Aposto que vai dar ruim
leo aversa
leo aversa
"Hollywood, o sucesso" ou "Carlton, um raro prazer". Quem não se lembra desses anúncios? Para quem é deste século, pode parecer uma loucura cigarros sendo anunciados na televisão, em pleno horário nobre. Pois é, aconteceu. Não só na TV: havia propaganda de fumo por todo lado: na rua, nas bancas, nos outdoors que ficavam na saída das escolas. Uma verdadeira terra de Marlboro.
Mas as pessoas não sabiam que cigarro causa câncer? Perguntarão, chocados, os millennials e a turma da geração Z. A maioria não. Achavam que até fazia mal, mas não tanto assim. Enquanto os anúncios de cigarro eram megaproduções exibidas nos intervalos das novelas, os artigos explicando os males do fumo ficavam na parte interna dos jornais. Entenderam como a banda tocava? Quem sabia muito bem o tamanho do estrago eram os fabricantes de cigarros. Quando questionados sobre os males do fumo, davam um show de cinismo e hipocrisia, dizendo que não obrigavam ninguém a fumar. "É preciso preservar a liberdade do consumidor", diziam com a inocência típica de quem vendeu a alma ao diabo. Não aprendemos nada.
"As pessoas são livres, não estou obrigando ninguém a apostar", diz a cândida celebridade, anunciando um jogo do tigrinho para seus fãs. O narrador "gente boa" usa a emoção da partida para empurrar apostas aos telespectadores. A simpática influencer recebe sem culpa o chamado "cachê da desgraça alheia", uma percentagem sobre o prejuízo causado pelas bets aos seus milhões de seguidores. "Não é ilegal", alegam, com ar angelical.
Com o cigarro, demorou muito tempo até que as pessoas descobrissem o tamanho da desgraça. E agora?
Na lista de celebridades, "artistas" e influencers levando dinheiro das bets, o que me espanta é que a maioria já é milionária. Não precisam desse dinheiro para pagar o plano de saúde dos pais ou a escola do filho, muito menos para quitar a dívida no cartão do cunhado. É uma gente podre de rica. Qual a necessidade de lucrar com a desgraça alheia? Por que prejudicar a vida de quem gosta deles? Ah, mas você viu a linha 2027 da Ferrari? Sabe quanto a autorizada cobra pela revisão de um Learjet? O IPTU da Vieira Souto está uma loucura! Desculpas esfarrapadas não faltam. O que é comum a todos é a frase "não estou fazendo nada de errado". Ninguém perdeu dinheiro apostando na falta de princípios dessa gente.
Aí entra um espanto ainda maior: como o governo e o Congresso deixaram a situação chegar a este ponto? Não é possível que os impostos arrecadados com as bets compensem milhares de famílias destruídas pelo vício. E a tal bancada evangélica? Muitos deles andam pelo Congresso com uma Bíblia na mão, se dizendo representantes diretos da vontade divina. Qual a desculpa para se fingirem de mortos sobre a jogatina? Vivem preocupados com quem as pessoas se deitam, mas, em relação a jogos de azar, têm uma misteriosa indiferença. Deus tá vendo.
Com o cigarro, levamos décadas para reconhecer a tragédia. Vamos cometer o mesmo erro com o vício em jogos de azar? Quantas famílias falidas serão necessárias para dar um basta nessa situação?
"Gosto de levar vantagem em tudo, certo?", dizia o jogador no anúncio dos cigarros Vila Rica, em 1976. Passaram-se cinquenta anos e tem gente que continua apostando na mesma teoria.