Lunes, 06 de Julio de 2026

Pagamento de dividendos cai 28% no ano. aplicar nessas ações vale a pena?

BrasilO Globo, Brasil 6 de julio de 2026

A alíquota de 10% de Imposto de Renda sobre os dividendos, que começou a ser aplicada este ...

A alíquota de 10% de Imposto de Renda sobre os dividendos, que começou a ser aplicada este ano, reduziu os valores pagos pelas empresas aos acionistas. As companhias distribuíram R$ 127 bilhões em dividendos e juros sobre o capital próprio (JCP) no primeiro semestre de 2026, um volume 28% menor em comparação ao mesmo período de 2025, segundo um levantamento da fintech Meu Dividendo.
Porém, os estrategistas de ações ainda consideram as empresas generosas e recomendam principalmente os papéis das boas distribuidoras de dividendos para investir neste momento, em que a perspectiva é de juros e inflação altos por mais tempo, devido ao conflito no Oriente Médio. Essas ações são consideradas defensivas, porque as companhias geralmente são de maior qualidade e os seus resultados crescem acima da média.
A taxação sobre os proventos levou a uma corrida por anúncios de distribuição de dividendos no fim de 2025, antes que o imposto entrasse em vigor. Por isso, já se esperava uma queda este ano, porque muitas companhias pegaram as reservas de caixa para adiantar o pagamento.
Além disso, as incertezas após o início da guerra no Irã e o receio de uma piora da economia levaram mais cautela à distribuição de dividendos. As expectativas para a taxa básica de juros (Selic) no fim deste ano passaram de 12% para 14%, segundo o Relatório Focus, do Banco Central. A taxa está hoje em 14,25% ao ano.
O IR sobre os dividendos mudou também a forma de repasse aos acionistas. A fatia de juros sobre o capital próprio (JCP) representou 54% do total de proventos pagos aos investidores no primeiro semestre " o maior valor da série histórica acompanhada pela Meu Dividendo, que começou em 2020.
Apesar de o JCP também ser tributado em 17,5%, as empresas podem usá-lo na dedução da base de cálculo do pagamento do IR e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), o que o torna mais eficiente do ponto de vista tributário.
" A tendência é esse movimento continuar. Contudo, o investidor não precisa se preocupar. Ao usar os juros sobre o capital próprio para deduzir a base de cálculo do pagamento de imposto, a companhia consegue melhorar os resultados e isso acaba repercutindo na valorização da ação " afirma Wendell Finotti, fundador da Meu Dividendo, que atua com antecipação de pagamentos de proventos.
A empresa que mais pagou proventos no primeiro semestre foi a Petrobras (R$ 34,1 bilhões), seguida da Vale (R$ 32,5 bilhões) e do Itaú (R$ 8,5 bilhões), conforme o levantamento. Com a ajuda da Vale, o setor de materiais básicos liderou os pagamentos pela primeira vez (R$ 36 bilhões) e superou os setores de petróleo, gás e biocombustível (R$ 35,4 bilhões) e financeiro (R$ 22,4 bilhões).
A redução dos dividendos no primeiro semestre não deve preocupar os investidores, diz Ricardo Peretti, estrategista da Santander Corretora:
" As companhias não estão falando que vão pagar menos dividendos. Não haverá crescimento dos dividendos pagos, mas a frequência de distribuição deve normalizar um pouco " afirma. " Do ponto de vista da pessoa física, dá para ficar tranquilo. Apesar do aumento das expectativas para os juros, os resultados do segundo trimestre vieram próximos do esperado, e as empresas aumentam o preço do produto final para compensar o frete mais caro e os juros maiores.
As boas pagadoras
Segundo Peretti, os juros altos afetam especialmente os negócios mais dependentes da economia local e os mais endividados, e as boas distribuidoras de dividendos navegam melhor nesse ambiente:
" Essas empresas historicamente performam melhor que o Ibovespa no longo prazo. São mais defensivas, geram um fluxo de caixa mais previsível, são menos voláteis e trazem menos susto para o investidor.
Suas preferências neste momento são três setores mais blindados contra a inflação e os juros altos: o de commodities, com dívidas em dólar e não influenciadas pela Selic, como Petrobras e Vale; o de energia elétrica, que reajusta as tarifas pela inflação, como Axia Energia e Copel; e o de telecomunicações, que também repassa a inflação, como a Telefônica Brasil.
Régis Chinchila, analista-chefe de investimentos da Terra Investimentos, espera uma normalização, menos dividendos extraordinários e maior distribuição de dividendos mais sustentáveis:
" Mesmo em um cenário de inflação mais persistente e juros elevados, as ações das boas distribuidoras de dividendos seguem tendo um papel importante na carteira. As companhias maduras, com maior geração de caixa e previsibilidade das receitas, costumam apresentar maior resiliência nos momentos de juros altos, além de oferecerem uma remuneração recorrente aos acionistas.
O analista alerta, porém, que o investidor não pode olhar apenas o chamado dividend yield, que são os ganhos sob a forma de dividendos, para comprar as ações:
" Em um ambiente de juros maiores, é mais importante ainda avaliar a capacidade futura de geração de caixa, o endividamento e a previsibilidade dos resultados da empresa. Dividendos elevados obtidos às custas de deterioração operacional tendem a não se sustentar.
Segundo Chinchila, os bancos, as empresas de commodities, as prestadoras de serviços essenciais, como energia, e as seguradoras são as principais candidatas a manter os pagamentos recorrentes. Ele cita BB Seguridade, Caixa Seguridade, Cemig, Copel, Itaúsa, Petrobras e Vale.
Pedro Galdi, analista da plataforma de investimentos e cursos AGF, espera uma normalização dos dividendos neste ano, não uma diminuição, já que as empresas só ampliaram a distribuição em 2025 para evitar a nova taxação:
" A estratégia continua sendo eficiente para horizontes de médio e longo prazo. Independentemente da inflação e dos juros, manter o processo de reinvestimento dos dividendos faz a operação ser vencedora. O importante é escolher as ações corretas.
Ele aponta as ações de bancos e empresas de energia, saneamento, seguros e telecomunicações, com destaque para BB Seguridade, Bradesco, Cemig e Santander:
" São setores perenes, que suportam qualquer crise com crescente lucratividade. Já os outros setores sofrem por outros fatores, como o de commodities, por exemplo, sujeito ao ciclo de preços e à variação cambial.
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