Da literatura a personagens femininas, a boa safra de enredos no grupo especial
A sete meses do carnaval, todas as 12 escolas do Grupo Especial já escolheram os enredos ...
A sete meses do carnaval, todas as 12 escolas do Grupo Especial já escolheram os enredos que vão apresentar na Sapucaí. De homenagens a grandes personagens, como ao baluarte Monarco, pela Portela, e à pioneira Tia Ciata, pela Tuiuti, passando por nova visita a Xica da Silva, no Salgueiro, além da adaptação para a Avenida de dois grandes romances da atualidade, a safra atual promete elevar o nível da disputa e já é apontada como uma das mais promissoras dos últimos tempos.
A partir das sinopses, os compositores começam a elaborar os sambas que vão embalar as apresentações e os carnavalescos passam a planejar como vão narrar a história na Avenida, além de se debruçarem sobre os croquis das fantasias, alas e alegorias, materializando o que antes só existia na imaginação deles.
" A gente vive, desde 2016, uma espécie de "primavera" dos enredos e, para 2027, a tendência de temas robustos culturalmente segue dando as cartas " avalia o jornalista e pesquisador Fábio Fabato, autor do livro "Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos", escrito em parceria com Luiz Antonio Simas.
Fé e misticismo
Fonte inesgotável de inspiração para bons enredos, a literatura brasileira dessa vez contribui com "Torto arado", de Itamar Vieira Júnior, tema do desfile da Vila Isabel, e "A cabeça do santo", de Socorro Acioli, que serve de base para o desfile da Unidos da Tijuca. O primeiro narra a história das irmãs Bibiana e Belonísia, cujas vidas ficam profundamente entrelaçadas após um acidente na infância de uma delas com uma faca misteriosa. Já o segundo acompanha a trajetória do jovem Samuel, que viaja ao sertão cearense em busca do pai e da avó e, ao se abrigar na cabeça oca de uma imagem inacabada de Santo Antônio, descobre um dom fantástico ao ouvir preces das mulheres da região.
" É uma tradição das escolas carnavalizar livros de grandes escritores, como fizeram a Portela em 1975, com "Macunaíma", a Beija-Flor em 2017, com "Iracema", e a Em Cima da Hora em 1976, com "Os sertões". Fico feliz de ver esse movimento de retorno à literatura, porque a Sapucaí é um ótimo palco para popularizar nossos grandes autores " destaca o jornalista e escritor Leonardo Bruno, que é também comentarista de carnaval e jurado do Estandarte de Ouro.
Fabato diz que o enredo da Unidos da Tijuca resgata uma linha de catolicismo popular com uma pitada pitoresca, enquanto a Mocidade, com "Latinamente independente, nosso norte é o sul em manifesto", apresenta uma crítica política apimentada à hegemonia cultural americana. Ele destaca ainda temas que miram a essência das escolas, como faz a Portela, com a homenagem a Monarco, um dos seus ícones; e a Beija-Flor de Nilópolis, de volta ao tema que quebrou seu maior jejum de títulos, desde o primeiro em 1976, ao mergulhar na história da pajé Zeneida Lima, de 92 anos. Ela é a autora do livro "O mundo místico dos caruanas da Ilha de Marajó", que serviu de base para o enredo campeão de 1998.
" O carnaval carioca segue mostrando que sua arte final definitivamente não existe. E que bom, ou seja, é produto do tempo, das reinvenções naturais da folia e das escolas, permanece em constante transformação " classifica Fabato.
Paraíso do Tuiuti, a primeira escola a definir enredo para o ano que vem, optou por um tema potente: "Ciata, a mãe preta do samba". A matriarca tem participação direta no carnaval, na formação das escolas de samba e no desenvolvimento do próprio gênero musical, além do candomblé. Conta a história que o primeiro samba gravado, "Pelo Telefone", nasceu em festas no quintal de sua casa, na Praça Onze.
Salgueiro é outra que foi beber na fonte de sua própria gênese. Francisca da Silva Oliveira, a Xica ou Chica da Silva, já havia feito história ao garantir à vermelha e branca da Tijuca, em 1963, seu segundo título, sendo o primeiro sozinha. Agora, a história será revisitada pela agremiação. O carnavalesco Jorge Silveira evita o termo reedição, com o argumento de que o desfile atual apresentará arquétipos novos e uma reconfiguração da personagem.
" Nos últimos anos, a gente tem experimentado uma melhora significativa ao dar um destaque especial à narrativa, e isso está fazendo com que os olhos de todos prestem mais atenção ao quesito enredo. Sem dúvida é um ano especial.
Lucas Milato, carnavalesco da Unidos da Tijuca, recorre ao termo "safra excepcional" para falar dos enredos do ano que vem:
" Enxergo essa potência como um espelho das riquezas que nos circundam " diz Milato. " O da Tijuca fala acima de tudo da fé do povo brasileiro, da vastidão cultural nordestina, dos inúmeros lugares a que os sonhos podem nos levar, e como sonhar deixa tudo mais leve.
João Vitor Araújo, da Beija-Flor, chama a atenção para os enredos com temática feminina. Pelo menos metade homenageia mulheres ou as tem como personagens.
" Em um ano com taxas alarmantes de feminicídio ter a mulher como protagonista é uma maravilha, uma bênção, uma alegria. Pensar que no grupo especial e nos outros também os artistas estão pensando na figura feminina como peça central de seus enredos. Assim como eu, trazendo dona Zeneida, a última pajé da Ilha de Marajó, temos Paraíso do Tuiuti, com Tia Ciata, Mangueira exaltando Iansã e por aí vai. É um ano para ficar na história do carnaval brasileiro.
Orixá Oyá
Sidnei França, carnavalesco da Mangueira, destaca que, num ano de enredos de alto nível, relevância cultural e com narrativas que atendem aos anseios do interesse coletivo, a verde e rosa volta com uma narrativa feminina, aguerrida e questionadora ao abordar o orixá Oyá como seu tema central.
" Mais uma vez as escolas de samba cumprem seu papel na valorização da cultura popular ao lançar luz à ideia de um Brasil plural e lúcido de si " avalia.
Ao falar dos griôs (guardiões de memórias ancestrais), o carnavalesco Tarcísio Zanon, da campeã Viradouro, diz que a escola de Niterói reúne em seu tema, de certo modo, as histórias de todos os outros enredos. Na sua opinião, uma boa safra valoriza a festa.
" A gente está falando do griô, que é essa figura ancestral que vem para o Brasil através da diáspora com essa missão, e também de forma estratégica poder ter a manutenção da memória preta.
A Imperatriz Leopoldinense vai contar a história da calunga, uma boneca sagrada do maracatu pernambucano, que esteve desaparecida por 30 anos, no enredo "A memória do rei e o sumiço de dona Júlia". A Grande Rio fará uma viagem a Gana, com o enredo "Sankofa Tabon, os retornados da Costa do Ouro e a estrela negra da liberdade", sobre a história de africanos escravizados libertos que se estabeleceram na antiga Costa do Ouro. Já a estreante União de Maricá, última a oficializar o tema, com "Utopia Brasil: Darcy Ribeiro", decidiu homenagear o antropólogo, educador e escritor, que viveu seus últimos anos na cidade sede da escola e lá escreveu obras como "O Povo Brasileiro".