente:
" Estamos sempre olhando custos e gestão de riscos. Já passamos por vacas gordas e vacas magras, essa situação vai passar.
O aperto espalha sinais de crise. Ano passado, a Serasa Experian mapeou 1.990 pedidos de recuperação judicial de produtores e na cadeia de fornecedores, maior número desde que o monitoramento começou a ser feito, em 2021.
impacto do el niño
Este ano, a taxa de inadimplência no crédito rural atingiu 12,7% em março, ante 4,6% um ano antes, conforme o BC. O Banco do Brasil (BB), que enfrenta aumento de calotes no crédito agrícola desde fins de 2024, voltou a mencionar o problema ao explicar a queda de 54% no lucro líquido do primeiro trimestre.
Se o cenário já é de crise com safras recordes, tudo pode piorar com o clima. O El Niño tem 82% de chance de começar entre este mês e julho, segundo a NOAA, a agência do clima do governo americano.
Segundo Celso Oliveira, meteorologista sênior da consultoria TempoOK, os modelos só apontarão com maior precisão a intensidade do El Niño por volta de julho. Tipicamente, o fenômeno provoca mais chuvas ao Sul e mais seca ao Norte, com temperaturas acima da média. Nem sempre um El Niño forte resulta em eventos climáticos mais extremos, pondera Oliveira, mas a produtividade das lavouras costuma cair quando ele ocorre. As primeiras vítimas de agora serão as culturas de inverno, com destaque para o trigo, colhido até a primavera.
" Tem um efeito logo de cara para trigo, aveia e cevada. O excesso de chuvas (no Sul) acaba trazendo de 10% a 15% de perdas em relação às safras anteriores em anos de El Niño " diz Oliveira, acrescentando que, para a soja e o milho, o perigo é uma seca severa no Cerrado, mas essas culturas só seriam atingidas no fim do ano, auge do El Niño, já na próxima safra.
E o aperto financeiro dos produtores aumenta o risco. Na última quebra, na safra 2023/2024, os produtores estavam com o "tanque cheio" das elevadas margens de 2021 e 2022, lembra Santos, da Serasa Experian. Agora, com o "tanque vazio", a tendência é que os produtores economizem no custeio da próxima safra, com sementes menos resistentes e gastos menores com fertilizantes e remédios contra pragas.
" Se tem uma seca, e as lavouras não estão bem nutridas, a queda de produtividade é maior. Uma planta nutrida resiste mais " explica Carlos Alfredo Guedes, gerente de Agricultura do IBGE.
Até a queda do dólar " que evita uma pressão ainda maior da inflação " veio num momento ruim, quando os produtores estão terminando de vender a soja. Um dólar mais fraco significa menos reais de receita para o agricultor, já que os grãos são cotados na divisa americana, apertando mais um pouco as margens na safra atual, diz Bruno Fonseca, analista do banco holandês Rabobank, especializado em agronegócio. Fonseca não vê recuperação no curto prazo.
Economistas lembram que a atividade agrícola é cíclica, com descasamento ao longo do tempo entre oferta, demanda e preços, mas a crise atual passa pela bonança de 2021 e 2022. De acordo com Santos, da Serasa Experian, os casos típicos de pedidos de recuperação judicial envolvem grandes proprietários, que usam o arrendamento de terras como modelo de expansão, têm uma produção muito concentrada na soja e se endividaram demais:
" Mesmo produtores com arrendamento tinham margens de dois dígitos em 2021 e 2022. Isso acelerou investimentos na ampliação de área. Só que essa janela foi muito rápida, se fechou já na safra de 2023.
Renegociação de dívida
Com a crise instalada, o governo será convocado. O BNDES aprovou R$ 7,5 bilhões no programa BNDES Liquidação de Dívidas Rurais, encerrado em fevereiro, com execução abaixo dos R$ 12 bilhões previstos. Os empréstimos permitirão que o produtor pague dívidas e contas em atraso, parcelando o novo crédito em até nove anos, com um de carência, e juros menores. Foram 27,8 mil operações, com valor médio de R$ 270 mil, informa o banco de fomento.
Além disso, tramita no Senado um projeto de lei (PL) que prevê o uso de R$ 30 bilhões do Fundo Social do Pré-Sal para renegociar dívidas rurais. Segundo o Mapa, a medida proposta pelo governo pretende renegociar R$ 82 bilhões em dívidas. A pasta promete ainda que o Plano Safra 2026/27, que começa em julho, será "adequado às necessidades do setor", e garante que "esforços estão sendo feitos para superar as condições estabelecidas no Plano Safra passado". "O agro brasileiro enfrenta uma conjuntura que pressiona, financeiramente, parte dos produtores. Não é um problema de capacidade produtiva, mas de margem", diz uma nota enviada pelo Mapa ao GLOBO.
Senadores da bancada ruralista trabalham para melhorar as condições do PL em tramitação, enquanto o Ministério da Fazenda atua para endurecê-las, para mitigar gastos públicos.
Para a economista Silvia Matos, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o excesso de gastos dificulta uma redução dos juros, que beneficiaria todos os produtores. A equipe do FGV Ibre projeta crescimento de 0,9% no PIB no primeiro trimestre ante o quarto de 2025, com avanço de 2,1% na agropecuária " o PIB será puxado também por outras medidas do governo que impulsionaram o consumo, projeta Silvia. Só que o efeito de mais uma safra recorde é passado, e as margens achatadas não favorecerão novas expansões, diz a economista.
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