Investimentos da china no brasil entram em fase tech
Avistadas da rodovia, parcialmente escondidas por palmeiras, as fileiras simétricas de ...
Avistadas da rodovia, parcialmente escondidas por palmeiras, as fileiras simétricas de colunas de cerca de 5,5 metros evocam os grandiosos edifícios do Império Romano. De perto, porém, percebe-se que não se trata de uma ruína antiga, mas de um monumento em ascensão às ambições geopolíticas de uma superpotência contemporânea: a China.
No estado do Ceará, centenas de trabalhadores constroem um data center para a ByteDance, dona do TikTok. A instalação será o maior complexo de centros de dados da empresa fora da China, a um custo total estimado de R$ 200 bilhões (US$ 39 bilhões).
" Aqui era tudo mato e vegetação rasteira " diz o gerente da obra, Wellysson Costa, caminhando entre guindastes, betoneiras e blocos de concreto do tamanho de banheiras de hidromassagem.
Costa trabalha para a Omnia, empresa brasileira especializada na construção de data centers. No ano passado, a companhia apresentou aos executivos da ByteDance a proposta de instalar o empreendimento em uma zona de livre comércio no Ceará, evitando assim as elevadas tarifas que o Brasil cobra sobre a importação de equipamentos de informática.
‘Atributos para ser um polo’
Em menos de seis meses, as equipes de construção transformaram uma área de vegetação na estrutura de aço e concreto do complexo. Em breve, as colunas serão fechadas por paredes, e os espaços serão preenchidos com servidores e equipamentos de rede.
O complexo terá capacidade computacional inicial de 200 megawatts, com expansão prevista para 1 gigawatt. A expectativa é que a primeira unidade entre em operação no fim de 2027.
O Brasil é uma plataforma natural para as empresas chinesas de inteligência artificial (IA) que buscam ampliar sua presença global e superar suas concorrentes americanas. O país dispõe de abundante energia renovável, com hidrelétricas, usinas solares e parques eólicos.
Além disso, o Brasil é um centro estratégico de telecomunicações no Hemisfério Sul, graças aos diversos cabos submarinos que o conectam à América do Norte, à Europa e à África.
" O Brasil reúne todos os atributos para se tornar um polo de data centers " afirma Rodrigo Borges, representante no Brasil da consultoria britânica Aurora Energy Research.
A Aurora projeta que a capacidade instalada de centros de dados no Brasil mais do que quadruplicará, ultrapassando quatro gigawatts no início da década de 2030.
Distância de conflitos
Outras gigantes chinesas de tecnologia estão seguindo o exemplo da ByteDance. Segundo pessoas familiarizadas com os planos " que pediram para não ser identificadas ", a Alibaba pretende alugar espaço em um complexo de data centers a ser construído em São Paulo.
A Elea Data Centers e a Scala Data Centers, ambas apoiadas por investidores americanos, também estão planejando projetos de grande porte no Brasil e disputando contratos com big techs chinesas e americanas.
Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o data center da ByteDance no Ceará é o mais recente resultado de seu esforço para estreitar os laços entre Brasília e Pequim.
Atualmente, cerca de dois terços dos dados do Brasil são processados no exterior, o que fez da expansão da infraestrutura nacional de data centers uma prioridade estratégica para o governo.
Embora o Brasil conte com mais de 140 milhões de usuários de redes sociais, Alphabet, Meta, Microsoft e outras empresas americanas ainda não se apressaram em construir data centers no país. Um dos fatores que inibem esses investimentos é o risco de ficarem no meio de uma guerra comercial entre os Estados Unidos e o Brasil, depois do recente tarifaço.
" Os chineses estão dispostos a assumir certos riscos " afirma Eduardo Menossi, fundador do Grupo EBM, empresa de engenharia de data centers sediada em São Paulo. " O americano é mais conservador.
Menossi acredita, porém, que a guerra no Irã " durante a qual data centers da Amazon no Oriente Médio sofreram danos " pode ter tornado o Brasil mais atraente para as big techs americanas. Afinal, o país está distante das atuais zonas de conflito do mundo.
" Então, qual seria o plano B para uma empresa americana? " questiona. " O Brasil passa a ser uma região estratégica.
Nos EUA, os data centers elevaram as contas de energia, pressionaram o abastecimento de água e se transformaram em um tema politicamente delicado às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato. No Brasil, porém, até agora praticamente não houve reação.
Indígenas deslocados
Mas quando Lula esteve no Ceará, em dezembro, para anunciar o investimento da ByteDance, integrantes do povo indígena Anacé bloquearam estradas para protestar contra o projeto. Desde então, eles têm realizado manifestações esporádicas em frente ao canteiro de obras.
Para os Anacé, trata-se do episódio mais recente de uma longa história de abusos praticados por governos e investidores. No início dos anos 1990, autoridades estaduais começaram a remover famílias de suas terras ancestrais para abrir espaço à construção de um porto de águas profundas e de um parque industrial adjacente " o Complexo Industrial e Portuário do Pecém.
Posteriormente, na década de 2010, a Petrobras planejou construir uma refinaria na região, deslocando outras famílias Anacé. Esse projeto foi abandonado, deixando a área disponível para a ByteDance. Para o povo Anacé, é doloroso ver surgir um data center que consumirá tanta eletricidade quanto uma cidade de porte médio, enquanto eles convivem com frequentes interrupções no fornecimento de energia em suas terras.
" Sinceramente, não vejo nada de positivo para a nossa comunidade. Eu não apoio esse projeto " afirma Andrea Coelho, uma das lideranças Anacé.
A Omnia, responsável pela construção do empreendimento, informa que está capacitando centenas de moradores da comunidade local para trabalharem na obra como eletricistas e montadores de tubulações.
Fábio Feijó, secretário de Desenvolvimento Econômico do Ceará, afirma que o projeto da ByteDance vai atrair outras empresas para o local:
" O mundo inteiro está de olho " garante.