‘O desafio é crescer no segmento premium no brasil’
Entrevista
Entrevista
Em meio a um mercado de smartphones pressionado por juros altos, crédito restrito e custos crescentes, a Motorola aposta em uma estratégia dupla para voltar a crescer no Brasil: avançar no segmento ultrapremium e oferecer financiamento direto para o consumidor. Em entrevista ao GLOBO, o CEO da operação brasileira, Rodrigo Vidal, diz que o país funciona como uma "gincana", exigindo preparo constante para lidar com a volatilidade macroeconômica, ao mesmo tempo em que segue como um dos mercados mais relevantes para a marca.
A empresa acabou de lançar nova linha de smartphones ultrapremium. Qual é o objetivo?
No cenário global, o Brasil é o quarto maior mercado de smartphones, atrás de Índia e China, que disputam a liderança, e dos Estados Unidos, em terceiro. Para a Motorola, o Brasil é o terceiro maior mercado, atrás de Índia e Estados Unidos. Na China, por questões geopolíticas, ainda não temos uma presença tão forte. O desafio agora é crescer no segmento premium no Brasil. Somos muito fortes com as linhas Moto G, Edge e Razr, que são os dobráveis, mas ainda faltava uma atuação mais robusta no ultrapremium. Esse segmento traz valor aspiracional para a marca.
E por que lançar agora, em um momento de vendas fracas para o setor?
O primeiro ponto foi ter um produto competitivo, já que ficamos fora desse mercado ultrapremium por muito tempo e queríamos voltar oferecendo uma experiência à altura da concorrência. Sabemos que o consumidor tem uma certa inércia para trocar, pois já está acostumado com uma marca e com um sistema operacional. Existe essa barreira, e entendemos que precisamos mostrar uma experiência diferente. Nosso objetivo foi apostar em uma linha com alta qualidade técnica e bom custo-benefício. Estamos tendo a melhor venda da Motorola da história.
E como está o desempenho?
O segmento premium, de forma geral, representava cerca de 13% do faturamento global há três anos e meio. Hoje, já representa 35%. No último ano, o segmento no Brasil aumentou 30%. Fizemos uma grande evolução em câmeras. Foi um esforço global que envolve também inteligência artificial, com soluções que permitem ao usuário explorar o melhor da câmera sem ser um especialista em fotografia profissional. Apostamos em parcerias, como com a Pantone, o que nos permite avançar no uso de cores. Antes, predominavam preto, branco e dourado. Hoje, os celulares coloridos representam 65% das vendas. Outro destaque é a parceria com a Bose, referência mundial em áudio. Temos ainda a parceria com a Dolby Atmos. São investimentos grandes que temos feito.
Os preços podem subir este ano com a crise dos chips?
O aumento deve acontecer em algum momento. Há uma crise global (no fornecimento) de memória, um problema novo neste ano. Ela reduz a disponibilidade de componentes e eleva os preços. Procuramos nos preparar, aumentar estoques e nos antecipar a esse cenário. Por fazermos parte de um grupo grande como a Lenovo, conseguimos ter uma visão global do que está acontecendo e nos planejar melhor. Esse tipo de impacto não depende de um único país, marca ou categoria e afeta diversos setores, como PCs, TVs e até automóveis, todos dependentes de componentes como memória. Não há uma regra geral. Empresas que se prepararam melhor podem demorar mais para repassar os aumentos, enquanto outras terão mais dificuldade.
E tem ainda o preço do petróleo no frete...
Trabalhamos com inteligência logística para otimizar cargas e mitigar parte desse efeito, mas é algo que afeta principalmente nossos parceiros. Sabemos que, ao repassar custos para o consumidor, isso afeta o volume produzido e vendido. Buscamos absorver o máximo possível. Mas há um limite. Chega um ponto em que não é possível evitar o repasse desses custos.
Qual é a estratégia de preço para oferecer um valor mais atrativo ao consumidor?
A empresa criou uma solução chamada Dimo, que é uma opção de financiamento oferecida ao varejo. Muitas vezes, o varejo tem solução de crédito próprio, mas em alguns casos vendeu sua carteira para bancos, que podem ser mais restritivos na concessão. Por isso, passamos a oferecer essa alternativa. Quando o consumidor final chega à loja e não consegue aprovação no crédito tradicional disponível no varejo, ele pode recorrer ao Dimo, que é a opção de financiamento da Motorola.
A Copa do Mundo pode estimular as vendas do setor?
O consumidor hoje tem planos de telecom cada vez mais completos, pois usa mais dados e quer estar conectado o tempo todo. E isso se reflete no crescimento do mercado pós-pagos. Agora, com a Copa do Mundo, esse comportamento tende a se intensificar. Para assistir aos jogos, nem sempre haverá uma TV disponível, mas o streaming estará no celular, que está sempre à mão. Será a Copa do streaming. Essa será a grande transformação em relação às edições anteriores. E o celular será a principal ferramenta para isso, com qualidade e acesso ao conteúdo.
E o que estão planejando para a Copa?
Junto com o Dolby Vision, vamos oferecer uma transmissão nesse padrão. Em parceria com o time técnico da Globo, estamos ajustando os parâmetros de software para que a transmissão chegue com a codificação necessária para entregar esse benefício. A ideia é oferecer a alta qualidade de vídeo que já temos, com telas Extreme Amoled, de altíssima resolução, mas também o padrão Dolby Vision, combinado ao áudio Dolby Atmos e ao som da Bose, proporcionando áudio espacial e uma percepção mais sensorial, com efeito de imersão. E, na imagem, melhor definição de cores, contraste e fluidez. Isso garante nitidez em diferentes velocidades, tanto em cenas rápidas quanto lentas, sem pixelização e com maior suavidade durante toda a transmissão.
Como vai avançar o uso da IA?
A primeira frente é a performance dos produtos para melhorar bateria, câmera e processamento. Fazemos isso há cerca de dez anos. A segunda frente é a IA generativa, voltada ao desenvolvimento de um assistente para o usuário final. Essa solução tende a simplificar a interface. O usuário não precisará mais acessar diversos aplicativos para realizar tarefas. Ele poderá interagir com o assistente para executar ações como ouvir música, reservar um cinema ou fazer compras. Isso deve trazer uma grande facilidade na experiência. A tendência é clara. A discussão é o tempo que isso levará para se consolidar.
Rodrigo Vidal / ceo da operação brasileira da motorola