Força latina alimenta gigantes do streaming no audiovisual
Há 10 anos, a Netflix lançava sua primeira produção brasileira, "3%", sobre um futuro apocalíptico ...
Há 10 anos, a Netflix lançava sua primeira produção brasileira, "3%", sobre um futuro apocalíptico em uma região fictícia. Desde então, o investimento da empresa no Brasil, Argentina, México e outros países do continente mudou de patamar, alçando a América Latina a um novo papel no mercado global de conteúdo. Assim como a concorrente, a Disney+ tem ampliado as produções originais latinas, com prioridade para as audiências caseiras, sob a bandeira "local para o local". Ontem, no Rio2C, representantes das duas plataformas explicaram detalhes das suas estratégias.
As recentes premiações a filmes como o brasileiro "Apocalipse dos Trópicos" e séries como a argentina "O Eternauta" e a colombiana "Cem anos de Solidão" mostram que aliar prestígio artístico e sucesso comercial foi um plano bem-sucedido. Segundo Paco Ramos, VP de Conteúdo da Netflix para a América Latina, as chaves foram o respeito à cultura local e à liberdade artística dos criadores. Parte disso se deu com a abertura de escritórios próprios nos países latinos, tirando a tomada de decisão de Los Angeles. Hoje, a Netflix tem 30 escritórios fora dos EUA.
" Para que uma obra viaje, ela precisa ser profundamente local, não faz sentido "domesticar" histórias para torná-las internacionais. Quanto mais específica, mais universal ela se torna. Por isso, nossas equipes são locais. Não dá para entender o Brasil sem brasileiros " frisou Ramos, que defendeu a força da indústria " A exportação cultural é fundamental. Nenhuma indústria exporta mais "marca país" do que a cultura.
Essa estratégia reforçou a ideia de que obras originais e locais, como um thriller político na ditadura militar brasileira, retratado em "O Agente Secreto", têm o poder de dialogar com audiências do mundo inteiro. Um contraste com o paradigma de 20 anos atrás, quando se acreditava que o sucesso internacional de um filme demandava replicar fórmulas hollywoodianas.
" O streaming democratizou a distribuição. Você não precisa mais pertencer à indústria dominante para alcançar o mundo. Hoje, a qualidade é o passaporte " afirmou Ramos.
Parceria em processo
A Netflix não tem um modelo único de produção e parcerias, explicou Ramos. A maioria das produções é original, com 100% de financiamento próprio, mas também há coproduções, aquisições e licenciamentos, especialmente no Brasil, onde a indústria é mais forte. Assim, há projetos em que a plataforma atua desde o início e outros em que a parceria é estabelecida durante o processo.
O longa-metragem inédito "Vicentina pede desculpas", dirigido por Gabriel Martins (de "Marte um") e produzido pela Filmes de Plástico, é um dos exemplos recentes com financiamento e contrato de licenciamento junto à Netflix.
" Esse modelo pode dar atenção a várias produções muito bonitas e arriscadas e ilumina a real diversidade do cinema nacional " diz Gabriel Martins. " Algo que, na minha opinião, ainda não é contemplado de maneira geral.
A audiência também parece aprovar o modelo. Nos últimos cinco anos, a Netflix teve 60 títulos brasileiros em seu top 10 global, destacou Elisabetta Zenati, VP de Conteúdo da Netflix Brasil.
" Quando você consegue se conectar emocionalmente através dos personagens e das histórias, você realmente alcança a massa " afirmou Zenati, citando casos recentes de sucesso como "Energia Radioativa", "Caramelo", "Os Donos do Jogo" e "Pedaço de Mim". " São histórias que foram pensadas para o público daqui. Mas aí a audiência global reconhece a autenticidade daquela história, essa força, e vai assistir.
No caso da Disney+, saciar a audiência local é o primeiro objetivo, para depois pensar no mercado internacional, explicou Eric Schrier, diretor de Originais Internacionais, Programação Estratégica e Mídias Emergentes da empresa. Hoje, a plataforma possui operações no México, Argentina e Brasil, e o plano é ter um programa novo por mês em cada um desses três países, com perspectiva de dobrar o volume atual nos próximos três anos.
" Nossa estratégia é "local para local". Se funciona bem no mercado local, pode viajar. Mas não dá para criar uma série pensando primeiro no global, isso normalmente resulta em algo genérico, sem identidade. As melhores histórias vêm de criadores com algo genuíno a dizer " explicou o executivo da Disney. Além do foco em produções locais, a empresa ainda tem o objetivo de expandir seu público para além do conteúdo infantil, com a Hulu e as transmissões esportivas da ESPN.
(Colaborou Gustavo Cunha)