O que falta para messi se distanciar de maradona?
Lionel Messi tem levado a sério sua possível última dança em Copas do Mundo e transformado cada ...
Lionel Messi tem levado a sério sua possível última dança em Copas do Mundo e transformado cada partida da Argentina nos Estados Unidos em um baile particular. Após tirar um peso das costas com o título, há quatro anos, ele agora acumula recordes e joga por um bicampeonato que poderia mexer num antigo vespeiro. Se seus números com a seleção já são tão superiores aos de Maradona, o que faltaria para se distanciar dele na idolatria dos hermanos?
Durante boa parte da carreira, Messi " que começará no banco de reservas hoje, diante da Jordânia " foi comparado a Maradona, geralmente sob uma ótica crítica: não era decisivo, nem tão "argentino" quanto Diego. E seu currículo com a albiceleste seguia marcado por fracassos, enquanto A Mão de Deus já havia conquistado o mundo em 1986. As vitórias na Copa América, em 2021, e principalmente no Mundial, no ano seguinte, porém, começaram a reorganizar as forças.
Hoje, os números são amplamente favoráveis a Messi. Como também ganhou o torneio continental no ano retrasado, além de uma Finalíssima, ele superou Maradona em quantidade de taças com a Argentina. E ainda tem uma vantagem confortável na média de gols " quase o dobro ", seja em Mundiais ou no somatório de todos os jogos.
" Amamos os dois. Messi é o melhor jogador de todos os tempos, mas Maradona é mágico. As gerações mais velhas dizem que Maradona era melhor, e os mais jovens, que não viram Maradona, dizem que Messi é melhor " argumenta Santiago, torcedor que está em Dallas para o Mundial.
Entre os argentinos, mantém-se a vocação para adorar tanto a um quanto a outro. Mas é um fato que as festas da hinchada começaram a refletir o crescimento de popularidade de Messi. Em Dallas, onde a Argentina jogou na segunda-feira e jogará hoje, as camisas do atual camisa 10 tomaram as ruas. Já as de Diego perderam parte do protagonismo.
O FATOR TEMPO
O jornalista Ariel Palácios, da GloboNews, avalia que, para além dos números e das taças, a ascensão da popularidade de Messi espelha uma transformação nos valores da população argentina. Segundo ele, a autoexaltação do esnobe Maradona tem sido preterida pela modéstia do previsível ídolo do século XXI.
" As pessoas hoje se identificam mais com o comportamento não futebolístico do Messi do que com o de Maradona. Aquele jeitão do Maradona pertence a uma outra geração. Já Messi é discreto, não ofende ninguém, não incentiva rivalidades... " reflete Palácios, autor do livro "Futebol Lado B", sobre histórias inusitadas do futebol pelo mundo.
O tempo também tem sido um aliado de Messi. Afinal, as novas gerações têm contato limitado e mais frio com a obra de Maradona nos gramados, ao mesmo tempo em que veem sua imagem deteriorada por escândalos explorados de maneira mais intensa após sua morte, em 2020. Já Messi se beneficiou da aceitação de que sua personalidade "europeia" nada tinha a ver com um distanciamento das raízes argentinas, mas sim refletia uma homogeneização nestes tempos de futebol global. A neutralidade política do ídolo de hoje, em contraste com a volatilidade conveniente do gênio de outrora, também pesa.
Como são muitas as variáveis, entre elas o resultado da Argentina neste Mundial, não é possível cravar se, e muito menos quando, Messi deixará o nivelamento com Maradona para assumir uma prateleira só sua nos corações argentinos.
" Não existem prazos para essas coisas, que às vezes correm mais rápida ou mais lentamente " argumenta Palacios. " Se Messi ganhar outra Copa agora, esse processo de "desmaradonização" da sociedade argentina será mais rápido.