Fenômeno tende a beneficiar produção de fontes renováveis
No setor elétrico, o debate em torno do El Niño costuma se concentrar nos reservatórios ...
No setor elétrico, o debate em torno do El Niño costuma se concentrar nos reservatórios das hidrelétricas. Há, porém, outro ponto que merece atenção: o que o fenômeno faz " e deixa de fazer" com a geração de energia solar e eólica, e por que isso pouco altera a dinâmica dos cortes de geração (o chamado curtailment) já enfrentados pelo sistema.
O El Niño tende a beneficiar, e não a reduzir, a produção de fontes renováveis intermitentes. Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da consultoria especializada Nottus, explica que a concentração de chuvas no Centro-Sul do Brasil, padrão típico do fenômeno, libera a circulação de ventos no Nordeste, onde está a maior parte dos parques eólicos do país.
" Na teoria, deveríamos ter uma geração até maior do que o normal. A radiação solar fica muito intensa no Centro-Norte, o que inclui todo o cinturão solar, onde estão as principais fazendas " afirma Nascimento.
As meteorologistas Carine Malagolini Gama e Ana Marques, do Climatempo, acrescentam que o impacto na geração eólica em anos de El Niño é mais baixo no Nordeste, pois os efeitos chegam em um período no qual os ventos já não estão no pico. Elas ressaltam ainda que os anos de El Niño tendem a ser mais quentes no Brasil, o que eleva o consumo.
Embora as renováveis produzam mais e a demanda possa crescer por conta do calor, os cortes de geração feitos pelo Operador Nacional do Sistema (ONS) continuarão sendo necessários. Uma das razões é a diferença entre o timing da oferta e o da demanda.
Segundo Nivalde de Castro, coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ, a paralisação de geradoras é produto de um desequilíbrio entre a expansão da geração distribuída " solar, sobretudo " e a capacidade do sistema de absorvê-la:
" Isso ocorre diariamente: corta-se durante o dia de sol e acionam-se as termelétricas no entardecer, quando a demanda sobe e o sol desaparece.
A geração solar cresceu 44% em um único ano recentemente, adicionando volume expressivo de energia sem que houvesse expansão de redes de transmissão e sistemas de armazenamento por baterias, por exemplo. O resultado é que a energia mais barata é descartada em determinados momentos, enquanto as termelétricas precisam ser acionadas no horário de pico noturno.
A Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) defende a reorganização do setor, com o fim da política de subsídios. Sem a contrapartida de mecanismos de flexibilidade ou armazenamento, alerta a entidade, essa política "tem causado problemas operacionais". (Filipe Vidon)