Seleção solitária
Hoje, o Brasil começa a sua trajetória na Copa do Mundo da América do Norte " Canadá, Estados ...
Hoje, o Brasil começa a sua trajetória na Copa do Mundo da América do Norte " Canadá, Estados Unidos e México são as sedes da vez ", sem o favoritismo de edições passadas e com poucas referências dentro de campo.
Pois Nelson Lima Neto, da turma da coluna, trocou dois dedos de prosa com Ruy Castro, mineiro, 78 anos, mestre na arte de contar histórias e causos do Brasil e dos brasileiros, sendo autor das biografias de Mané Garrincha ("Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha"), Nelson Rodrigues ("O anjo pornográfico") e Carmen Miranda ("Carmen - uma biografia").
Apaixonado pelo futebol, este flamenguista roxo " tema de um dos seus livros, de nome "O vermelho e o negro", editado em 2001 " brinca que o título de que mais se orgulha é o de sócio honorário do Flamengo. Isto vindo de um membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e vencedor de nove Jabutis, o "Oscar" da literatura brasileira.
A conversa com ele buscou analisar o sentimento, na sua opinião, dos torcedores quanto ao futebol " e seus craques " e à Copa do Mundo, sentimento esse que já moveu a nação em décadas passadas e que tem arrefecido com o tempo, além de interpretar as mudanças de comportamento, tanto dentro quanto fora de campo.
O Brasil estreia hoje e, para você, qual é a maior diferença na relação dos brasileiros com a seleção ao longo das décadas?
A seleção era do povo quando os craques jogavam aqui. Terminada a Copa de 1982, começou o êxodo. Nos anos 1990, tinha-se a impressão de que, para eles (jogadores), a seleção era um estorvo. O bom era jogar na Europa. E, de uns tempos para cá, só passamos a conhecê-los durante a Copa. Quase nunca com muito prazer.
Ainda é possível dizer que a seleção brasileira é um "orgulho nacional"?
Não. Acho que amadurecemos, temos outras coisas mais importantes para pensar.
E você acredita que a política influencia mais hoje a relação do torcedor com a seleção do que em outros momentos?
Não. A ditadura ganhou uma Copa do Mundo, em 1970, e perdeu todas as outras (1974, 1978 e 1982). Nem por isso caiu. A política só influencia se entrar em campo e apitar o jogo.
Sobre o evento em si, é possível identificar algo que esteja presente em todas as edições da Copa do Mundo?
Com os torcedores, é o de sempre: começam meio indiferentes e depois se empolgam. Já a organização fica cada vez mais complexa, em função dos fornecedores, que, a cada Copa, aumentam e precisam mostrar seus produtos. E os jogadores, como sempre, têm de se virar para jogar pela seleção o que jogam por seus clubes, onde são muito mais bem treinados e entrosados. Toda seleção, com respeito pelos gatos, é "um saco de gatos".
Quais as diferenças que você enxerga no tratamento do brasileiro com os seus ídolos no futebol nas décadas passadas e nos tempos atuais?
Os craques do passado eram amados. Nomes como Bellini, Didi, Garrincha, Vavá, Pelé, Gérson, Jairzinho, Tostão, Falcão, Zico, Sócrates, Júnior... Os de hoje são, se tanto, admirados, em alguns casos, pelo que jogam e invejados, em todas as situações, pelo que faturam.