Fintechs avançam na concessão de empréstimos
O volume de empréstimos concedidos pelas fintechs vem crescendo e mudando de perfil, com o ...
O volume de empréstimos concedidos pelas fintechs vem crescendo e mudando de perfil, com o consignado ganhando espaço nas carteiras, além do cartão de crédito, produto que as lançou no sistema financeiro. Mas a participação ainda continua pequena frente à liderança isolada dos bancões. Especialistas e executivos do setor avaliam que é natural que qualquer mudança no "transatlântico" que é o mercado de crédito demande tempo, mas há quem defenda medidas que aumentem a portabilidade para que as "novatas" possam abocanhar uma fatia maior dos empréstimos.
Levantamento feito pelo GLOBO mostra que a participação das cinco maiores fintechs aumentou. De janeiro a março do ano passado, Nubank, Inter, C6, Mercado Pago e XP concederam R$ 253,3 bilhões em empréstimos (3,5% do total do mercado), montante que subiu a R$ 354,6 bilhões na mesma época deste ano, alcançando a fatia de 4,5%.
Por outro lado, os cinco maiores bancos do país (Itaú, Banco do Brasil, Caixa, Santander e Bradesco) concederam, juntos, R$ 4,8 trilhões em crédito (65,6%) no primeiro trimestre de 2025 e chegaram a R$ 5,127 trilhões no mesmo período de 2026 (64,8%). No fim de 2016, a concentração das operações de crédito nos cinco maiores bancos era de 74,3%. Houve uma queda relevante na última década.
Uma pesquisa da PwC em parceria com Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD) reforça o quadro. Segundo o levantamento com cerca de 40 empresas associadas à entidade, como PicPay, Stone e Creditas, a concessão de empréstimos das participantes cresceu 330 vezes na última década e alcançou R$ 53,8 bilhões em 2025 " uma alta de 51% ante 2024. Esse número, porém, representa menos de 1% do total de contratações do ano passado.
" Os números mostram a consolidação do setor. Ano a ano tem tido um crescimento significativo. Mesmo com endividamento alto e Selic (taxa básica de juros) elevada, as fintechs estão conseguindo crescer com responsabilidade " diz Daniel Gomes, diretor-presidente da ABCD e CEO da fintech Nexoos.
Gomes cita o avanço relevante das concessões em 2025, que atribui, principalmente, às mudanças no crédito consignado privado. Qualquer instituição pode se habilitar agora para conceder a modalidade para os celetistas. Antes, a concessão dependia de um convênio bilateral entre a instituição financeira e a empresa empregadora. Agora, o Crédito do Trabalhador faz a consignação por meio do e-Social, o que permite a participação de todas as instituições financeiras do país, beneficiando as fintechs.
Por modalidade, o crédito não consignado ainda foi campeão, com um saldo de R$ 10,4 bilhões, seguido por consignado para trabalhadores privados (R$ 8,5 bilhões) e para INSS (R$ 7,1 bilhões). Só depois aparecem os números de cartão: R$ 6,4 bilhões no rotativo, R$ 4,3 bilhões à vista e R$ 2,2 bilhões no parcelado.
Também houve aumento de empréstimos garantidos. Em 2019, 60% dos produtos eram sem garantia, percentual que caiu para 14% em 2025. Em 2021, apenas 34% das fintechs aceitavam garantia de qualquer natureza. No ano passado, esse índice chegou a 79%.
"Em muitos desses segmentos, a alternativa real do tomador não é o crédito bancário tradicional, mas o cheque especial, o rotativo do cartão ou o financiamento informal", afirmou Marcelo Buosi, COO da QI Tech e vice-presidente da ABCD, no estudo.
Maior competição
O professor de Finanças da FGV Rafael Schiozer destaca que o crescimento das fintechs no crédito consignado revela um amadurecimento do setor, por refletir a evolução do relacionamento do cliente, que, na maioria das vezes, foi capturado pelo acesso mais fácil ao cartão de crédito, mas já opta pela mesma instituição para contratar empréstimos. Para o especialista, a competição vem aumentando no crédito de forma geral, ainda que lentamente, o que é natural em um mercado muito grande e que guarda uma relação forte de confiança.
" No mercado em que se aventuraram, elas cresceram. No mercado de pessoa física, crescem bem mais rápido do que os bancos tradicionais. Na baixa renda, quem entra está dominando esse mercado. Será por que os bancões não se interessam? Uma parte sim. A maior parte dos beneficiários do Bolsa Família tem cartão de crédito de fintechs " disse Schiozer, que integra uma pesquisa sobre o tema na FGV.
No caso do consignado privado, o professor avalia que a política foi bem-sucedida em quebrar a barreira de entrada para as instituições financeiras devido à forma de solicitação da operação. O trabalhador recebe propostas de instituições e pode compará-las.
Esse modelo supera os desafios de distribuição de produtos que as novatas normalmente têm. Como os bancos já têm anos de tradição na oferta de crédito, os clientes normalmente resistem a mudanças, se não forem interpelados. No consignado do INSS, as novatas conseguem entrar por meio dos pregões para definição das instituições responsáveis por fazer os pagamentos.
" O crédito consignado privado criou uma espécie de Open Finance simplificado e específico para um produto, que parece ter funcionado bem " avalia Schiozer.
Open Finance
O Open Finance, criado pelo Banco Central para compartilhar dados de clientes entre bancos, não tem ajudado tanto na promoção da portabilidade de crédito, ele diz:
" O Open Finance foi criado para isso e tem funcionado aquém do que se esperava.
A Zetta, que representa fintechs como Nubank e Mercado Pago, defende que o BC aumente o Open Finance e a portabilidade de crédito e salário para aumentar a competição.