Lunes, 22 de Junio de 2026

‘Talvez seja possível enviar sinais para trás no tempo’

BrasilO Globo, Brasil 22 de junio de 2026

Entrevista

Entrevista
As principais teorias de Albert Einstein já completaram mais de cem anos, mas cientistas que as estudam a fundo ainda podem encontrar novas implicações sobre elas, diz o físico teórico Brian Greene, autor best-seller de "O Universo elegante" e "Até o fim do tempo". Professor da Universidade Columbia, de Nova York, Greene virá ao Brasil em agosto para uma palestra na Rio Innovation Week, onde vai contar sobre seu trabalho recente derivado da teoria da Relatividade Especial, que revolucionou a física mostrando que o tempo não passa da mesma maneira em todo lugar. Uma estranha conclusão derivada de Einstein, diz o cientista, é que, em um universo com características específicas, talvez seja possível enviar mensagens para o passado. Em entrevista ao GLOBO, Greene fala sobre os principais desafios teóricos de seu campo hoje e da dificuldade para conciliar as teorias do famoso físico alemão com a mecânica da física quântica, que completa um século.
O que o senhor apresentará ao público no Rio?
Uma das principais mensagens que levarei é que, mesmo para uma ciência que já existe há mais de cem anos, ainda há novas descobertas à nossa espera. Um trabalho recente que venho desenvolvendo com colegas revisitou a teoria da Relatividade Especial de Einstein, publicada em 1905, e descobrimos algo novo. É algo que Einstein poderia ter feito, mas não fez, e tem a ver com uma estranha possibilidade de que, em certos universos, dentre os quais o nosso, talvez seja possível enviar sinais para trás no tempo. Seria possível ter conversas com outras formas de vida sencientes, caso existam. Independentemente da distância, até ter conversas em tempo real. Em outras palavras, existem alguns atalhos na forma como os sinais podem atravessar o cosmo, graças às ideias de Einstein aplicadas em um contexto inovador.
Esse envio de sinais para o passado implicaria reverter a direção normal do tempo, como o senhor descreveu em "O Tecido do Cosmo"?
Não. Eu expliquei em "O Tecido do Cosmo" que as leis da física parecem tratar o futuro e o passado da mesma forma do ponto de vista matemático, apesar de a experiência humana os diferenciar. Nós vivenciamos o futuro e o passado de maneiras diferentes. Trata-se, na verdade, de algo que torna possível enviar um sinal ao meio-dia em Nova York e ele chegar à estrela Alpha Centauri antes do meio-dia correspondente. Se eu tentar enviar um sinal para o espaço e ele for reenviado para mim, sempre retornará depois que eu o envie. No entanto, ele pode chegar ao destino para onde o enviei antes de eu enviá-lo.
O senhor tem falado sobre a "interpretação de muitos mundos" na física quântica, a possibilidade de existir outras realidades. Esse fenômeno tem algo a ver com isso?
Não, porque esse não é um fenômeno da mecânica quântica. Temos duas situações polarizadas na física atualmente: alguns afirmam que a abordagem de muitos mundos está correta e outros que ela é um completo absurdo, porque, de certa forma, foge da estrutura usual de verificabilidade e testabilidade que exigimos. A meu ver, devemos manter a abordagem de muitos mundos em nosso arsenal de ideias porque, se encontrarmos algum fenômeno que não possamos explicar com uma abordagem de "mundo único", podemos abrir esse arsenal para tentar avançar. Já existem dados que alguns físicos consideram se encaixarem nesse paradigma: as medições da chamada energia escura associada à expansão acelerada do Universo. O valor numérico da energia escura é um número tão incrivelmente pequeno, que alguns acham que nunca conseguiremos explicá-lo com a abordagem de um único Universo. Numa abordagem em que diferentes universos têm diferentes valores dessa energia escura, porém, se tivermos universos suficientes, é praticamente garantido que haverá alguns deles com o minúsculo valor que medimos.
A física teórica tem uma interface muito importante com a filosofia. Ao desenvolver novas ideias, importa para os físicos saber quando se está em território da física e quando está pisando no campo da filosofia?
No dia a dia, não muito. No nosso trabalho diário, nos sentamos à mesa com papel e lápis para fazer cálculos. Ficamos diante da lousa, rabiscando ideias que tentamos encapsular matematicamente e analisar suas possíveis implicações. Mas, em uma perspectiva mais ampla, acredito que as implicações filosóficas para a física sejam absolutamente vitais e profundas. É possível conseguir algum progresso tentando responder a questões filosóficas só pela experiência humana, mas a experiência humana pode ser um guia enganoso sobre o funcionamento real do mundo. Por exemplo, adoro conversar com meus alunos sobre o livre-arbítrio, uma ideia que muitos filósofos ainda têm debatido. A física não oferece uma resposta definitiva, mas, para mim, inclina a balança decisivamente na direção de que não temos livre-arbítrio. Eu acredito que pode haver um diálogo muito profundo entre filosofia e física, mas essa é uma conversa que nem todos os físicos estão dispostos a ter. Alguns encaram a filosofia como algo que só interessa a quem não domina a matemática. Isso é uma forma muito infeliz de ver o mundo, porque há um diálogo muito enriquecedor que surge quando as pessoas estão abertas a cruzar as fronteiras disciplinares.
O senhor escreveu sobre o problema da direção do tempo em "O Tecido do Cosmo" há mais de 20 anos. Houve algum progresso desde então na questão de por que estamos caminhando para o futuro e não para o passado?
Algumas ideias interessantes foram apresentadas. Talvez a mais surpreendente seja a de que possa haver uma simetria entre futuro e passado: podem existir regiões onde o tempo realmente corre na direção oposta. Mas essas são ideias de vanguarda muito especulativas. As ideias mais convencionais são muito semelhantes às que abordei no livro, onde imaginamos que o Big Bang, se esse for o início de tudo, foi um começo altamente ordenado. A partir dali, passamos a viver a degradação da ordem. Mas nós, seres estruturados, nos beneficiamos dessa ordem primordial, porque, se não houvesse muita ordem no início, não haveria ordem suficiente para existirmos. É uma ideia bela e coerente, mas levanta a questão: por que o Big Bang foi tão ordenado?
A cosmologia parece estar entrando numa era interessante com o Telescópio Espacial James Webb e outros observatórios poderosos. Veremos mais progresso na macroescala?
A única razão pela qual sabemos que existe um problema com a energia escura é porque equipes de astrônomos a observaram. Eles viram explosões de supernovas em galáxias distantes, com as quais foi possível determinar que a expansão do universo está se acelerando. Ao tentar entender o que vimos, percebemos que deve existir algum componente escuro que não aparece em nossos telescópios.
O senhor está escrevendo algum novo livro?
Estou terminando um livro sobre mecânica quântica, para publicá-lo mais ou menos por ocasião do centenário da teoria. Minha intenção é conduzir leitores sem nenhum conhecimento prévio do assunto ao longo das ideias essenciais da mecânica quântica até os desenvolvimentos mais recentes da computação quântica. Foi um livro concebido para ser lido de uma passada.
Brian Greene / físico e professor da Universidade Columbia,
La Nación Argentina O Globo Brasil El Mercurio Chile
El Tiempo Colombia La Nación Costa Rica La Prensa Gráfica El Salvador
El Universal México El Comercio Perú El Nuevo Dia Puerto Rico
Listin Diario República
Dominicana
El País Uruguay El Nacional Venezuela